Na madrugada que antecede a votação, a disputa eleitoral costuma revelar uma face pouco nobre. Antes que escolas e outros locais de votação abram os portões, materiais de campanha podem cobrir calçadas, sarjetas e entradas de prédios públicos. Rostos, números e promessas impressos formam um tapete de papel sobre o caminho dos eleitores.
Bastam algumas horas para que a propaganda criada com o objetivo de conquistar votos se transforme em lixo eleitoral. Além de sujar as ruas, o descarte irregular deixa o piso escorregadio, dificulta a circulação e aumenta o risco de quedas. Quando chove, a água arrasta parte dos impressos para os sistemas de drenagem, onde o acúmulo pode comprometer o escoamento.
Depois que a votação termina, a campanha desaparece das ruas, mas o material permanece. Garis e equipes municipais precisam recolher papéis, adesivos e outros resíduos deixados pelo caminho. A cena expõe uma contradição: enquanto candidatos prometem administrar cidades e proteger o meio ambiente, as próprias campanhas deixam uma conta para prefeituras, trabalhadores da limpeza e moradores.
Fiscalização entra em reta final
A menos de uma semana do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026, a propaganda nas ruas já mobiliza a Justiça Eleitoral. Até 25 de setembro, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo havia recebido mais de 9,2 mil denúncias relacionadas à campanha.
Mais de 5 mil registros apontavam irregularidades em vias públicas. No mesmo período, equipes de fiscalização apreenderam 98 peças de propaganda instaladas em desacordo com as regras eleitorais.
Boa parte das denúncias chega pelo aplicativo Pardal. Por meio da ferramenta, eleitores enviam fotografias, vídeos e informações sobre materiais colocados em postes, pontes, árvores, jardins, muros e outros espaços onde a legislação proíbe a publicidade eleitoral.
A distribuição de impressos continua permitida durante o período de campanha. A irregularidade começa quando pessoas ligadas às candidaturas abandonam grandes quantidades nas ruas, sobretudo nos arredores dos locais de votação.
Lixo eleitoral pode configurar crime
O despejo de material impresso perto das seções eleitorais, na véspera ou no dia da votação, pode configurar propaganda irregular e crime eleitoral. A prática também pode gerar multas e responsabilizar candidatos, partidos ou pessoas diretamente envolvidas no descarte.
O perigo ultrapassa os limites da disputa política. Quando cobrem pisos lisos, os papéis criam uma superfície escorregadia e favorecem acidentes. Em eleições anteriores, pessoas sofreram quedas ao caminhar sobre materiais espalhados nos arredores das escolas.
Apontar os responsáveis, contudo, exige provas. O nome e o número impressos no papel não demonstram, por si só, que determinada campanha ordenou o descarte. Fotografias, vídeos, testemunhos e registros feitos no momento da distribuição ajudam a fiscalização a reconstruir o episódio e identificar a autoria.
Uma eleição, quase 300 toneladas de resíduos
Os balanços divulgados depois das votações dão dimensão ao problema. Em 2014, a Prefeitura de São Paulo retirou das ruas aproximadamente 296 toneladas de resíduos relacionados às eleições.
Somente no primeiro turno, as equipes municipais recolheram cerca de 250 toneladas. Após o segundo turno, quando apenas duas candidaturas disputavam a Presidência, os trabalhadores removeram outras 46 toneladas.
A operação mobilizou aproximadamente 4 mil profissionais e 200 equipamentos. Embora o balanço reunisse diferentes tipos de resíduos encontrados nas vias, o período eleitoral ampliou de forma significativa a necessidade de varrição nos arredores das seções.
No interior paulista, o cenário se repetiu. Durante o primeiro turno de 2022, a Urbam recolheu 4,1 toneladas de papéis perto dos locais de votação de São José dos Campos. As equipes retiraram todo esse volume das ruas em apenas um domingo.
Cada tonelada recolhida também representa horas de trabalho e recursos públicos empregados depois do encerramento da campanha. Enquanto o último eleitor segue para casa, garis ainda percorrem escolas, praças, avenidas e bairros para devolver as ruas à rotina.
Reciclagem esbarra na contaminação
À primeira vista, encaminhar os papéis recolhidos para a reciclagem parece uma solução simples. Na prática, o estado em que os materiais chegam às equipes de coleta reduz as possibilidades de reaproveitamento.
Chuva, lama, óleo, restos de alimentos e outros resíduos contaminam os impressos espalhados pelo chão. Conforme a contaminação aumenta, as cooperativas encontram mais dificuldade para aproveitar o papel, enquanto os aterros recebem uma parcela maior do material.
Adesivos, faixas e placas acrescentam outro obstáculo. Como esses itens misturam plástico, cola, tinta, tecido e papel, os trabalhadores precisam separar cada componente antes da reciclagem. O processo exige tempo e estrutura, além de reduzir o valor comercial do resíduo.
Parte do material que escapa da varrição ainda pode alcançar córregos, rios e áreas verdes. Embora os municípios respondam pela limpeza das vias, a dispersão amplia o impacto ambiental e pode levar resíduos a espaços protegidos por instituições como o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A campanha acaba, mas a conta permanece
A prevenção começa dentro das próprias campanhas. Candidatos e partidos podem calcular melhor as tiragens, acompanhar a distribuição e recolher as sobras antes que os materiais cheguem às ruas. Impressos limpos e separados também podem seguir para cooperativas de reciclagem.
Eleitores que presenciarem o descarte irregular, por sua vez, podem fotografar ou gravar a ação e encaminhar o registro à Justiça Eleitoral. A denúncia ajuda a interromper a prática e oferece elementos para que a fiscalização identifique os responsáveis.
O voto leva poucos minutos. A retirada do lixo eleitoral, contudo, pode atravessar o domingo e avançar pela semana. Entre discursos, números e promessas, a maneira como cada candidatura administra o próprio material também oferece uma medida concreta do compromisso de quem pretende governar com a cidade e o espaço público.







