Quando cerca de 15 estudantes do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, começaram a se reunir em 2024, ainda não havia uma locomotiva esperando por eles nem uma longa tradição universitária portuguesa na competição que pretendiam disputar. Dois anos depois, o grupo colocou sobre os trilhos a Andorinha, um protótipo 100% elétrico, e voltou do Reino Unido com cinco distinções.
A história chama atenção porque a palavra locomotiva pode criar uma imagem errada de escala. A Andorinha pesa cerca de 320 quilos e foi construída para uma competição de engenharia ferroviária em escala reduzida, não para substituir locomotivas que puxam trens comerciais nas ferrovias portuguesas.
Mesmo pequena, ela foi projetada para puxar 1.800 quilos
O protótipo foi dimensionado para movimentar até 1.800 quilos de carga rebocada, mais de cinco vezes seu próprio peso. A energia vem de baterias de lítio e motores elétricos, com um sistema capaz de recuperar parte da energia durante a frenagem.
A recuperação transforma o motor em gerador durante determinados momentos de desaceleração e devolve energia ao sistema de armazenamento. É um princípio conhecido em veículos elétricos e trens modernos, mas implementá-lo em um projeto estudantil exige integrar eletrônica, controle, segurança e comportamento mecânico.
A estrutura foi pensada para manter baixo peso e considerar reciclagem ao fim da vida do protótipo. Suspensões primária e secundária ajudam a controlar o contato com os trilhos, enquanto um sistema pneumático participa da frenagem e possui mecanismos voltados à parada de emergência.
A competição não premia apenas quem anda mais rápido
A Railway Challenge é organizada pela Institution of Mechanical Engineers, do Reino Unido, e coloca equipes diante de provas que simulam problemas encontrados na engenharia ferroviária. Há desafios de projeto, negócio, inovação e desempenho na pista, o que obriga os estudantes a tratar a locomotiva como um sistema completo.
Na edição de 2026, realizada entre 25 e 28 de junho em Leicestershire, a equipe portuguesa participou pela primeira vez. O ISTrain terminou como melhor equipe estreante e conquistou distinções em Business Case, CAD, inovação e apresentação técnica, totalizando cinco prêmios destacados pela instituição portuguesa.
O campeão geral foi o fh2rail, da FH Aachen, da Alemanha, informação importante para colocar a estreia portuguesa no contexto correto. A Andorinha não venceu toda a competição, mas teve um desempenho incomum para uma equipe estreante e ganhou categorias nas quais planejamento e engenharia precisam ser demonstrados diante dos avaliadores.
O projeto funciona como laboratório sobre trilhos
Uma universidade consegue ensinar equações de dinâmica, resistência dos materiais e sistemas elétricos em sala, mas um veículo obriga esses conhecimentos a conviver no mesmo objeto. Uma peça que fica mais leve pode perder rigidez, um sistema potente pode exigir bateria maior e uma solução de controle pode criar novas exigências de segurança.
É nesse choque entre disciplinas que a competição ganha valor educacional. Estudantes precisam documentar decisões, fabricar componentes, negociar apoio, cumprir regras e descobrir que um sistema só funciona quando as interfaces entre as equipes também funcionam.
A Andorinha ainda pode ser operada à distância e monitorada em tempo real. Isso adiciona software e comunicação a um projeto que já envolve mecânica, eletrônica e dinâmica ferroviária, aproximando o exercício acadêmico de problemas encontrados em sistemas modernos.
O nome português chegou a uma prova britânica tradicional
O Railway Challenge existe desde 2012 e reúne universidades e organizações ferroviárias em uma pista de bitola reduzida. Para o ISTrain, participar significou também ser o primeiro grupo estudantil da Península Ibérica a entrar na competição, segundo a divulgação do projeto.
A estreia exigiu transportar o protótipo, equipe, ferramentas e documentação até o Reino Unido. Esse detalhe logístico parece secundário, mas faz parte de competições de engenharia nas quais o veículo precisa chegar pronto, passar por inspeções e continuar funcionando depois de testes sucessivos.
Os cinco prêmios transformaram o retorno a Lisboa em uma apresentação pública no fim de setembro. A locomotiva que havia sido construída para enfrentar avaliadores estrangeiros passou então a ser mostrada dentro da própria universidade como prova física do que o núcleo conseguiu produzir em dois anos.
O detalhe que coloca os números em perspectiva
O peso de 320 quilos também ajuda a entender a escala da pista britânica. O Railway Challenge utiliza uma ferrovia em miniatura capaz de receber protótipos construídos especificamente para a competição, permitindo testar conceitos sem o custo e o risco de uma locomotiva de tamanho comercial.
O nome Andorinha cria uma identidade portuguesa para um projeto essencialmente técnico. A escolha também ajuda a equipe a apresentar o trabalho fora da universidade, algo importante quando estudantes dependem de patrocinadores, fornecedores e instituições para fabricar peças e viajar.
O que já aconteceu e o que ainda precisa ser comprovado
A fonte inicial foi tratada como ponto de partida e os números foram mantidos dentro do contexto em que aparecem. Capacidade projetada não foi apresentada como uso comercial, e o desempenho na competição não foi transformado em prova de que o protótipo poderia substituir uma locomotiva ferroviária convencional.
A data também faz diferença porque esta reportagem registra o quadro disponível no fim de setembro e início de outubro de 2026. Novos testes, alterações no protótipo e futuras participações podem acrescentar resultados ao projeto.
Esse cuidado preserva justamente o elemento mais interessante da pauta sem aumentar artificialmente sua consequência. O fato principal continua forte quando o leitor consegue distinguir aquilo que os estudantes já construíram daquilo que o projeto ainda poderá se tornar.
O próximo passo é maior do que a própria Andorinha
Os estudantes já falam em ampliar a equipe e fortalecer a engenharia ferroviária como área capaz de atrair novos alunos. Há também a ambição de aproximar Portugal do circuito da competição e criar continuidade para que o conhecimento não desapareça quando os integrantes atuais terminarem o curso.
Esse é um desafio recorrente em equipes universitárias: estudantes se formam e saem, enquanto o projeto precisa sobreviver. Documentar decisões, treinar novos integrantes e manter patrocinadores pode ser tão importante quanto aperfeiçoar motores e suspensão.
A Andorinha não vai puxar passageiros entre Lisboa e Porto e não foi construída para isso. Seu resultado está em outro lugar: um grupo que começou com cerca de 15 estudantes colocou 320 quilos de engenharia portuguesa sobre trilhos, projetou capacidade para puxar 1.800 quilos e descobriu no Reino Unido que o primeiro protótipo já era capaz de voltar para casa com cinco prêmios.






