Europa conecta sistemas de pagamento de 130 milhões de pessoas para facilitar transferências entre países e reduzir dependência de Visa e Mastercard

A Europa quer fazer sistemas nacionais conversarem entre si

Pessoa usando smartphone para fazer pagamento instantâneo em terminal de loja europeia, com cartão bancário ao lado.

Imagem fotorrealista ilustrativa de pagamento digital por celular, área em que sistemas europeus querem ampliar a interoperabilidade entre países.

Grupos de pagamento de diferentes países europeus anunciaram uma nova rede destinada a conectar plataformas que já atendem cerca de 130 milhões de pessoas. A European Network for Payments, ou ENP, nasce com participantes como Bizum, Bancomat, Wero, SIBS-MB WAY e Vipps MobilePay.

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Juntos, esses sistemas alcançam 13 países e mais de 70% da população da União Europeia e da Noruega, segundo os organizadores. A primeira etapa deve facilitar transferências entre pessoas através das fronteiras, antes de avançar para comércio eletrônico e pagamentos em lojas.

O problema europeu é diferente do que o Brasil resolveu

O continente possui meios digitais rápidos e populares, mas muitos cresceram dentro de fronteiras nacionais. Um espanhol pode estar acostumado ao Bizum e um italiano ao Bancomat, enquanto a experiência muda quando pagamento e recebedor estão em países diferentes.

A ENP tenta criar uma camada comum para que esses sistemas conversem sem obrigar todos a abandonar as marcas e estruturas existentes. É uma estratégia de interoperabilidade, não a criação imediata de um único aplicativo europeu.

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É aqui que o paralelo com o Pix ajuda

No Brasil, o Pix permite transferir dinheiro entre contas de instituições diferentes em segundos e funciona 24 horas por dia. O Banco Central criou o arranjo e opera a infraestrutura central de liquidação, fazendo com que bancos e instituições participantes utilizem regras e trilhos comuns.

Para o brasileiro, a experiência tornou normal enviar dinheiro de um banco para outro sem precisar saber qual rede de cartão está por trás da operação. A ambição europeia de tornar pagamentos instantâneos mais interoperáveis pode produzir uma experiência que lembra essa simplicidade.

Mas a ENP não é o “Pix europeu”

A comparação termina quando se observa a arquitetura. O Pix é um arranjo instituído pelo Banco Central do Brasil e utiliza uma infraestrutura central de liquidação operada pela autoridade monetária, enquanto a ENP nasce como empreendimento conjunto de sistemas europeus já existentes.

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Também existe na Europa o projeto do euro digital, conduzido pelo Banco Central Europeu, que pertence a outra discussão. A nova rede privada e um eventual euro digital podem coexistir, competir ou se complementar conforme regras e produtos forem definidos.

Visa e Mastercard estão no centro da discussão sobre autonomia

Um dos objetivos declarados da nova rede é reduzir a dependência europeia de grandes grupos de pagamento norte-americanos. Cartões dessas redes estão profundamente integrados ao comércio europeu, e construir alternativas locais ganhou importância estratégica em um período de maior atenção à autonomia financeira do continente.

Reduzir dependência não significa simplesmente desligar cartões existentes. Comerciantes, consumidores e bancos precisam ter motivo para adotar a alternativa, e uma rede só se torna realmente útil quando encontra aceitação ampla nos lugares em que as pessoas querem pagar.

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130 milhões de usuários são ponto de partida

O número divulgado soma pessoas atendidas pelos sistemas fundadores. Isso não significa que 130 milhões já estejam utilizando a ENP, porque a conexão ainda precisa ser implantada e as funcionalidades serão liberadas por etapas.

A diferença é semelhante a juntar várias estradas nacionais e anunciar um corredor internacional. Os motoristas já existem e as estradas também, mas sinalização, regras, conexões e pontos de entrada precisam funcionar antes que a viagem atravesse fronteiras sem atrito.

O Pix mostra como um hábito pode mudar depressa

O Pix começou a operar plenamente em novembro de 2020 e rapidamente passou a ser usado para transferências, compras e cobranças. A experiência brasileira mostrou como uma infraestrutura simples para o usuário pode alterar hábitos de pagamento em poucos anos.

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Também mostrou que escala traz novos problemas. Golpes, engenharia social e disputas sobre segurança exigiram mecanismos adicionais, limites e ferramentas de devolução, lembrando que facilidade de pagamento precisa crescer acompanhada de proteção.

O teste europeu acontecerá no caixa e no celular

Para a ENP, sucesso não será medido apenas pelo número de empresas fundadoras. O usuário precisará conseguir pagar alguém em outro país sem entender a complexidade que existe por trás da tela, e o comerciante terá de enxergar custo e conveniência suficientes para aceitar o sistema.

Governança será outro desafio porque as regras precisam funcionar em vários mercados, idiomas e ambientes regulatórios. Uma alteração que parece pequena para um sistema nacional pode afetar participantes de países com hábitos e infraestruturas diferentes.

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O detalhe que coloca os números em perspectiva

A sede da nova empresa ficará em Madri e os custos iniciais serão cobertos pelos acionistas enquanto a rede busca escala. A governança terá de equilibrar interesses de plataformas que chegam ao projeto com tamanhos, mercados e modelos comerciais diferentes.

Uma vantagem potencial é preservar sistemas que já têm reconhecimento local. Em vez de convencer milhões de pessoas a instalar uma marca desconhecida, a conexão pode aparecer dentro de aplicativos e hábitos existentes, desde que a integração técnica realmente seja transparente.

O que já aconteceu e o que ainda precisa ser demonstrado

A criação da rede e a participação dos sistemas fundadores já foram anunciadas. Também já existe uma base potencial de cerca de 130 milhões de usuários atendidos pelas plataformas envolvidas.

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O que ainda precisa ser demonstrado é se essa conexão funcionará de maneira simples entre países, se os consumidores perceberão vantagem prática e se comerciantes adotarão a nova estrutura em escala suficiente para reduzir a dependência das redes internacionais de cartões.

Os 130 milhões, portanto, representam o alcance atual dos sistemas participantes, não o número de pessoas que já utilizam uma rede europeia totalmente integrada.

A Europa está tentando chegar à simplicidade por outro caminho

O Brasil construiu uma infraestrutura comum coordenada pelo Banco Central e depois viu bancos e fintechs disputarem a experiência sobre esses trilhos. A Europa está tentando conectar sistemas que já cresceram separadamente, preservando parte da estrutura existente.

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Os dois caminhos podem produzir para o usuário uma sensação parecida: escolher um contato ou ler um código e ver o dinheiro chegar rapidamente. Por trás dessa experiência, porém, a arquitetura institucional é diferente e não deve ser apagada por um apelido fácil.

A ENP ainda precisa provar que consegue transformar 13 países em uma experiência de pagamento realmente contínua. Se funcionar, o brasileiro poderá reconhecer algo familiar na tela, mas a história não será a de uma cópia do Pix; será a de um continente tentando alcançar interoperabilidade a partir de peças que já estavam espalhadas pelo mapa.