Nem todo alimento proteico é saudável: entenda a obsessão da indústria e por que adição não garante qualidade

Cerveja sem álcool com proteína é a nova aposta do mercado, mas levantamento aponta que 80% das opções das prateleiras são alimentos ultraprocessados; especialistas alertam para os riscos do falso selo de "saudável"

Ser "proteico" é sinônimo de saudável? Entenda a prática que faz parte do mundo da nutrição/ Divulgação/ Desrotulando

A indústria alimentícia encontrou no apelo “proteico” a sua nova estratégia para atrair o consumidor. O lançamento recente da Spaten Pro, uma cerveja sem álcool da Ambev reforçada com 10 gramas de proteína por lata, é o exemplo mais novo de uma tendência que dominou as prateleiras dos supermercados paulistanos.

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A adição do nutriente expandiu-se para categorias inusitadas, surgindo em rótulos de sucos de laranja, refrigerantes, sorvetes e até águas aromatizadas. Contudo, nutricionistas e analistas do setor alertam que a presença do ingrediente não transforma um alimento de baixa qualidade em uma escolha benéfica à saúde.

Ultraprocessados maquiados de saudáveis

A percepção popular de que a inclusão de whey protein ou colágeno torna um produto automaticamente saudável esbarra na composição dos ingredientes. Na maioria das vezes, o grau de processamento industrial do item permanece elevado.

De acordo com um levantamento feito pelo aplicativo de análise nutricional Desrotulando, 8 em cada 10 barras e bebidas proteicas cadastradas no banco de dados da plataforma são classificadas como alimentos ultraprocessados. O selo “proteico”, portanto, funciona como um atributo mercadológico — semelhante aos selos “zero” ou “light” —, mas não assegura a qualidade global do produto.

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Ingestão média já supre as necessidades diárias

A busca desenfreada por suplementação em alimentos industrializados também contrasta com a necessidade real da população. Segundo parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), a recomendação diária para um adulto saudável é de 0,8 gramas de proteína por quilo corporal — podendo alcançar até 2 g/kg no caso de atletas de alto rendimento.

Para um indivíduo de 70 kg, a meta de 56 gramas diárias é facilmente atingida por meio do cardápio habitual do paulistano, sem a necessidade de itens enriquecidos:

  • Prato feito tradicional: a combinação de arroz, feijão e uma porção de peito de frango.
  • Café da manhã e lanches: ovos, leite, iogurte natural ou proteína de soja.

O mito do déficit de proteína no Brasil

Dados científicos mostram que a carência do nutriente não é um problema disseminado no país. O estudo “O mito do déficit proteico”, publicado pela Revista de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), revelou que, mesmo entre a parcela de menor renda da população (os 20% mais pobres), apenas 2,6% não atingem a recomendação mínima de proteína.

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O verdadeiro déficit nutricional do brasileiro está no consumo de hortaliças e frutas. O levantamento Vigitel 2023, do Ministério da Saúde, aponta que 78% dos adultos nas capitais brasileiras não consomem a quantidade recomendada de frutas, legumes e verduras.

Praticidade exige atenção ao rótulo

Especialistas reforçam que os produtos proteicos industrializados não precisam ser encarados como vilões absolutos, pois cumprem papel útil na rotina corrida de grandes metrópoles ou para pessoas com demandas específicas.

O cuidado principal deve ser evitar o uso do selo proteico como um “salvo-conduto” para a alimentação diária. A qualidade nutricional continua sendo determinada pelo equilíbrio dos macronutrientes, pelo grau de processamento e pela leitura atenta da lista de ingredientes antes de colocar o item no carrinho.