Como saber se tenho fobia social? Doença abordada por Felca em novo vídeo divulgado no YouTube

Muito além da simples timidez, a fobia social afeta rotinas de trabalho, estudos e relacionamentos; especialistas detalham os sintomas, as causas e a importância do diagnóstico clínico

Foto_ Instagram_@felca0

Foto_ Instagram_@felca0

A recente declaração do influenciador digital Felca, que tornou pública sua luta contra o Transtorno de Ansiedade Social (TAS) através de um vídeo no YouTube, gerou diferentes debates nas redes. O conteúdo foi publicado à meia-noite do dia 20, data reconhecida como o Dia Mundial de Combate ao Bullying.

Continua após a publicidade

Apesar de escolher a data por esse gancho, o influenciador enfrentou muitas críticas de colegas e internautas pelo momento escolhido para abordar o assunto, já que a atenção do público das plataformas está voltada para o segundo turno das eleições.

O que Felca contou?

O influenciador, que estava fora da internet há meses, revelou recorrer ao uso de bebida alcoólica como uma tentativa de conseguir sair de casa e trouxe à tona uma reflexão urgente sobre a saúde mental na era digital. Este é um drama vivido por cerca de 27,5 milhões de pessoas (o equivalente a aproximadamente 13% da população), segundo o Ministério da Saúde.

Embora frequentemente confundido com a timidez comum, o Transtorno de Ansiedade Social, historicamente conhecido como fobia social, é uma condição psicológica bem mais complexa e limitante. Trata-se de um medo intenso, persistente e desproporcional de ser julgado, avaliado criticamente, humilhado ou rejeitado em ambientes de exposição.

Continua após a publicidade

Para compreender as nuances dessa condição e esclarecer suas formas de identificação e tratamento, conversamos com as psicólogas Letícia Marques, pós-graduada em neurociência, psicologia positiva e mindfulness pela PUC-PR, e a Dra. Alessandra Petraglia, psicóloga clínica e comportamental, formada pela Universidade do Estado de Minas Gerais.

Como diferenciar timidez de um transtorno mais grave?

A linha que separa o comportamento tímido de um quadro de ansiedade social reside no nível de sofrimento e no grau de limitação imposto à rotina. A pessoa tímida pode vivenciar um desconforto inicial ao ingressar em novos ambientes ou falar com desconhecidos; contudo, de forma gradual, consegue se adaptar e realizar suas atividades. Na fobia social, a interação deixa de ser um processo fluido e espontâneo, transformando-se em um desafio doloroso.

Dra. Alessandra Petraglia destaca a diferença essencial na forma como a mente reage a esses cenários: “Essa fobia social, ela pode aparecer em diversas situações que para outras pessoas parecem simples, mas não é para quem tem a fobia. O que desencadeia o medo não é necessariamente a situação em si, mas a possibilidade de ser observado, avaliado ou considerado inadequado”.

Continua após a publicidade

A especialista reforça que o transtorno ultrapassa o temperamento tímido: “A fobia social vai além do indivíduo tímido, porque compromete a rotina e o desenvolvimento de capacidades da vida diária, impedindo a pessoa de exercer atividades normais como estudar, trabalhar ou socializar”.

Do ponto de vista diagnóstico, conforme aponta a psicóloga Letícia Marques, parâmetros médicos consolidados, como o DSM-5-TR, utilizam critérios bem definidos. O foco do transtorno envolve uma preocupação antecipatória crônica, sintomas físicos expressivos e atitudes de evitação.

A especialista explica que “na fobia social, o medo é persistente e provoca sofrimento significativo ou limita a vida pessoal, profissional e afetiva”. Ela complementa salientando que a pessoa vivencia essas situações como ameaças reais, mesmo mantendo a clareza racional de que não há um perigo proporcional à sua reação.

Continua após a publicidade

Essa resposta de pavor costuma vir acompanhada de reações fisiológicas intensas, como taquicardia, sudorese, tremores, tensão muscular e rubor facial. Para saber se você sofre de fobia social, é essencial reparar nestes sintomas e buscar acompanhamento.

Além disso, não se deve confundir o transtorno com a introversão. A pessoa introvertida escolhe o recolhimento e prefere momentos a sós sem que isso represente sofrimento. Quem tem fobia social frequentemente deseja interagir, construir amizades e participar de eventos, mas é paralisado pelo temor do julgamento alheio.

O transtorno não se manifesta apenas em eventos marcantes, está no cotidiano

O transtorno se manifesta tanto em momentos de grande exposição, como apresentar um trabalho acadêmico, participar de reuniões de trabalho ou passar por entrevistas de emprego, quanto em tarefas corriqueiras do dia a dia.

Continua após a publicidade

Dra. Alessandra Petraglia exemplifica como essas limitações surgem em atividades simples: “Pode aparecer no receio de responder perguntas na escola, apresentar trabalhos, pedir informações na rua ou falar em público. Também em ir a festas, usar banheiros públicos, comer em público ou até assinar documentos com outras pessoas olhando”.

Buscando aliviar o desconforto imediato, é comum a adoção dos chamados “comportamentos de segurança”. A pessoa passa a ensaiar mentalmente cada frase antes de falar, evita o contato visual direto, recorre ao uso constante do celular para parecer ocupada ou só frequenta ambientes acompanhada por alguém de confiança.

Entretanto, esses mecanismos acabam aprisionando o indivíduo em um ciclo contínuo. Letícia Marques alerta sobre o impacto dessas esquivas na rotina profissional e acadêmica: “Esses comportamentos de esquiva e segurança podem evitar a exposição no curto prazo, mas mantêm o transtorno ao longo do tempo.

Continua após a publicidade

O medo de falar em público pode comprometer a frequência escolar, a permanência no trabalho e a construção de relacionamentos. A pessoa pode recusar promoções, faltar a reuniões importantes ou abandonar cursos para evitar ser avaliada”.

E como a fobia social se desenvolve?

O surgimento do Transtorno de Ansiedade Social não decorre de um fator isolado. Trata-se de uma combinação de aspectos biológicos, psicológicos e ambientais. Predisposição genética para a ansiedade, traços de inibição do temperamento e histórico familiar desempenham um papel relevante.

Paralelamente, vivências marcadas por críticas constantes na infância, bullying, rejeição, humilhações e forte cobrança por perfeição moldam uma crença de que a aceitação depende do acerto contínuo.

Continua após a publicidade

Letícia Marques explica esse funcionamento cognitivo: “Pessoas com fobia social frequentemente carregam a crença de que precisam acertar sempre e que precisam ser aceitas. Então, a conversa deixa de ser uma troca e passa a ser uma prova constante onde qualquer falha percebida é vista como um desastre”.

Esses pontos foram diretamente abordados por Felca, que falou de sua relação com o bullying e com a exposição nas redes sociais. A pressão do ambiente digital e as experiências traumáticas pregressas atuam como catalisadores dessas inseguranças profundas.

Para o correto direcionamento clínico, é imprescindível diferenciar a fobia social de outros transtornos de ansiedade e de humor, com os quais ela pode coexistir:

Continua após a publicidade

No Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG), a preocupação não se concentra apenas na avaliação social, mas espalha-se por diversas áreas da vida, como finanças, trabalho e saúde. No Transtorno do Pânico, as crises de pavor ocorrem de maneira inesperada e abrupta, impulsionadas pelo medo de morrer ou perder o controle; na fobia social, os picos de ansiedade costumam ter como gatilho a perspectiva da exposição interpessoal.

Já na depressão, o isolamento decorre da falta de energia, da apatia e da perda de interesse, enquanto na ansiedade social o afastamento é motivado pelo receio de passar vergonha.

Como diagnosticar e tratar a fobia?

Por não existirem exames laboratoriais ou de imagem que atestem o Transtorno de Ansiedade Social, a identificação do quadro exige criteriosa avaliação profissional. Como enfatiza Dra. Alessandra Petraglia: “O diagnóstico é feito por meio de uma avaliação clínica detalhada ali. Não existe um exame de sangue, um teste que confirme a fobia social; o diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história relatada pelo paciente, no relato da família e na observação direta durante as sessões”.

Continua após a publicidade

A psicoterapia é a principal linha de cuidado, destacando-se a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) devido à sua eficácia comprovada no tratamento da ansiedade social. O trabalho terapêutico auxilia o paciente a identificar e reestruturar padrões de pensamento disfuncionais, compreender a influência de suas vivências e desenvolver estratégias graduais para lidar com as situações temidas.

Nos casos necessários, o acompanhamento pode ser integrado à conduta psiquiátrica com a prescrição de medicamentos específicos, além de terapias complementares avaliadas individualmente por profissionais habilitados.

Procurar apoio especializado não significa tentar alterar drasticamente a personalidade de uma pessoa ou transformar alguém reservado em extrovertido. Conforme ressalta Letícia Marques: “O objetivo não é transformar alguém tímido em extrovertido, mas reduzir o sofrimento e ampliar sua liberdade para viver, se relacionar e fazer escolhas sem que o medo determine os limites de sua vida”.