Aos 19 anos, ele escapou de um avião atingido por uma bomba, mas voltou às chamas para salvar os companheiros

Aos 19 anos, Raúl Cuello conseguiu escapar de um avião atingido por uma bomba na Argentina, mas tomou uma decisão que marcou sua história: voltou às chamas para tentar salvar os companheiros.

Avião em pista de aeroporto urbano ao entardecer com fumaça ao fundo, evocando o atentado de 1975 no Aeroparque de Buenos Aires

Ilustração. Pista de aeroporto urbano ao entardecer com aeronave e névoa de fumaça, gancho visual da história do gendarme que voltou ao avião em chamas.

Na casa da família Cuello, em San José de Jáchal, na província argentina de San Juan, aquela quinta-feira deveria terminar em festa. María Josefina preparava doces e bolo enquanto aguardava a volta do filho mais velho.

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Raúl Remberto Cuello tinha apenas 19 anos e menos de um ano de serviço na Gendarmería Nacional. Ele retornaria de uma missão em Tucumán justamente na véspera do aniversário do irmão mais novo, Gustavo.

Mas, antes que Raúl chegasse, uma notícia começou a circular pelo rádio: uma explosão havia atingido um avião durante a decolagem em Tucumán. María Josefina imediatamente temeu que o filho estivesse naquela aeronave.

O pressentimento se confirmou. Raúl estava entre os integrantes da Gendarmería que viajavam em um Hércules C-130 da Força Aérea Argentina atingido por uma bomba em 28 de agosto de 1975.

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Ele conseguiu sobreviver à explosão e deixar a aeronave. Mas, em vez de permanecer do lado de fora, voltou ao avião em chamas para tentar retirar outros gendarmes.

O jovem entrou novamente na aeronave durante o resgate e acabou morrendo. Mais de cinco décadas depois, é justamente essa decisão que mantém sua história viva dentro da família e da própria Gendarmería.

O avião estava deixando Tucumán quando ocorreu a explosão

O atentado aconteceu no Aeroporto Benjamín Matienzo, em Tucumán. O avião envolvido não era uma aeronave comercial, mas um Hércules C-130 TC-62 pertencente à Força Aérea Argentina.

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Naquela manhã, a aeronave havia partido da Base Aérea de El Palomar, na região de Buenos Aires, e pousado em Tucumán. Ali embarcaram 114 integrantes da Gendarmería que retornariam para San Juan.

Os homens faziam parte do Equipo de Combate “San Juan” e haviam atuado no contexto do Operativo Independencia. O voo deveria representar apenas o caminho de volta para casa.

Por volta das 13h05, o Hércules iniciou a corrida para decolar. Depois de percorrer aproximadamente 800 metros pela pista, uma forte explosão atingiu a aeronave.

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Uma bomba havia sido instalada sob a pista e detonada durante a decolagem. O avião caiu novamente e pegou fogo, dando início a uma corrida para retirar os ocupantes da fuselagem.

O ataque ficou conhecido como Operación Gardel

O atentado foi realizado pelos Montoneros, organização armada peronista de esquerda que atuava na Argentina. A ação recebeu o nome de Operación Gardel.

O país atravessava um período de intensa violência política. Em 1975, a Argentina ainda era governada por María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabel Perón.

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O golpe militar ocorreria apenas em março de 1976. Antes disso, organizações guerrilheiras realizavam ações armadas enquanto a repressão estatal e paraestatal também avançava.

Em Tucumán, o Operativo Independencia havia começado naquele mesmo ano contra a atuação guerrilheira do Ejército Revolucionario del Pueblo, o ERP. A Gendarmería participava do dispositivo de segurança na região.

Foi nesse contexto que Raúl e seus companheiros foram enviados para Tucumán. No momento do atentado, porém, o contingente já estava deixando a província para retornar a San Juan.

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Raúl conseguiu sair do avião em chamas

A explosão não matou Raúl imediatamente. O jovem conseguiu abandonar o Hércules e chegar ao lado de fora, enquanto fogo e fumaça tomavam parte da aeronave.

Ele poderia ter permanecido longe da fuselagem. Em vez disso, voltou para tentar ajudar os companheiros que ainda precisavam sair do avião.

Registros posteriores ligados à Gendarmería relatam que Raúl entrou repetidamente na aeronave durante as tentativas de salvamento. Ele acabou morrendo por asfixia durante o resgate.

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Não é possível saber o que passou pela cabeça do jovem naquele momento. Também não é necessário criar diálogos ou pensamentos para dimensionar sua decisão.

O fato documentado já é suficientemente marcante: aos 19 anos, ele havia escapado de uma aeronave em chamas e decidiu retornar para ajudar outras pessoas.

Seis gendarmes morreram no atentado

Seis integrantes da Gendarmería morreram em consequência do ataque: Pedro Francisco Yañez, Juan Esteban Riveros, Raúl Remberto Cuello, Evaristo Francisco Gómez, Juan Argentino Luna e Marcelo Godoy.

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Outros ocupantes ficaram feridos, enquanto mais de uma centena sobreviveu. Registros históricos apresentam pequenas diferenças sobre o número total de feridos.

Para a família Cuello, porém, as estatísticas estavam muito distantes daquilo que acontecia dentro de casa. Raúl era o filho que deveria chegar a tempo de participar de uma comemoração familiar.

A mãe preparava uma festa enquanto esperava pelo filho

Em San José de Jáchal, a centenas de quilômetros de Tucumán, María Josefina havia passado parte do dia preparando comida. O retorno de Raúl coincidiria com o aniversário de Gustavo.

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A família esperava transformar a chegada em uma comemoração dupla. Depois de meses distante, o filho mais velho estaria novamente à mesa com os pais e os irmãos.

Foi nesse ambiente que as primeiras notícias sobre a explosão chegaram pelo rádio. Na época, esse era um dos principais meios pelos quais a família acompanhava acontecimentos distantes.

Mónica, irmã de Raúl, estava com a mãe. Ao ouvir sobre o incidente com uma aeronave em Tucumán, María Josefina imediatamente associou a notícia ao voo do filho.

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O que havia sido preparado para uma festa permaneceu sobre a mesa enquanto a família buscava informações. Pouco depois, veio a confirmação de que Raúl estava entre as vítimas.

Ele tinha entrado havia pouco tempo na Gendarmería

Raúl pertencia ao Escuadrón 25 “Jáchal” e ainda estava no começo da carreira. Sua entrada na Gendarmería havia acontecido menos de um ano antes de sua morte.

Depois de terminar os estudos, ele decidiu ingressar na força e deixou a cidade para receber treinamento. Para a família, a escolha também representava uma oportunidade de construir uma profissão e ajudar em casa.

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Quando surgiu a possibilidade de seguir para Tucumán, seu pouco tempo de serviço inicialmente pesou contra a participação. Segundo as lembranças familiares, Raúl insistiu para integrar o contingente.

Ele partiu pouco depois de completar 19 anos, em julho de 1975. A mãe ficou preocupada com o destino, já que as notícias sobre confrontos em Tucumán chegavam constantemente pelo rádio.

Um violão deveria voltar para casa com ele

Na véspera da viagem de retorno, houve um sorteio entre os integrantes do contingente. Raúl ganhou o principal prêmio: um violão.

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O presente tinha um significado especial porque o jovem gostava de música. Antes da vida na Gendarmería, ele havia participado de um grupo de amigos ligado ao folclore.

A família recorda ainda um rapaz que gostava de futebol, torcia para o Boca Juniors e mantinha forte ligação com os amigos e vizinhos de Jáchal.

O violão também poderia integrar a comemoração que o aguardava em casa. Mas nem Raúl nem o presente chegaram como a família havia imaginado.

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O nome de Raúl continuou dentro da Gendarmería

Com o passar dos anos, Raúl deixou de ser lembrado apenas como uma das seis vítimas do atentado. Sua atuação durante o incêndio passou a ocupar lugar central nas homenagens realizadas pela instituição.

A Gendarmería mantém cerimônias em memória dos integrantes mortos no ataque de 28 de agosto de 1975 e registra a tentativa de resgate realizada pelo jovem.

A homenagem chegou também à formação de novos integrantes da força. A Escola de Suboficiais da Gendarmería Nacional, em Jesús María, na província de Córdoba, leva seu nome.

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Para quem passa pela instituição atualmente, “Cabo Raúl Remberto Cuello” é um nome oficial. Para Mónica e os demais familiares, porém, a memória começa muito antes da farda.

Para a família, ele ainda era o jovem que estava voltando para casa

Documentos históricos conseguem registrar horários, nomes, modelo do avião e circunstâncias do atentado. A memória familiar preserva detalhes muito menores, mas igualmente importantes.

Ela guarda o jovem que gostava de música, o irmão esperado para um aniversário e o filho para quem uma mãe preparava comida enquanto acompanhava notícias pelo rádio.

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Essa diferença ajuda a explicar por que a família continua reconstruindo sua história mais de meio século depois. Raúl tinha apenas 19 anos quando morreu.

Naquele 28 de agosto, ele sobreviveu à primeira explosão e conseguiu deixar o Hércules. Quando já estava fora, tomou a decisão que acabaria definindo sua memória pública.

Raúl voltou para o avião em chamas para tentar retirar os companheiros que ainda precisavam de ajuda.

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A centenas de quilômetros dali, havia uma festa esperando por ele. A mesa estava preparada, o aniversário do irmão seria no dia seguinte e a família acreditava que Raúl estava finalmente voltando para casa.

O retorno nunca aconteceu. Mas a decisão tomada entre a pista e a aeronave incendiada fez com que o nome daquele jovem de Jáchal continuasse sendo lembrado mais de cinco décadas depois.