‘O importante é a sua disposição em tentar se comunicar’: filme nacional com protagonismo surdo chega às salas de cinema com proposta irrecusável de inclusão; conheça

Longa paranaese traz diferentes representatividades para às telonas e promete trazer reflexões reais aos espectadores

Cena do filme "Nem Toda História de Amor Acaba em Morte" de Bruno Costa/ Divulgação

Em busca da acessibilidade no cinema, o diretor Bruno Costa levou o longa “Nem Toda História de Amor Acaba em Morte” para as telonas. Lançado em 24 de setembro, o filme estreou na semana da luta da pessoa com deficiência e no dia da pessoa surda.

Continua após a publicidade

A trama acompanha a história de Lola, uma mãe solo, surda e LGBTQIAPN+ que enfrenta as dificuldades das minorias diariamente. A ideia do filme é transmitir um pouco do que é o dia a dia da personagem ao descobrir diferentes vivências. O diretor conversou com a Gazeta de S. Paulo sobre os diferenciais do filme.

Sobre a trama

Na história, conhecemos Sol (Chiris Gomes), uma professora de meia-idade insatisfeita com seu casamento com Miguel (Octávio Camargo). O relacionamento, iniciado ainda na época da faculdade, se desgasta com o passar dos anos, até que a rotina e o distanciamento emocional levam Sol a decidir pelo fim da relação.

Sem uma solução imediata para separar suas vidas materiais, os dois continuam morando na mesma casa após o divórcio. É nesse contexto que Sol conhece Lola (Gabriela Grigolom), jovem atriz surda, negra, LGBTQIAP+, não-monogâmica e mãe de Maya (Sophia Grigolom), aluna de Sol na escola. A aproximação entre as duas evolui para um relacionamento intenso, que transforma profundamente a vida de ambas.

Continua após a publicidade

Sobre a produção

O filme foi feito de forma que o espectador não seja capaz de escolher vê-lo com legenda ou Libras. Ambas as traduções (tanto para cegos, quanto par surdos) são incorporadas ao resultado final com a presença de áudio descrições durante as sessões e janelas de libras presentes durante todo o filme, interpretando diálogos, músicas ao fundo e conversas passageiras, trazendo a acessibilidade, mas, também, as diferentes formas de se enxergar e consumir a produção.

Bruno conta que a ideia de ter uma protagonista surda surgiu em meio ao processo de construção da obra. Enquanto organizava os afazeres, conheceu Gabriela em um slam (tipo de competição de poesia performática) e entendeu que precisava colocá-la como forma de representatividade.

Nossa janela de Libras não é acessibilidade. Ela é o filme também.

A vontade de transformar o filme nesse levante veio também de Chiris e Octávio, que, casados na vida real, recebem um grupo de teatro surdo para encontros em casa. A partir disso, Bruno buscou transformar o filme em algo nunca visto antes no cinema nacional.

Continua após a publicidade

Durante as gravações, o diretor foi imergido no universo surdo, participando de eventos e convivendo com a maioria do elenco, fazendo com que ele precisasse se adaptar às traduções e, até mesmo, aprender a se comunicar em Libras.

Eu era ali o único que não sabia sinalizar no meio de uma festa que tinha a maioria de surdos… E eu falei: ‘Nossa, é assim que as pessoas surdas se sentem quando estão num ambiente só de ouvintes’.

Um dos principais diferenciais e surpresas que o filme traz é a presença integral da janela de Libras, porém, de forma diferente. Elas são feitas por autores que, além de 90% deles serem surdos, interpretam os papéis dos atores em tela, usando as mesmas roupas, caracteristicamente parecidos, inovando a forma da comunidade surda de assistir à produção.

Além disso, a exibição conta com legendas nas cenas de conversas feitas em Libras e as sessões contam com audiodescrição também feita por atores, que aumentam o leque de acessibilidade também à comunidade cega.

Continua após a publicidade

O diretor também fala sobre as diferenças na hora da filmagem, já que, para além da fala, as personagens se comunicavam com as mãos e precisavam demonstrar sentimentos e interpretações completamente corporais, o que muda na forma de montagem:

Moldou a linguagem do filme… Você sempre tem que ter as mãos, não existe um close. A pessoa surda fala com os braços, com as mãos e com o corpo todo.

Com isso, Bruno disse que as sessões de pré-estreia receberam ótimas críticas vindas da comunidade surda e concluiu que a produção lhe trouxe muitos aprendizados, o que mudará a forma com que enxerga o mundo, junto ao espectador, que deixa a exibição refletindo o mundo afora.

Uma das lições mais bonitas que eu aprendi foi ouvindo das pessoas surdas: ‘Cara, você não sabe, mas tente’. O pior para a pessoa surda é o afastamento. […] O importante é a sua disposição em tentar se comunicar.

O filme será exibido todos os dias, de 24 a 30 de setembro, no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, às 14h.