Jessica e Adam Davis são um casal tradicional da classe média americana, com quatro filhos no subúrbio. Até que decidiram adotar uma criança de Uganda. Eles acreditavam que estavam oferecendo uma nova família a uma menina necessitada. Os dois estavam errados.
Eles foram apresentados à Namata pela agência European Adoption Consultants (EAC), uma garota necessitada de uma família instável. Em menos de um ano, o processo legal de adoção foi concluído. Mas, assim que a garota aprendeu a falar inglês, uma rede criminosa foi descoberta.
Criança adotada
A garotinha ugandense, também chamada de Mata, foi apresentada por fotos ao casal pela agência em outubro de 2014. Havia sido informado à família de que o pai de Namata estava morto e a mãe decidiu entregá-la para doação por não ter condições e vontade de criá-la.
O casal demonstrou interesse na criança e, em abril de 2015, viajou à Uganda para conhecê-la. Na época, a garota tinha apenas cinco anos e não conseguia se comunicar com os Davis por causa da barreira linguística.

Histórias não coincidiam
Nos primeiros meses, a nova vida de Namata seguiu como a de qualquer outra criança muito jovem adotada: um pouco receosa, mas ainda receptiva. Porém, conforme ela aprendia o inglês, uma grande teia de mentiras começou a aparecer.
Ao falar de sua família na Uganda, não havia relatos de uma mãe negligente que queria abandoná-la. Havia apenas uma mãe carinhosa, que a levava para a escola de manhã, para a igreja nos dias de culto e que ensinava os afazeres do dia a dia.
Namata sentia saudade de sua mãe biológica e de sua família na Uganda. A mãe adotiva, Jessica, até tentou analisar se esses relatos não eram delírios do trauma de se mudar. Afinal de contas, os registros da agência não poderiam estar errados? Porém, eles estavam,

Após começar a procurar informações sobre a história, a família Davis teve uma descoberta assombrosa. A mãe de Namata jamais havia entregado ela para doação e sua antiga família havia sido enganada pela EAC.
A mãe biológica acreditava que a filha viajaria para receber educação e melhores oportunidades, Namata manteria contato com a família e retornaria no futuro.
De volta para casa
Jessica conseguiu colocar Namata em contato com a mãe por videochamada. A conversa logo tirou as suspeitas de ela ser uma criança abandonada, muito pelo contrário, ela havia sido separada de sua família mediante fraude.
Quando buscou orientação das autoridades americanas, Jessica relatou que chegou a ouvir que poderia simplesmente permanecer com a menina.
Eu não a comprei no Walmart.
a resposta de Jessica Davis se tornou um marco deste caso
Assim que recebeu as orientações, ela entrou com o devido processo para desfazer a adoção. Namata retornou à Uganda e reencontrou a mãe pouco tempo depois. Mesmo após a separação, Jessica ainda acompanha a menina e sua família à distância.
Ao todo, o casal calcula ter gasto cerca de US$ 65 mil em todo o processo de adoção. Desde as taxas legais do processo, as viagens realizadas e outras despesas.
Depois da experiência, Jessica se tornou cofundadora da Kugatta, iniciativa voltada a aproximar pessoas adotadas internacionalmente de suas famílias biológicas em Uganda e apoiar famílias vulneráveis.
Para ela, a história de Namata mudou definitivamente a forma como enxergava a adoção internacional.
Como funcionava o esquema
O caso alimentou um inquérito maior que levou funcionário da agência European Adoption Consultants (EAC) à justiça em dezembro de 2016. Segundo a acusação federal, entre 2013 e 2016, a rede ligada à EAC conseguiu levar mais de 30 crianças ugandenses para adoção por famílias americanas.
A agência recebeu mais de US$ 900 mil, enquanto a advogada ugandense Dorah Mirembe recebeu mais de US$ 430 mil, além de pagamentos diretos de famílias.
O Departamento do Tesouro descreveu uma estrutura grave. Intermediários procuravam famílias vulneráveis em vilarejos de Uganda e diziam a pais — alguns incapazes de ler inglês — que seus filhos seriam levados a Kampala para estudar.
As crianças eram então levadas principalmente para um abrigo não licenciado em Kampala. A partir daí, o sistema produzia a aparência jurídica de que elas estavam disponíveis para adoção.
Agência acabou fechada
A EAC perdeu a autorização para realizar adoções internacionais em dezembro de 2016, após o governo dos Estados Unidos identificar 14 violações das normas federais. A agência tentou reverter a decisão administrativamente e na Justiça, mas não conseguiu.

Em 2017, o FBI apreendeu documentos no escritório da empresa em Ohio e realizou buscas relacionadas à investigação. A Procuradoria de Ohio também processou a agência após receber mais de 70 reclamações de clientes. Um acordo posterior determinou cerca de US$ 260 mil em restituições, além de multas e custos.
Funcionárias e dirigentes também foram responsabilizados. Debra Parris e Robin Longoria, ligadas ao programa de Uganda, receberam penas de um ano e um dia de prisão por participação em esquemas envolvendo propinas, fraude de vistos e adoções irregulares.
Margaret Cole, fundadora da EAC, também foi condenada em um caso relacionado a uma adoção na Polônia. Em 2022, Cole foi condenada a três meses de prisão, três anos de liberdade supervisionada e ao pagamento de US$ 7,5 mil em multa.
Em Uganda, a advogada Dorah Mirembe foi acusada pelos Estados Unidos de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro. Outros envolvidos, incluindo magistrados ugandenses, sofreram sanções financeiras e restrições de visto.
A EAC encerrou suas operações e, posteriormente, foi considerada uma corporação extinta, sem funcionários, receitas ou atividades.








