Creme, gel, spray ou bastão: os protetores solares disponíveis no mercado apresentam diferentes formas de aplicação e texturas, o que sou muito grata, já que sempre detestei aqueles mais encorpados e cremosos. Uso em spray ou bastão sempre que posso, mas será que esse conforto teria alguma consequência negativa a longo prazo?
Na verdade, não é bem assim. Não existe uma única textura de protetor superior aos demais, a eficácia está menos na apresentação do produto e mais na forma como ele é utilizado. Segundo especialistas, diferentes formatos podem ser adequados para diferentes regiões do corpo e tipos de pele, mas a proteção esperada depende de fatores como o FPS do produto, a quantidade aplicada, a distribuição uniforme e a reaplicação.
O importante é não deixar de usar protetor, já que o câncer de pele é o tipo de câncer mais frequente no Brasil e no mundo, segundo o Ministério da Saúde. O principal fator de risco está relacionado à exposição excessiva ao sol. Para o triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 263.280 novos casos de câncer de pele não melanoma por ano no Brasil, considerando homens e mulheres.
Já para o melanoma, forma menos frequente, mas potencialmente mais grave da doença, são estimados 9.360 novos casos anuais no país entre 2026 e 2028. A exposição prolongada e repetida à radiação ultravioleta, especialmente desde a infância e adolescência, está entre os fatores que aumentam o risco.
Creme, gel, spray ou bastão: qual escolher?
De acordo com Jéssica Starek, dermatologista da ALS Beauty & Personal Care, cada apresentação possui características que podem favorecer o uso em determinadas situações.
Cremes e loções costumam ser fáceis de espalhar em áreas maiores e podem ser mais confortáveis para peles secas. Os géis apresentam textura mais leve e podem funcionar bem em peles oleosas ou em regiões com pelos. Já os bastões são considerados práticos para áreas menores e para a reaplicação, enquanto os sprays facilitam a distribuição pelo corpo, mas exigem atenção para que a cobertura fique uniforme.
“É possível escolher formatos diferentes para cada região do corpo. Uma pessoa pode se adaptar melhor ao gel no rosto e preferir um spray para braços e pernas, por exemplo. Encontrar uma textura confortável também ajuda a manter o protetor presente na rotina”, explica Jéssica.
Na prática, portanto, não existe um único formato que seja obrigatoriamente superior para todas as pessoas. A melhor opção pode ser aquela que permite que o produto seja aplicado de maneira adequada e incorporado à rotina.
Bastão não significa proteção por mais tempo
A textura mais densa e a praticidade do bastão podem criar a impressão de que o produto permanece por mais tempo sobre a pele. Essa percepção, porém, não significa que a proteção dure mais. Segundo Jéssica, o formato não altera a necessidade de reaplicação e não é possível determinar a duração da proteção apenas pela apresentação do produto.
“Algumas pessoas podem ter a impressão de que passar o bastão uma vez é suficiente para a pele permanecer protegida por mais tempo, mas a reaplicação continua necessária. Também não podemos considerar que um protetor em bastão FPS 70 protege mais do que um gel FPS 70 apenas por causa da apresentação”, explica a dermatologista.
A própria regulamentação sanitária estabelece que os protetores solares devem informar que é necessária a reaplicação para manter a efetividade. A orientação também prevê a reaplicação após situações como suor intenso, banho, natação e ao se secar com toalha.
Isso significa que um produto FPS 70 em bastão não deve ser considerado automaticamente mais potente ou duradouro do que outro FPS 70 em gel, creme ou spray. O número do FPS está relacionado ao nível de proteção demonstrado pelo produto nas condições padronizadas de teste, e não ao formato da embalagem.
Por que a quantidade aplicada importa?
Outro ponto importante é a quantidade de produto utilizada. Mesmo um protetor com FPS elevado pode oferecer uma proteção menor do que a esperada quando aplicado em quantidade insuficiente ou de maneira irregular.
De acordo com a Anvisa, a determinação do FPS utiliza uma aplicação padronizada de produto sobre a pele. A regulamentação técnica considera, nos testes, uma quantidade de 2 mg de produto por cm² de pele.
Espalhar uma camada muito fina ou deixar áreas sem cobertura pode fazer diferença. A própria regulamentação estabelece que, quando a quantidade aplicada não é adequada, o nível de proteção é significativamente reduzido.
Estudos de fotoproteção realizados pela ALS Beauty & Personal Care avaliam quantidade, distribuição e resultado. Nos estudos conduzidos pelo laboratório de fotoproteção da empresa, os produtos são avaliados com uma quantidade definida e uma distribuição uniforme sobre a pele. O resultado obtido representa o nível de proteção demonstrado pela formulação nessas condições.
“O FPS que aparece na embalagem considera uma quantidade e uma forma de aplicação específicas durante os estudos. Quando usamos menos produto ou não conseguimos distribuí-lo de maneira uniforme, criamos uma condição diferente daquela em que essa proteção foi avaliada”, explica Juliana Moraes, gerente do laboratório de fotoproteção da ALS Beauty & Personal Care.
Spray exige atenção à cobertura
A escolha do formato também deve levar em conta a facilidade de aplicação. Um spray, por exemplo, pode ser mais prático para cobrir braços, pernas e outras áreas extensas, mas é necessário garantir que o produto tenha sido distribuído de maneira uniforme.
O mesmo vale para o bastão. Embora seja útil para áreas menores e para reaplicações, é preciso evitar que a praticidade leve à aplicação insuficiente.
Para Jéssica, a preferência por determinada textura pode, inclusive, favorecer a manutenção do hábito. Se uma pessoa considera um gel mais confortável no rosto, por exemplo, a escolha desse formato pode facilitar a aplicação diária. Da mesma forma, um spray pode ser uma alternativa prática para quem precisa proteger áreas maiores do corpo.
Um formato que facilite a aplicação correta tende a ser mais útil na rotina do que um produto que, embora tenha características semelhantes de fotoproteção, seja difícil de utilizar adequadamente.
Protetor solar é parte da fotoproteção, mas não é a única medida
O uso do filtro solar é uma das estratégias para reduzir os danos causados pela radiação ultravioleta, mas não substitui outras formas de proteção.
O Ministério da Saúde recomenda evitar a exposição solar principalmente entre 10h e 16h, quando a radiação é mais intensa, além de utilizar roupas protetoras, chapéus de abas largas, óculos de sol e buscar áreas de sombra quando houver exposição necessária. O órgão também aponta o uso de filtro solar com FPS 15 ou superior como fundamental principalmente quando a exposição ao sol for inevitável.
Por isso, a escolha entre creme, gel, spray ou bastão não deve ser encarada como uma disputa para descobrir qual formato é “mais forte”. O mais importante é verificar se o produto é adequado à finalidade, observar o FPS e as indicações do rótulo e, principalmente, conseguir aplicá-lo de maneira suficiente e uniforme.
“Cada formato tem particularidades que podem favorecer ou dificultar essa distribuição. Por isso, além de observar o FPS, é importante considerar se aquela apresentação permite aplicar o produto de maneira adequada para alcançar a proteção esperada”, conclui Juliana.






