Escondida no interior de uma montanha na Serra do Mar e sobrevivente de um bombardeio aéreo durante a Revolução de 1932, a Usina Hidrelétrica Henry Borden, em Cubatão, no Litoral de São Paulo, se prepara para um novo capítulo ao completar um século de história. O complexo, que já foi o “coração” elétrico do estado, vai abrir as portas ao público a partir de novembro, com um espaço cultural moderno de exploração nos túneis e maquinários subterrâneos.
Com 227 metros quadrados, o local contará com tecnologias de realidade virtual para que os visitantes explorem os cenários da usina de forma imersiva. O projeto inclui mapas táteis, audiodescrição e melhorias na acessibilidade física. A inauguração está marcada para 7 de novembro.
Veja fotos da usina que completa 100 anos e vai ser transformada em espaço de visitação
O dia em que o “coração” elétrico de São Paulo virou alvo militar
Inaugurada ainda no século passado, em 1926, por Asa White Kenney Billings, a usina transformou o sistema hídrico da Região Metropolitana, incluindo o bombeamento do Rio Pinheiros para a Represa Billings, e forneceu a energia para o crescimento da Baixada Santista.
Além da falta de espaço na superfície, já que a encosta externa estava ocupada pelos tubos e pela usina original de 1926, havia uma forte questão de segurança nacional para que a estrutura fosse construída em uma escavação na montanha.
Em 28 de julho de 1932, durante a Revolução Constitucionalista, aviões do governo federal, sob o comando de Getúlio Vargas, atacaram a Usina de Cubatão, que funcionava como o “coração” do sistema elétrico de São Paulo.
O objetivo era cortar o fornecimento de energia da capital para paralisar a produção do parque industrial, que havia sido convertido para a fabricação de armamentos e munições.
Uma bomba atingiu a sala de controle externa, perfurou o teto, quebrou janelas e feriu funcionários, mas não interrompeu o funcionamento da estrutura. Apesar dos estragos, ninguém morreu.
Décadas depois, nos anos 1950, em meio ao início da Guerra Fria, instalar o complexo energético responsável por sustentar a expansão industrial de São Paulo no interior da rocha representava uma medida estratégica de proteção contra possíveis novos ataques.
Engenharia curiosa escondeu estrutura no interior da Serra do Mar
A construção subterrânea da Usina Henry Borden, iniciada ainda em 1952, é considerada uma “obra-prima” da engenharia brasileira. Para ampliar a capacidade de geração de energia sem sobrecarregar a encosta da montanha, os engenheiros decidiram perfurar a Serra do Mar e construir uma usina inteira dentro da rocha.
De forma simples, os trabalhos resultaram em uma caverna no interior da montanha e o espaço passou a abrigar a nova casa de força. Esse ambiente principal possui 120 metros de comprimento, 21 metros de largura e 39 metros de altura, tamanho equivalente a um prédio de 10 andares.
Para viabilizar a execução das atividades na usina, foram escavados túneis de ventilação, galerias de drenagem e uma “galeria blindada”, para suportar a pressão extrema da água descendo a serra.
O espaço foi projetado para abrigar seis grupos geradores movidos por turbinas do tipo Pelton, onde cada turbina é impulsionada por quatro jatos de água a alta pressão.
O que esperar do novo Espaço Cultural Henry Borden
Ao longo da visita no espaço histórico que ajuda a contar a história da indústria paulista, o público percorre diferentes núcleos temáticos que apresentam a trajetória da Usina Henry Borden, sua relevância econômica, o patrimônio industrial, os desafios da engenharia, a sustentabilidade e o futuro da energia.
Um dos destaques da nova exposição é o projeto Usina de Memórias e Futuros, que reúne depoimentos de dezenas de trabalhadores, aposentados e moradores ligados à história da usina, valorizando o patrimônio imaterial construído ao longo de um século de funcionamento.
A experiência do visitante também incorpora recursos tecnológicos inéditos, como uma simulação em realidade virtual que reproduz o tradicional percurso realizado no trolley de manutenção da usina, permitindo ao público vivenciar uma experiência imersiva em um dos cenários mais emblemáticos do complexo.
“A Usina Henry Borden é muito mais do que uma hidrelétrica. Ela representa um marco da engenharia brasileira e um patrimônio que impulsionou o desenvolvimento econômico e industrial de São Paulo ao longo de um século. Ao inaugurar este novo Espaço Cultural, reafirmamos nosso compromisso com a preservação dessa história, com a valorização das pessoas que ajudaram a construi-la e com a ampliação do acesso da sociedade a esse legado, estimulando reflexões sobre o futuro da energia”, explica Rafael Strauch, diretor-presidente da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae)
Saiba como explorar os bastidores da obra monumental
Apesar da inauguração em novembro, o espaço não estará aberto ao público geral de imediato. As visitas ocorrerão exclusivamente mediante agendamento prévio, cujas regras ainda serão divulgadas pela Emae.








