Cidade no sertão do Nordeste guarda pegadas de dinossauros com mais de 130 milhões de anos e trilhas inteiras ainda marcadas na rocha

Pegadas fossilizadas preservadas no Vale dos Dinossauros revelam trilhas abertas por animais que viveram na região há mais de 100 milhões de anos

Esculturas de dinossauros ajudam a transformar a pré-história em parte da identidade visual do Vale dos Dinossauros, em Sousa (Foto: Mike Peel/Wikimedia Commons)

Esculturas de dinossauros ajudam a transformar a pré-história em parte da identidade visual do Vale dos Dinossauros, em Sousa (Foto: Mike Peel/Wikimedia Commons)

A passarela corta o leito do Rio do Peixe até chegar a uma superfície de pedra cheia de marcas. Algumas aparecem isoladas, enquanto outras seguem uma atrás da outra, com três dedos bem definidos, como se um animal tivesse acabado de atravessar aquele chão ainda molhado. A impressão engana: quem passou pelo que hoje é uma cidade desapareceu há mais de 100 milhões de anos.

Continua após a publicidade

Essas pegadas estão em Sousa, no sertão da Paraíba, e pertencem a dinossauros que circularam pela região durante o Cretáceo Inferior.

Parte dos registros é associada a um período superior a 130 milhões de anos, muito antes de existir qualquer coisa parecida com a paisagem que hoje cerca a cidade.

O ponto mais conhecido fica em Passagem das Pedras, dentro do Monumento Natural Vale dos Dinossauros. Ali, sequências inteiras permaneceram gravadas na rocha e transformaram um antigo chão de lama em um dos sítios paleontológicos mais importantes do país.

Continua após a publicidade

Ainda no sertão brasileiro, descubra a “Hollywood Brasileira”, a cidade que virou cenário de clássicos do cinema.

Veja fotos da cidade:

Quando o chão era lama

Nenhum esqueleto precisou permanecer no lugar para contar essa história. O que sobreviveu foram icnofósseis, nome dado aos vestígios deixados pela atividade dos animais enquanto se movimentavam pelo ambiente.

Quando caminhavam sobre sedimentos úmidos, os dinossauros afundavam os pés e imprimiam seu formato no terreno. Novas camadas de material acabaram cobrindo essas marcas e, com o passar de milhões de anos, tudo endureceu. Muito tempo depois, a erosão voltou a expor parte daquela antiga superfície.

Continua após a publicidade

Por isso, o visitante consegue acompanhar trilhas inteiras em vez de encontrar apenas uma pegada isolada. Em alguns pontos, uma marca leva à outra e permite observar parte do trajeto feito pelo animal.

No afloramento de Passagem das Pedras, a área exposta ultrapassa 2 mil metros quadrados. Estudos identificaram pistas relacionadas a diferentes grupos, entre eles terópodes e ornitópodes.

Rastros pela cidade ganharam nome

Algumas sequências chamaram tanta atenção dos pesquisadores que passaram a ser tratadas individualmente. Entre elas está a Moraesichnium barberenae, relacionada a dinossauros terópodes, grupo que reunia animais bípedes e, em muitos casos, carnívoros.

Continua após a publicidade

Outra sequência recebeu o nome Sousaichnium pricei e foi associada a ornitópodes. Também existem registros interpretados como pertencentes a outros grupos e até marcas relacionadas ao deslocamento de animais dentro da água.

Mais do que comprovar a presença de dinossauros na região, essas pistas ajudam pesquisadores a entender como eles caminhavam, em que direção seguiam e de que maneira se movimentavam pelo ambiente que existia naquele período.

Moradores da cidade já conheciam marcas

Muito antes de surgir uma estrutura turística em torno das pegadas, elas já faziam parte da paisagem de Sousa. Registros sobre o geossítio remontam a 1897 e, nas décadas seguintes, principalmente a partir dos anos 1920, pesquisadores começaram a observar com mais atenção aquelas depressões espalhadas pelas rochas da Bacia do Rio do Peixe.

Continua após a publicidade

Com o avanço dos estudos, ficou claro que parte das marcas havia sido produzida por dinossauros. A importância de Passagem das Pedras cresceu ao longo do século XX, tanto pela quantidade de rastros quanto pela diversidade e conservação das trilhas.

Hoje, o Serviço Geológico do Brasil classifica o geossítio como de relevância internacional, reforçando o peso científico e educativo de um patrimônio que permanece exposto no próprio terreno.

Rio atravessa o sítio

O mesmo Rio do Peixe que ajudou a revelar parte das rochas também representa um desafio para a preservação. Trechos com pegadas ficam no próprio leito, sujeitos à passagem da água e ao desgaste provocado pela erosão.

Continua após a publicidade

Para reduzir esse impacto, uma estrutura foi construída para desviar parte do fluxo. O canal de alívio possui 621 metros e ajuda a evitar que a corrente passe diretamente sobre áreas importantes do sítio paleontológico.

Passarelas também mantêm os visitantes afastados das superfícies mais sensíveis. Dessa forma, é possível observar as marcas de perto sem caminhar diretamente sobre o mesmo chão percorrido pelos animais milhões de anos atrás.

Dinossauros saíram do parque

A relação de Sousa com os fósseis cresceu tanto que deixou de ficar restrita ao Vale dos Dinossauros. Esculturas dos animais aparecem em diferentes pontos da cidade e ajudaram a transformar a paleontologia em uma das imagens mais conhecidas do município.

Continua após a publicidade

Essa ligação também chegou ao futebol. Fundado em 1991, o Sousa Esporte Clube adotou um dinossauro como mascote, colocou o animal no escudo e passou a ser conhecido justamente pelo apelido de Dinossauro.

Em algumas temporadas, referências às pegadas encontradas na região também apareceram nos uniformes do clube. A pré-história, nesse caso, passou a ocupar não apenas o espaço do museu e do sítio paleontológico, mas também parte da identidade cotidiana da cidade.

Visita passa pelas pegadas

O Monumento Natural Vale dos Dinossauros fica em Passagem das Pedras, a poucos quilômetros da área urbana de Sousa, com acesso pela PB-391.

Continua após a publicidade

A visitação inclui estrutura com passarelas, mirantes, museu e representações de dinossauros. Segundo informação divulgada pela Sudema em 2026, a entrada permanece gratuita, com funcionamento de terça a domingo, das 8h às 12h e das 14h às 17h.

Mesmo cercado por esculturas e reconstruções, o ponto mais marcante continua sendo o próprio chão. Entre pedras expostas pelo tempo, seguem as marcas dos pés de animais que atravessaram aquele terreno quando o sertão, a cidade e até o atual mapa do Brasil ainda estavam muito longe de existir.