O trabalho invisível dos professores: por que a jornada docente não termina quando a aula acaba?

Preparação de aulas, correção de atividades e sobrecarga fazem parte da rotina docente; governo federal tem iniciativas para a carreira, enquanto cidadãos podem apoiar propostas sobre remuneração.

Professora, em primeiro plano, lê parar alunos em uma sala de aula. Minas Gerais anuncia histórico escolar por e-mail

Foto: Divulgação/SEE

Em 15 de outubro é celebrado o dia dos professores, profissionais responsáveis pela formação de toda uma sociedade. Eles são responsáveis por nos fornecer uma base de conhecimento, maior visão de mundo e, muitas vezes, suporte emocional. Guardo muitos deles no coração até hoje.

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A profissão é uma das mais importantes do mundo, e a rotina dos educadores vai muito além do tempo passado em sala de aula. Preparação de atividades, correção de provas, planejamento pedagógico e outras tarefas realizadas fora do ambiente escolar fazem parte de uma jornada que dificilmente é reconhecida ou remunerada de forma proporcional ao esforço exigido pela profissão.

Além das horas dedicadas aos estudantes, professores também precisam lidar com desafios relacionados à remuneração, às condições de trabalho e à necessidade de conciliar diferentes vínculos profissionais para garantir uma renda suficiente.

O cenário ajuda a explicar as dificuldades de atrair e manter novos profissionais na docência. A segunda edição do levantamento Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, divulgado em setembro de 2026, apontou que o número de docentes do ensino médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025. No mesmo período, o contingente de professores com 60 anos ou mais cresceu 104,5%.

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A jornada que continua depois da aula

O doutor em Educação e professor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IFSertão), Raphael Alves, relatou ao JC PE que a carga de trabalho está entre os principais desafios da carreira. Segundo ele, o tempo dedicado à docência não se limita às aulas ministradas, já que parte das atividades precisa ser realizada em casa.

“A gente tem uma carga horária muito grande para um salário que não compensa o tanto de desgaste e tempo que você utiliza ali, para não falar do trabalho pós-escola, né? A gente trabalha muito em casa”, afirmou.

O professor também destaca que a necessidade de complementar a renda leva muitos profissionais a assumir mais de um vínculo empregatício. “Acho que a maioria dos professores que eu conheço que estão na rede básica tem dois, três vínculos para conseguir ter uma renda minimamente bacana”, relatou.

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O trabalho que acontece fora da sala de aula não é remunerado ou visto e continua sendo necessário para o funcionamento da rotina pedagógica.

Satisfação com salário e condições de trabalho

As dificuldades relatadas pelos educadores também aparecem em indicadores internacionais. O Panorama da Educação 2026 (Education at a Glance), da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apontou que, em 2022, apenas 44,3% dos professores brasileiros dos anos finais do ensino fundamental estavam satisfeitos com suas condições de trabalho. Na média dos países da organização, o índice era de 68,4%.

A percepção sobre os salários era ainda menos positiva. Entre os docentes brasileiros, 22,3% estavam satisfeitos com a remuneração, ante 38,7% na média da OCDE.

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Os dados ajudam a dimensionar o desafio de valorizar a carreira para além das homenagens realizadas em datas comemorativas. A remuneração e as condições de trabalho fazem parte de uma discussão mais ampla sobre a capacidade de atrair profissionais e garantir a permanência deles nas escolas.

Quem cuida de quem ensina?

A rotina dos professores também envolve demandas emocionais. Além de ensinar conteúdos, os educadores lidam com diferentes realidades familiares, dificuldades de aprendizagem e necessidades de acolhimento dos estudantes.

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O professor de Língua Portuguesa da rede estadual e dos anos iniciais e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede municipal de Camaragibe, Leonardo Santos, em relato ao JC PE, chamou a atenção para a necessidade de olhar também para os profissionais da educação.

“Muitas vezes falta isso nas escolas, nas redes como um todo. A gente olha muito para os índices, para os estudantes e para a escola, mas quem olha para o professor?”, questionou. Para ele, o trabalho docente tem potencial para transformar trajetórias, mas essa responsabilidade não pode depender exclusivamente do esforço individual dos educadores.

“Eu não acredito que a educação sozinha seja capaz de resolver todos os problemas da sociedade, mas eu tenho, sim, a convicção de que nenhuma sociedade consegue transformar sua realidade sem investir na educação”, afirmou. O professor acrescenta que a transformação precisa ser uma responsabilidade compartilhada entre o poder público e a sociedade.

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É essencial que discutamos a saúde mental, a carga horária e o plano de carreira desses profissionais, e você pode ficar de olho em iniciativas em prol dos educadores e até sugerir suas próprias campanhas para ajudar.

O que está sendo feito para valorizar os professores?

No âmbito federal, o governo Lula implementou o programa Mais Professores, criado em 2025, com ações voltadas à formação, à atração e à permanência de docentes na educação básica. Entre as iniciativas estão bolsas para atuação em áreas com carência de profissionais e medidas relacionadas ao ingresso na carreira pública.

Em janeiro de 2026, a Política Nacional de Indução à Docência na Educação Básica, instituída pela Lei nº 15.344, formalizou diretrizes para incentivar a entrada e a permanência de professores nas redes públicas. A legislação também prevê o cumprimento do piso salarial nacional e a substituição progressiva de profissionais temporários por efetivos, acompanhada da criação de planos de carreira e remuneração.

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Outra mudança ocorreu em junho de 2026, quando foi sancionada a Lei nº 15.437. A norma fixou o piso salarial nacional do magistério público da educação básica em R$ 5.130,63 mensais, para a formação de nível médio na modalidade normal e jornada de até 40 horas semanais, além de estabelecer uma nova fórmula de reajuste anual.

As medidas, porém, não eliminam a discussão sobre a valorização profissional. Remuneração, condições de trabalho, progressão na carreira e cumprimento do piso pelas redes de ensino continuam sendo temas de interesse de educadores e da sociedade.

Como a população pode participar do debate?

Quem deseja contribuir para a discussão sobre a valorização docente pode participar de consultas e iniciativas legislativas abertas ao público.

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Uma das ferramentas é o portal e-Cidadania, do Senado Federal, que permite apoiar propostas de criação ou alteração de leis. Ideias que alcançam 20 mil apoios em até quatro meses são encaminhadas à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa para análise e debate.

Entre as propostas disponíveis está a ideia legislativa “Valorização Progressiva da Carreira Docente”, que sugere reajustes anuais com ganho real e progressão salarial relacionada ao tempo de serviço e à qualificação profissional.

A população também pode acompanhar projetos na Câmara dos Deputados, consultar a situação do piso salarial nas redes públicas locais e encaminhar questionamentos às secretarias de Educação e aos representantes legislativos.

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A participação popular não garante que uma proposta seja aprovada, mas permite que demandas relacionadas à remuneração e às condições de trabalho sejam registradas e discutidas institucionalmente.

No Dia dos Professores, a discussão sobre reconhecimento vai além das homenagens: envolve as condições concretas para que os profissionais responsáveis pela formação de crianças e jovens consigam exercer seu trabalho e construir uma carreira sustentável.

Apesar dos obstáculos, educadores continuam encontrando na sala de aula oportunidades para transformar a realidade dos estudantes. Projetos científicos, iniciativas de inclusão e atividades voltadas à solução de problemas das comunidades mostram como o trabalho docente pode ultrapassar os limites do ensino tradicional.