Quase 500 mergulhadores e voluntários passaram dois anos ajudando a recuperar florestas de kelp no norte da Noruega. Ao todo, o grupo participou de 23 ações de mergulho e retirou 98.085 ouriços-do-mar de três pontos do litoral entre 2024 e 2026.
O trabalho debaixo d’água somou 20.336 minutos, o equivalente a 339 horas, quase 14 dias seguidos de mergulho. O resultado já aparece: em um dos locais, as algas retomaram toda a extensão de um antigo cais de 200 metros.
Por que retirar ouriços ajuda as algas?
Os ouriços-do-mar fazem parte natural do ecossistema, mas em excesso viram um problema. Eles se alimentam das algas que crescem sobre as rochas e, quando a população cresce demais, deixam grandes áreas do fundo do mar praticamente sem vegetação.
Esse cenário tem até nome técnico: urchin barren, ou “deserto de ouriços”. No norte da Noruega, a queda no número de predadores naturais, a partir da década de 1970, permitiu que os ouriços se espalhassem e destruíssem parte das florestas de kelp da região. Segundo o Instituto Norueguês de Pesquisa da Água (NIVA), o país já perdeu cerca de 8.400 km² desse tipo de habitat.
Quando os voluntários reduzem a densidade de ouriços em um ponto específico, as algas ganham espaço para se fixar novamente nas rochas. Aos poucos, a vegetação volta a formar uma estrutura tridimensional que serve de abrigo, alimento e área de reprodução para peixes e outros animais marinhos.
Como está o avanço em cada ponto do litoral?
A iniciativa, coordenada pela organização Rissa Citizen Science, começou em abril de 2024 e reuniu mergulhadores, cientistas e voluntários em três locais: Sørsjetéen, Telegrafbukta e Øksfjord.
Sørsjetéen foi o primeiro ponto restaurado e hoje é o caso mais avançado: a vegetação já recolonizou toda a extensão de 200 metros do cais local, que entrou em fase de manutenção. Em Telegrafbukta, onde o trabalho começou em junho de 2025 numa área de cerca de 2 mil metros quadrados, aproximadamente um terço do espaço já foi recuperado. Já em Øksfjord, dois fins de semana de mutirão, em outubro de 2025 e maio de 2026, permitiram avançar por cerca de 150 metros de costa.
Além de retirar os animais, os participantes coletam dados de peso e tamanho de parte dos ouriços, o que ajuda a monitorar a população local enquanto a vegetação se recupera.
O trabalho também acontece fora d’água
O esforço não fica restrito aos mergulhadores. Desde novembro de 2025, o projeto conta com o Urchin Density Challenge, uma iniciativa de ciência cidadã que permite a qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, analisar imagens do fundo do mar e contar ouriços pela internet.
Até maio de 2026, mais de 250 voluntários virtuais já haviam participado, analisando cerca de 5 mil imagens e contabilizando aproximadamente 53 mil ouriços, um reforço de dados que ajuda a orientar as próximas etapas da restauração.
O caso mostra como mutirões relativamente simples, sustentados por voluntariado e ciência cidadã, podem produzir resultados mensuráveis na recuperação de ecossistemas marinhos, mesmo em escala ainda modesta diante da extensão total perdida ao longo de décadas.






