Uma decisão tomada há mais de 150 anos transformou completamente parte da paisagem de uma ilha mexicana. Em 1869, cerca de 100 ovelhas foram levadas para a Ilha Socorro, no arquipélago de Revillagigedo, no Oceano Pacífico.
A ideia inicial era utilizar os animais para criação. O plano, porém, não saiu como esperado. As ovelhas sobreviveram, passaram a viver de forma selvagem e encontraram um ambiente sem predadores naturais capazes de controlar a população. O resultado apareceu nas décadas seguintes.
De 100 ovelhas para 5 mil
A população cresceu durante décadas até alcançar aproximadamente 5.000 animais em 1960, segundo estudos sobre a história ecológica da ilha.
A presença dos animais mudou o equilíbrio de um território que havia evoluído sem grandes herbívoros terrestres. O pastoreio constante retirava a cobertura vegetal, destruía mudas e deixava marcas no solo.
Além disso, as próprias trilhas abertas pelas ovelhas e os locais usados para descanso contribuíam para a compactação do solo e para processos de erosão.
Pesquisadores associaram a presença do rebanho à perda de vegetação e de solo em cerca de 30% da superfície da ilha.
A situação também ameaçava espécies nativas. A Ilha Socorro possui alto grau de endemismo, com espécies que não existem naturalmente em outras partes do mundo.
A Marinha tentou controlar o rebanho
O problema fez autoridades mexicanas adotarem medidas para reduzir a quantidade de animais.
Com o aumento das ações de caça da Marinha mexicana, a população caiu para aproximadamente 2.000 ovelhas em 1988. Mesmo assim, os animais continuaram como um dos principais agentes de degradação ambiental da ilha.
A solução definitiva exigiria algo mais radical: retirar todos os animais.
O fim das ovelhas selvagens
A campanha de erradicação começou no fim dos anos 2000 e ganhou força a partir de 2009. Naquele ano, equipes utilizaram caça aérea para localizar e retirar parte do rebanho.
Depois, os trabalhos continuaram por terra. Os responsáveis chegaram a utilizar animais conhecidos como “ovelhas Judas”, equipados com transmissores para ajudar os caçadores a encontrar os grupos restantes.
Entre 2009 e 2012, a campanha retirou 1.762 ovelhas da Ilha Socorro. Em 2012, os pesquisadores consideraram a população erradicada.
A natureza começou a recuperar o que o rebanho destruiu
Sem as ovelhas para consumir continuamente a vegetação, a ilha começou a mostrar sinais de recuperação.
Um estudo publicado em 2016 comparou imagens de satélite e levantamentos realizados antes e depois da retirada dos animais. Os pesquisadores identificaram aumento da cobertura vegetal em aproximadamente 1.452 hectares, área equivalente a cerca de 11% da superfície da ilha.
Em áreas de floresta analisadas no estudo, a cobertura vegetal média passou de 29,29% em 2009 para 85% em 2013. Nas áreas de vegetação arbustiva, o índice também cresceu de forma expressiva.
O que começou com 100 ovelhas levadas ao México em 1869 terminou com milhares de animais alterando a paisagem e uma operação de anos para devolver o equilíbrio ao ecossistema.






