Uma fêmea de javali chamada Biscotte, monitorada por uma coleira GPS há cerca de quatro meses, surpreendeu uma equipe de acompanhamento da fauna na França ao percorrer mais de 30 quilômetros em linha reta em menos de três semanas. O animal deixou sua área habitual, no departamento de Aveyron, e foi localizado em Cantal, após períodos sem transmissão de dados.
O deslocamento intrigou os responsáveis pelo monitoramento porque, até então, Biscotte mantinha uma rotina relativamente previsível, com movimentos concentrados em uma área de floresta e acompanhada por três filhotes.
A viagem foi identificada pela Federação de Caçadores de Aveyron, que acompanha o animal para compreender melhor seus hábitos e a maneira como os javalis utilizam o território.
Uma rotina conhecida
Biscotte foi capturada na região de Saint-Hippolyte e equipada com uma coleira de rastreamento em junho de 2026. Na ocasião, a fêmea pesava aproximadamente 35 kg.
A captura ocorreu depois de meses de tentativas. A equipe chegou a considerar a mudança do local de instalação da armadilha, já que os animais encontrados anteriormente não tinham o tamanho adequado para receber o equipamento.
Nas primeiras semanas, a javali permaneceu próxima de seus três filhotes. Durante o verão europeu, seus deslocamentos se concentraram nas imediações do riacho de Saint-Marc, em um território de aproximadamente 100 hectares.
A área reunia trechos de floresta, encostas e vegetação densa, onde Biscotte alternava seus locais de descanso.
GPS revela viagem inesperada
A mudança de comportamento começou a ser percebida no fim de setembro. Depois de algumas incursões mais longas ao norte, Biscotte deixou a região onde costumava permanecer.
O trajeto não pôde ser reconstruído integralmente. A coleira GPS ficou vários dias sem transmitir informações, dificultando a identificação exata dos caminhos percorridos.
Os registros disponíveis indicam que a fêmea teria passado pelas proximidades de Ladinhac e Lafeuillade-en-Vézie, avançando depois em direção ao vale do rio Goul.
Em determinado momento, o equipamento permaneceu mais de cinco dias sem enviar sinais. Quando voltou a funcionar, Biscotte estava em Sansac-de-Marmiesse, nas proximidades de Aurillac, já no departamento de Cantal.
A distância superior a 30 quilômetros foi calculada em linha reta. Portanto, a extensão real do percurso pode ter sido maior, uma vez que o animal atravessou diferentes áreas naturais.
Caça pode explicar deslocamento
Uma das hipóteses consideradas pelos responsáveis pelo acompanhamento envolve a temporada de caça.
No dia 20 de setembro, caçadores realizaram uma batida nas proximidades da área onde Biscotte costumava descansar. Entretanto, os participantes afirmaram que os cães não teriam incomodado diretamente a javali.
A possibilidade de outros encontros com grupos de caça durante o percurso também foi levantada pela federação.
Não há confirmação de que as atividades tenham provocado a viagem. A ausência de registros contínuos do GPS impede uma conclusão sobre o motivo da mudança de território.
Segundo informações divulgadas sobre o acompanhamento, os animais monitorados podem passar entre 50% e 60% do tempo descansando, com mudanças de comportamento durante períodos de caça.
Filhotes continuam uma incógnita
Outro ponto ainda sem resposta envolve os três filhotes que acompanhavam Biscotte.
Antes de iniciar a longa viagem, a javali era frequentemente registrada com os animais mais jovens. No entanto, não foi possível confirmar se eles permaneceram ao lado da mãe durante todo o percurso.
O monitoramento também havia revelado um comportamento relevante para a segurança nas estradas. Em uma única semana de setembro, Biscotte atravessou vias locais aproximadamente 40 vezes.
Embora a circulação de veículos naquela região seja relativamente pequena, a frequência das travessias mostrou a exposição dos animais ao risco de acidentes.
Esse tipo de preocupação também aparece em iniciativas brasileiras voltadas à redução de atropelamentos de animais silvestres em rodovias.
Rastreamento ajuda a compreender
O acompanhamento de Biscotte integra um trabalho de observação dos deslocamentos de javalis na França.
Os dados permitem identificar locais de descanso, rotas utilizadas e mudanças na ocupação do território, informações relevantes para o conhecimento dos hábitos da espécie.
No Brasil, ações de proteção e recuperação da fauna silvestre também integram as estratégias de conservação dos animais.
No caso de Biscotte, a identificação em Cantal abriu uma nova etapa do monitoramento. A equipe ainda busca compreender o que levou uma fêmea habituada a uma área relativamente pequena a percorrer uma distância tão superior à registrada anteriormente.






