9 em cada 10 médicos dizem ter pegado Covid nos últimos dois meses

Por causa disso, a falta de médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde é apontada como principal deficiência assistencial na atual fase da pandemia

Implantação do piso nacional da enfermagem.

Grande parte dos médicos se declara esgotada (51,1%) e apreensiva (51,6%) com o atual momento | /Felipe Barros/ExLibris/PMI2

Quase nove em cada dez médicos brasileiros relatam terem sido infectados pela Covid-19 nos últimos dois meses ou conhecem outros colegas no ambiente de trabalho que o foram.

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Essa alta taxa de contágio faz com que os serviços de saúde de todo o País registrem um grande número de afastamentos. A falta de médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde é apontada como principal deficiência assistencial na atual fase da pandemia (45%). Há um ano, essa era uma queixa de 32,5% dos médicos.

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Os dados são de um levantamento da AMB (Associação Médica Brasileira) com 3.517 médicos de todo o país, entre os dias 21 e 31 de janeiro, divulgado nesta quinta (3). A maioria (52,5%) está na linha de frente de serviços públicos e privados que atendem pacientes com Covid.

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Segundo César Eduardo Fernandes, presidente da AMB, um outro lado trágico dessa contaminação disseminada entre os profissionais é que os médicos remanescentes acabam trabalhando mais para repor os colegas afastados, sob muito esgotamento físico e mental.

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Grande parte dos médicos se declara esgotada (51,1%) e apreensiva (51,6%) com o atual momento. A percepção é que os colegas de trabalho também estão estressados (62,4%) e sobrecarregados (64,2%).

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A pesquisa não mediu a percepção dos profissionais sobre o aumento de agressões verbais e físicas no ambiente de trabalho, mas Fernandes diz que esse é fato que tem preocupado a entidade.

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“Eu compreendo a insatisfação da população, que espera horas por atendimento, a situação é dramática mesmo, mas a gente não pode aceitar agressões aos profissionais da saúde. Eles estão tão vitimados quanto. O médico está cansado, a recepcionista do hospital está cansada, o maqueiro está cansado”, diz Fernandes.

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Outro estudo ainda não publicado do médico Adriano Massuda, professor e pesquisador da FGV (Fundação Getúlio Vargas), mostra que durante a pandemia houve aumento da carga horária nos serviços de saúde, mas sem ter um correspondente no número de profissionais, especialmente médicos.

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“Em um sistema de saúde que já estava muito sucateado, sobrecarregado, essa terceira onda da Covid vem como mais um choque nesse corpo fragilizado. É esperado que isso gere todo esse tensionamento que estamos vendo”, diz Massuda.

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Outro fato que tem atrapalhado o enfrentamento da Covid na opinião de 86% dos médicos entrevistados pela AMB é a circulação de fake news e de informações sem comprovação técnica.

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Para eles, essa desinformação dificulta, por exemplo, que as pessoas aceitem as decisões dos profissionais de saúde (55%) e ou as fazem pressioná-los por tratamentos sem comprovação científica (37,7%).

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“Os números me desapontaram um pouco. Eu esperava que todos os médicos considerassem as fake news desastrosas, criminosas, mas há um percentual de médicos que acha que não”, afirma César Fernandes.

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Massuda também atribui aos médicos aliados ao governo Bolsonaro uma parcela da responsabilidade por essa onda de desinformação.

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“Dois anos de enfrentamento da pandemia, tantas pessoas morrendo, e eles defendendo a eficácia da hidroxicloroquina, agora questionando a vacina para crianças sem argumentação científica nenhuma.”

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Para o professor da FGV, nesta pandemia está ocorrendo algo novo que colabora com a propagação das fake news: a desconstrução da autoridade técnica do Ministério da Saúde.

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“O Ministério da Saúde sempre teve um papel muito importante na comunicação com a população nas campanhas da saúde pública. Mas, quando começa a questionar a vacinação de crianças, decide fazer uma consulta pública absurda, sem sentido, é um fator a mais para atrapalhar e criar confusão.”

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De acordo com a pesquisa, 72% dos médicos reprovam a gestão do atual ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga.

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“Acho que exauriu a nossa paciência. Os médicos estão muito cansados dessa maneira de ser do atual ministro, essa dubiedade, uma hora querendo agradar os médicos, outra hora querendo agradar a sua chefia, não tem um pensamento linear”, diz Fernandes.

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A pesquisa da AMB também mediu a percepção em relação a uma nova demanda de pacientes para qual as políticas públicas ainda não estão estruturadas: os sequelados da Covid, a chamada Covid longa.

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Cerca de 71% dos entrevistados dizem ter constatado na prática diária casos de pacientes com sequelas após a cura da infecção, entre elas problemas cardíacos e trombose (23,%), sequelas neurológicas, AVC (22%) e fibrose pulmonar (18,9%).

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“O sistema de saúde vai precisar de uma medicina de reabilitação dirigida ao pós-Covid, para o tratamento de sequelas com consequências muito sérias, como a fibrose pulmonar, e outras, como cefaleia, fadiga, transtorno de humor, que impactam diretamente a qualidade de vida da pessoa.”

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Há também o represamento de outras demandas não Covid. Metade dos médicos (50%) diz que tem conhecimento de agravos em doenças, como câncer, diabetes e doenças cardíacas, que não foram cuidadas durante a pandemia.

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“Os países que lidaram melhor com a pandemia organizaram o atendimento Covid e a manutenção do atendimento não Covid, para não ter essa demanda reprimida. Aqui a gente está vendo cânceres mais avançado, a gente retrocedeu para uma situação de antes de 1990”, afirma Massuda.