De um projeto sem grandes pretensões, surgido durante a pandemia da Covid-19, em Campinas, “O Que Te Assombra?” (OQTA) se transformou numa plataforma de estudo, análise e propagação da cultura de cemitério, primeiro no estado de São Paulo e depois no Brasil.
Hoje, a ação idealizada pelo advogado Thiago de Souza conta com quase 300 mil seguidores apenas no Instagram, publicou livros, revelou novos milagreiros e ajudou a elaborar leis sobre o tema pelo País.
“Criei o ‘O Que Te Assombra?” naquele momento de angústia da segunda onda da Covid, no segundo semestre de 2021. Estava muito encantando com o livro ‘Assombrações do Recife Velho’, do Gilberto Freire, e decidi reunir um grupo grande e sair por Campinas contando histórias de personagens reais que se tornaram sobrenaturais”, revelou ele em entrevista à TV GMG nesta semana.
A logística de levar até 100 pessoas de um local para o outro da metrópole interiorana, porém, não se mostrou das mais fáceis. Decidiu, então, focar no Cemitério da Saudade. Desde então, promoveu passeios gratuitos em importantes cemitérios do interior de São Paulo e em quase todos da Capital, além de outros estados.
Há, sim, histórias fantasmagóricas, mas o foco é revelar como o cemitério pode contar a vida cultural, social e político de um lugar. “O cemitério é um grande contador de histórias de pessoas que lá estão. É um parceiro da cidade, e não um inimigo, como muita gente gosta de pintar”, completou.
Chaguinhas e o primeiro cemitério de SP
Uma das ações mais importantes do OQTA foi propor o projeto de lei do Dia do Patrimônio Cultural Funerário, que acabou aprovado na Câmara Municipal de São Paulo em 2025, após ser apresentado pelo vereador Silvão Leite (União Brasil). Uma lei semelhante havia sido aprovada em Campinas também por influência de Thiago.
O dia escolhido é 3 de outubro, em referência ao início das atividades do Cemitério dos Aflitos em 1775, há 250 anos, o primeiro cemitério formal paulistano. Ele ficava onde hoje é o bairro da Liberdade, abaixo da atual Capela dos Aflitos.
O local originou o primeiro caso de milagreiro de cemitério registrado de São Paulo: Francisco José das Chagas, o Chaguinhas, um cabo de um grupamento considerado menor do Exército, formado quase exclusivamente por negros e indígenas, que liderou uma revolta nativista em 1821 para terem direitos semelhantes aos militares portugueses que atuavam no Brasil.
“A vida dele deveria ser contada nas escolas. É um personagem tão importante quanto Tiradentes”, destacou Thiago.
Capturado pelo Império durante a rebelião por direitos básicos, ele recebeu a pena de morte por enforcamento.
A sua execução seria feita no Largo da Forca, atual Praça da Liberdade, no centro de São Paulo. Só que a corda arrebentou sem ferir Chaguinhas três vezes seguidas. O povo, percebendo que aquilo poderia se tratar de um desejo divino pela liberdade do militar do baixo clero, começou a clamar: “Liberdade! Liberdade! Liberdade”. Até um representante da Igreja pediu clemência pelo homem. “Essa é uma das teorias mais aceitas do bairro ter o nome que tem”, revelou o especialista.
Os portugueses, porém, não desistiram, e o assassinato acabou acontecendo a pauladas e facadas. Ali surgiria o mito de Chaguinhas como milagreiro.
“O pessoal até hoje entra na Capela dos Aflitos, faz um pedido, escreve um bilhetinho e coloca na porta que, teoricamente, seria a da entrada da cela. Bate três vezes nessa porta, em referência às três vezes que a corda arrebentou, e acende uma velinha para ele”, destacou.
Atualmente, contou, quase todos os cemitérios de São Paulo e do Brasil tem milagreiros não oficiais, e há processos devocionais iniciais com figuras como a atriz Nair Belo, no Cemitério do Araçá, na Capital, e do ídolo corintiano Sócrates, no Cemitério Bom Pastor, em Ribeirão Preto.
Redes sociais como plataforma
Thiago explicou que usa as redes sociais apenas como uma plataforma para projetos mais elaborados. “As redes não são um fim em si”, disse ele, que contou que a intenção é usar a visibilidade na internet para publicar livros, elaborar projetos de lei e influenciar o poder público e empresas privadas para o valor das histórias cemiteriais.
Ele destacou que em São Paulo há figuras históricas enterradas em lugares como o Museu do Ipiranga, o Largo de São Bento, a Catedral da Sé, a Paróquia de Santa Cecília e até no Autódromo de Interlagos. “Só no Obelisco do Ibirapuera tem 700 pessoas sepultadas”, contou.
Há até um cemitério para cachorros que funcionou durante mais de um século onde hoje está o Parque Ibirapuera. Quem procurar bem encontra o abrigo eterno de Pinguim, um cãozinho enterrado naquele solo em 1946.
Por meio dos relatos e pesquisas, publicou uma série de livros, como “Milagreiros de Cemitérios” – Cidade de São Paulo, “Conheça o Lobisomem do Seu Bairro” e “Assombrações de Campinas”, todos pela editora Pontes. Prepara uma nova publicação para 2026 focada novamente na capital paulista.
Ética na relação com os mortos
Thiago de Souza afirmou que, em suas abordagens, busca eticamente não se valer de sua condição de vivo para demonstrar superioridade moral diante de um túmulo, ou tripudiar em cima de alguém que não tem condições de se defender.
Questionado como faz para contar histórias em cemitérios sem ferir os sentimentos de familiares dos mortos, contou que vai no limite das informações pública. “Houve uma polêmica com um youtuber que discutiu com a viúva de um falecido ao expor que ele estava sepultado no chão. Mas esse era o desejo dele e da família. Eu não interfiro numa relação pessoal e supersensível”, afirmou.
Com as suas abordagens mais serenas, revelou, por exemplo, onde fica o túmulo de Eunice Paiva em São Paulo, a viúva de Rubens Paiva retratada no filme “Ainda Estou Aqui”. Também está em processo de colocação de identificações no túmulo de José Mujica Marins, o Zé do Caixão, no Cemitério da Lapa.
Além desses, seus roteiros gratuitos revelam a presença de rappers, sambistas, atores, escritores, políticos e outras personalidades que construíram a alma nacional.
“As histórias contadas pelos cemitérios mostram que a existência de uma pessoa não termina com a morte. Ela continua viva através da memória e do reconhecimento de seu legado”, finalizou.






