Nove meses após o Mercado Livre adquirir a operação da antiga Cuidamos Farma, da healthtech Memed, a Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) voltou a defender uma regulamentação específica para a atuação de marketplaces na venda de medicamentos. A entidade afirma que a legislação atual permite apenas o uso de plataformas digitais para logística e entrega, sem autorizar a intermediação comercial desses produtos.
A aquisição da farmácia, localizada no bairro do Jabaquara, em São Paulo, marcou a entrada do Mercado Livre no varejo farmacêutico.
A estratégia permitiu que a empresa obtivesse as licenças sanitárias necessárias para operar diretamente na venda de medicamentos, ao mesmo tempo em que ampliou sua presença como marketplace para farmácias de todo o País.
Já a Memed deixou de atuar diretamente no varejo para concentrar esforços em seu principal negócio: a plataforma de prescrição médica digital. Segundo a empresa, cerca de dois em cada dez médicos brasileiros utilizam seu sistema, responsável por aproximadamente 6,2 milhões de prescrições digitais por mês.
Abrafarma pede atualização das regras da Anvisa
Em resposta enviada à reportagem, o CEO da Abrafarma, Sergio Mena Barreto, afirmou que a recente Lei nº 15.357/2026 ainda exige regulamentação por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para definir como plataformas digitais podem atuar no setor.
Segundo ele, a legislação autoriza que farmácias licenciadas utilizem canais digitais e plataformas de comércio eletrônico apenas para logística e entrega ao consumidor, desde que toda a regulamentação sanitária seja respeitada.
“O que a lei estabelece é tão somente logística e entrega, nunca qualquer tipo de intermediação. Por isso, a regulação é essencial para garantir definição de responsabilidades sanitárias, proteger dados sensíveis de saúde e defender o consumidor dos riscos de segurança e de saúde”, afirmou.
A entidade também argumenta que medicamentos exigem controle técnico e acompanhamento de profissionais qualificados, o que, segundo a associação, deve ser preservado mesmo nas vendas realizadas por canais digitais.
Compra reforçou estratégia do Mercado Livre
A aquisição da farmácia pela plataforma foi vista pelo mercado como um movimento estratégico para superar barreiras regulatórias e acelerar a entrada no segmento farmacêutico.
Com a estrutura licenciada, o Mercado Livre passou a operar tanto com vendas próprias (modelo 1P) quanto como marketplace, reunindo farmácias parceiras em sua plataforma.
Além da expansão comercial, a operação também desperta interesse pelo potencial de integração entre comércio eletrônico e informações do setor de saúde.
Como a Memed permaneceu focada em seu sistema de prescrição digital, utilizado por milhões de médicos e responsável por bilhões de reais em medicamentos prescritos anualmente, especialistas apontam que a aproximação entre plataformas digitais e o mercado farmacêutico aumenta a importância das discussões sobre governança, proteção de dados e regras para o uso de informações relacionadas às prescrições médicas.
A Abrafarma foi uma das entidades que acionaram o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para analisar os impactos concorrenciais da operação e continua defendendo que a evolução do comércio eletrônico de medicamentos seja acompanhada por regras claras, capazes de garantir segurança sanitária, responsabilidades bem definidas e proteção ao consumidor.
