A misoginia na internet passou por uma mutação severa nos últimos anos. Se historicamente o machismo operava por meio da objetificação e da sexualização do corpo feminino, reduzindo a mulher a um objeto de desejo e consumo, a vertente contemporânea articulada na chamada “machoesfera” tomou um rumo ainda mais sombrio.
Hoje, a hostilidade digital não busca a atração ou a exploração do corpo feminino; ela o despreza e rejeita a sensualidade em sua totalidade, alimentando um ódio amplo e irrestrito contra a existência das mulheres.
A mudança de paradigma e os caminhos para cobrir esse ecossistema extremista foram o centro das discussões do painel “Machosfera, incels e redes sociais: como cobrir a nova cara da misoginia?”, realizado durante o Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) deste ano.
O debate reuniu o professor e pesquisador Leonardo Nascimento, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que tem monitorado essas comunidades, e a repórter Marie Declercq, especialista na cobertura deste tema.
O desprezo ao corpo e a recusa da nudez
Um dos achados mais marcantes apresentados pelo professor Leonardo Nascimento em suas pesquisas sobre o comportamento desses grupos revela essa virada ideológica.
Na coleta de dados em tempo real, estratégica para capturar conteúdos antes que fossem apagados pelos administradores, a análise constatou que a busca ou divulgação de nudez não é o foco prioritário desses homens.
Ao contrário de fóruns do passado voltados para o vazamento de fotos íntimas ou objetificação explícita, a machoesfera atual cultiva um profundo desprezo pelo próprio corpo feminino. O machismo contemporâneo repudia a sensualidade e pune a mulher por existir socialmente. A aversão é tamanha que até mesmo ferramentas de inteligência artificial aplicadas à pesquisa encontraram barreiras: cerca de 270 imagens coletadas no estudo foram sumariamente bloqueadas pelo sistema Gemini devido à extrema violência e toxidade das artes e memes gerados por essas comunidades.
O humor ácido, a “zoeira” e os memes figuram como a principal engrenagem de difusão dessa ideologia, servindo de fachada e porta de entrada para mascarar o ódio puro.
Da subcultura anônima à politização do ódio
A repórter Marie Declercq, que monitora a machoesfera há mais de uma década, desde quando tinha 20 anos e acompanhava a dinâmica em plataformas como o Orkut, aponta que os ataques a mulheres na rede sempre existiram, mas a estrutura e o alcance mudaram vertiginosamente.
Entre 2010 e 2014, a concentração do preconceito ocorria majoritariamente em fóruns anônimos (imageboards/chans). Nesses espaços, a ausência de identidade era a regra. Contudo, entre 2014 e 2017, houve uma guinada metodológica e comportamental:
A dinâmica passou do “humor” pretensamente inofensivo para o ódio explícito e institucionalizado. Figuras públicas globais e nacionais, como Donald Trump e Jair Bolsonaro, inseriram a política partidária no ecossistema dos chans. A estética de transgressão jovem foi cooptada pela extrema-direita, convertendo ressentimento em militância política.
Quando publicou uma das primeiras reportagens investigativas de grande impacto sobre o tema em 2017, Marie passou a ser alvo de ataques orquestrados. A estratégia adotada por esses grupos se baseia na busca desesperada por atenção – eles operam em dinâmicas de engajamento em que a reação do público os fortalece.
Por isso, a postura recomendada ao cobrir essas redes é evitar a interação direta e focar na exposição do processo de recrutamento.
E a quem interessa esse novo formato?
A proliferação da misoginia não ocorre no vácuo. Plataformas como Discord e Telegram servem de ambiente de radicalização, onde o isolamento social, a precarização do trabalho e o sofrimento mental de jovens são instrumentalizados para recrutar novos adeptos.
Os algoritmos de recomendação das grandes redes sociais empurram conteúdos cada vez mais pesados para o público jovem. Como ressaltado durante o painel, as Big Techs lucram diretamente com o engajamento gerado pela indignação e pela dor social porque isso alimenta seus bolsos.
Como se preparar para entender e combater esse movimento?
Os especialistas reforçaram que esse ecossistema é complexo. Existem diversas vertentes (incels, MGTOW, redpills, masculinistas), e tratá-los como um bloco único impede a compreensão exata das ameaças.
É essencial entender o processo de entrada além de expor o conteúdo chocante dentro desses fóruns, que muitas vezes envolve informações falsas e manipulação de dados pelos próprios membros. O diálogo precisa mapear e previnir a jornada de coaptação que atrai adolescentes para o extremismo.
Além disso, não podemos demonizar as ferramentas. O foco da conversa não deve ser a interdição das plataformas digitais em si, mas a exposição das narrativas por trás das redes e a omissão das empresas de tecnologia na moderação de conteúdo.
Como o machismo atual não se limita à pornografia ou à exposição de nudez, as diretrizes de moderação das redes sociais e os órgãos de fiscalização precisam atualizar seus parâmetros para identificar a violência verbal, simbólica e psicológica, e nisso podemos ajudar ao não engajar com os conteúdos e ao denunciá-los.
A nova cara da misoginia expõe uma crise estrutural de afeto, identidade e saúde mental masculina, o que também é complexo e merece ser assunto para uma próxima matéria.
A misoginia atual possui nuances cujos impactos ultrapassam as telas e se convertem em ameaça real e cotidiana à integridade das mulheres e até dos proprios homens.






