O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu nesta terça-feira (22) o debate geral da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, com críticas à capacidade da organização de responder aos conflitos armados e proteger populações civis.
Na abertura de seu discurso, Lula afirmou que a ONU atravessa o momento mais crítico desde que passou a ocupar a tribuna da Assembleia, em 2003, e atribuiu parte do problema ao funcionamento do Conselho de Segurança, especialmente ao poder de veto das cinco potências que são membros permanentes do órgão.
“A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas, a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa”, afirmou.
O discurso também abordou as guerras em Gaza e entre Rússia e Ucrânia, a atuação do Tribunal Penal Internacional, a América Latina, o combate ao crime organizado, mudanças climáticas, inteligência artificial, apostas on-line, desigualdade social, mercado de trabalho e a eleição brasileira marcada para outubro.
Para que serve a ONU?
Criada em 1945, depois da Segunda Guerra Mundial, a ONU tem entre seus objetivos manter a paz e a segurança internacionais, desenvolver relações amistosas entre os países, promover a cooperação internacional e estimular o respeito aos direitos humanos.
A organização não funciona como um “governo mundial”. Os países continuam sendo soberanos e a ONU não possui uma força militar própria capaz de simplesmente impor suas decisões a qualquer Estado.
A estrutura da organização é formada por diferentes órgãos. Entre eles estão a Assembleia Geral, o Conselho de Segurança, o Conselho Econômico e Social, a Corte Internacional de Justiça e o Secretariado.
A Assembleia Geral, onde Lula discursou, reúne os 193 Estados-membros e funciona principalmente como espaço de debate, negociação e formulação de recomendações. Cada país possui um voto. Em questões importantes, como recomendações relacionadas à paz e segurança, são necessários dois terços dos votos.
Isso significa que uma fala ou resolução aprovada pela Assembleia Geral não equivale automaticamente a uma ordem com força de lei para todos os países.
E quem pode tomar decisões mais fortes?
O principal órgão da ONU em relação à paz e à segurança internacional é o Conselho de Segurança. Ele possui 15 integrantes: dez membros não permanentes e cinco permanentes, que são Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido.
O Conselho pode, em determinadas circunstâncias, aprovar sanções e autorizar o uso da força. Suas decisões, quando adotadas de acordo com a Carta da ONU, devem ser cumpridas pelos Estados-membros.
O problema apontado por Lula está justamente no poder de veto. Para questões substantivas, uma resolução precisa de pelo menos nove votos favoráveis e não pode receber voto negativo de nenhum dos cinco membros permanentes. Assim, um único veto de Estados Unidos, Rússia, China, França ou Reino Unido pode bloquear uma resolução. É nesse mecanismo que Lula concentra parte de sua crítica.
“Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto.”
Guerras e crise do Conselho de Segurança
Lula afirmou que 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo a checagem publicada pelo Aos Fatos durante o discurso, o dado é sustentado pelo Instituto de Pesquisa pela Paz de Oslo (Prio): foram registrados 65 conflitos armados em 35 países em 2025, o maior número desde 1946.
Para Lula, o aumento das guerras demonstra a dificuldade das instituições multilaterais em produzir respostas capazes de impedir ou encerrar conflitos. “Isso não é idealismo, é o mais puro realismo. A guerra não é a continuação da política por outros meios, é a falência total da política.”
O presidente também defendeu que os integrantes do Conselho de Segurança se reúnam para buscar soluções para os conflitos e criticou o que chamou de prevalência da “lei do mais forte”.
Gaza, Israel e Palestina
A guerra em Gaza ocupou uma parte importante do discurso. Lula acusou o governo de Benjamin Netanyahu de praticar genocídio contra palestinos e também mencionou os ataques do Hamas contra civis israelenses.
Ao abordar o tema, Lula defendeu a solução de dois Estados, com Israel e Palestina coexistindo, e criticou a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia.
“Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos aos fatos terroristas do Hamas.”
Na sequência, Lula defendeu a atuação da relatora especial da ONU para os territórios palestinos, Francesca Albanese, e criticou ameaças contra o Tribunal Penal Internacional.
Guerra entre Rússia e Ucrânia
Lula também citou a guerra entre Rússia e Ucrânia, que, segundo ele, continua provocando mortes e sofrimento humanitário. “Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha. A diplomacia é a única opção.”
O presidente mencionou ainda o chamado Grupo de Amigos da Paz, iniciativa criada por Brasil e China para reunir países em torno de propostas diplomáticas para o conflito.
A defesa brasileira é de que a negociação e a diplomacia devem ocupar espaço central na tentativa de solucionar a guerra, em vez de uma escalada militar.
O Brasil não cabe no quintal de ninguém
Outro eixo do discurso foi a relação entre os países latino-americanos e as grandes potências. Lula afirmou que países da região precisam preservar sua autonomia para definir seus próprios caminhos políticos e econômicos.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento.”
O presidente também citou Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba. Sobre a Venezuela, afirmou que o povo venezuelano deve definir seu próprio destino. Sobre a Nicarágua, criticou a restrição à participação da oposição nas eleições. Em relação a Cuba, criticou o embargo econômico dos Estados Unidos.
Crime organizado exige cooperação internacional
Lula levou para o discurso internacional uma pauta de segurança pública brasileira. Ele afirmou que o combate ao crime organizado precisa envolver cooperação internacional, especialmente para interromper fluxos de armas e dinheiro.
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado.”
O presidente citou ainda o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, criado em Manaus, com participação dos nove países amazônicos. Em 2025, foram apreendidas 1,6 mil toneladas de drogas e cerca de R$ 9,5 bilhões em dinheiro, bens e recursos ilícitos, segundo levantamentos citados pela agência.
Multilateralismo, comércio e desinformação
O presidente afirmou que os pilares do multilateralismo estão sendo enfraquecidos e citou a Organização Mundial do Comércio e o uso de tarifas comerciais como instrumento de pressão entre países.
Também relacionou o cenário internacional ao avanço da desinformação e ao enfraquecimento da confiança na ciência. “Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento da Covid-19.”
Lula defendeu ainda o fortalecimento da Organização Mundial da Saúde e criticou movimentos antivacina.
Mudanças climáticas precisam voltar ao centro do debate
O clima apareceu como outro dos principais assuntos do discurso. Lula afirmou que a pauta ambiental perdeu espaço em fóruns internacionais e defendeu que o combate às mudanças climáticas volte ao centro da agenda.
Ele citou eventos extremos, como o derretimento das geleiras do Himalaia e a possibilidade de um super El Niño, além de defender a redução do desmatamento na Amazônia.
Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia Legal registrou 5,7 mil km² de desmatamento em 2025, contra 11,6 mil km² em 2022. A taxa de 2025 foi a menor desde 2014, quando foram registrados 5 mil km².
O presidente também defendeu a exploração de minerais críticos e terras raras brasileiras, mas condicionou o acesso estrangeiro à geração de valor e à transferência de tecnologia no país.
Inteligência artificial e big techs devem ser reguladas
Um dos temas mais contemporâneos do discurso foi a inteligência artificial. Lula defendeu a criação de regras internacionais para o desenvolvimento da tecnologia e criticou a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia.
“Seria uma omissão histórica imperdoável não enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial.”
A própria ONU também vem defendendo há anos mecanismos de governança internacional para a inteligência artificial. Em 2024, um órgão consultivo da organização apresentou recomendações sobre governança da tecnologia e, em 2025, a organização criou um painel científico internacional sobre IA.
Lula também abordou os impactos das plataformas digitais sobre crianças e adolescentes e defendeu maior responsabilidade das empresas de tecnologia.
Bets e endividamento seguem adoecendo brasileiros
As apostas on-line também entraram no discurso. “A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro.” O presidente afirmou que a expansão das plataformas de apostas está contribuindo para o endividamento das famílias brasileiras.
Um estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda estimou que as apostas on-line movimentaram R$ 62,5 bilhões retirados do orçamento das famílias em 2025. Lula afirmou ainda que o Brasil pretende proteger crianças, adolescentes, mulheres e criadores de conteúdo no ambiente digital.
Desigualdade e desenvolvimento
Na parte econômica e social, Lula defendeu políticas de redistribuição de renda, investimento público em saúde e educação e cooperação entre países do Sul Global. “É possível colocar pobre no orçamento e fazer os ricos pagarem a sua parte.”
O presidente também apresentou indicadores econômicos positivos do Brasil durante seu discurso. Entre eles, afirmou que o país é atualmente o terceiro maior destino de investimento estrangeiro direto.
Dados da OCDE indicam que o Brasil recebeu US$ 77 bilhões em investimento estrangeiro direto em 2025, atrás apenas de Estados Unidos e China.
Fim da escala 6×1 e direitos das mulheres seguem urgentes
No trecho dedicado ao mundo do trabalho, Lula defendeu o fim da escala 6×1, modelo em que o trabalhador trabalha seis dias e descansa um. “No Brasil, concretizar esse objetivo passa pelo fim da chamada escala 6×1 para garantir ao trabalhador dois dias livres por semana.”
O presidente relacionou a proposta também à divisão do trabalho doméstico e à participação das mulheres no mercado de trabalho. Na sequência, defendeu políticas de enfrentamento ao feminicídio e à violência contra mulheres.
Eleições brasileiras
No encerramento, Lula fez referência direta à eleição brasileira de 4 de outubro. O presidente afirmou que os eleitores escolherão não apenas seus representantes, mas também entre projetos políticos que, segundo sua formulação, representam “democracia e negacionismo”.
“Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do poder legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo.” Lula também afirmou que o processo eleitoral será transparente e competitivo e criticou possíveis interferências estrangeiras e redes de desinformação.
“A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém, ninguém nos afastará desse caminho.”
O que Lula quis dizer ao afirmar que a ONU está falhando?
A crítica central do discurso reforça que uma organização criada para promover a paz tem encontrado dificuldades para impedir ou encerrar guerras justamente porque seus mecanismos de decisão dependem da disposição política dos próprios Estados-membros.
A ONU não possui autoridade ilimitada sobre os países. Sua capacidade de ação depende dos tratados que os Estados aceitaram, das decisões de seus órgãos e, em temas de segurança, principalmente do Conselho de Segurança.
A Assembleia Geral pode debater conflitos, aprovar resoluções, estabelecer normas e fazer recomendações. Também pode exercer pressão diplomática e política sobre os países. Mas não substitui o Conselho de Segurança quando se trata dos instrumentos coercitivos previstos na Carta da ONU.
O Conselho, por sua vez, possui mecanismos mais fortes, mas está sujeito ao veto dos cinco membros permanentes. Por isso, quando esses países discordam sobre uma guerra ou crise internacional, uma resolução pode ser bloqueada.
Há uma alternativa conhecida como “Unidos pela Paz”: quando o Conselho de Segurança não consegue agir por falta de consenso entre seus membros permanentes, a Assembleia Geral pode discutir o assunto e recomendar medidas coletivas aos Estados. Essas recomendações, porém, não têm exatamente o mesmo caráter obrigatório das decisões do Conselho de Segurança.
Ao encerrar o discurso, o presidente retomou a própria história da organização para defender sua permanência como espaço de negociação internacional. “A ONU nasceu sob o signo da esperança.” E concluiu: “Diante da paralisia das Nações Unidas, precisamos reencontrar a vontade política para que volte a ser o templo da paz.”






