O xenotransplante, técnica que pesquisa o uso de órgãos de animais em seres humanos, avança no Brasil como uma possível alternativa para enfrentar a escassez de órgãos para transplantes.
Em entrevista exclusiva à Gazeta, nesta quinta-feira (20/8), a pesquisadora Helena Corrêa de Araújo Gomes explicou os avanços do projeto.
Coordenadora do Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida (NUTABES) do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Helena acompanha uma pesquisa que utiliza suínos geneticamente modificados.
Para a pesquisadora, o xenotransplante não pretende substituir os transplantes entre seres humanos. A tecnologia seria mais uma alternativa para pacientes que aguardam um órgão.
Isso é um ganho assim exorbitante, porque o objetivo do xenotransplante não é só evitar que a pessoa receba o órgão de outro ser humano, mas ser mais uma tecnologia, mais uma opção.
Helena destaca que essa possibilidade pode ser especialmente importante para quem depende de tratamentos enquanto espera por um doador.
Um dos exemplos é o paciente que precisa de um rim e passa longos períodos fazendo hemodiálise.
Uma pessoa que precisa de um transplante renal fica durante muito tempo fazendo hemodiálise. Se ela puder deixar de fazer hemodiálise por um ano durante esse período onde ela espera um órgão de um ser humano, o ganho é gigante.
Entre os órgãos estudados estão rim, coração, córnea e pele. O fígado também aparece como uma possibilidade para o futuro.
A pesquisadora cita ainda os resultados obtidos em estudos internacionais. Segundo ela, já houve transplantes de órgãos de suínos em seres humanos.
O maior período mencionado por Helena foi de um ano com um órgão suíno funcionando em um paciente nos Estados Unidos.
Por que usar órgãos de suínos?
O xenotransplante envolve o transplante de órgãos, tecidos ou células entre espécies diferentes.
No projeto brasileiro, os suínos são estudados como possíveis doadores para seres humanos.
A escolha dos animais tem motivos científicos. Segundo Helena, os porcos possuem características fisiológicas semelhantes às dos humanos e apresentam um ciclo de vida relativamente curto.
Além disso, eles já são criados em larga escala, o que facilita o desenvolvimento de pesquisas com a espécie.
Existem vários fatores que colocam os suínos como o principal modelo para ser um doador de órgãos para seres humanos.
O principal desafio é evitar que o corpo humano rejeite rapidamente o órgão recebido. Essa reação é chamada de rejeição hiperaguda e pode ocorrer de forma intensa.
Por isso, os pesquisadores trabalham na edição genética dos animais. A estratégia busca alterar genes envolvidos na reação do organismo humano ao órgão suíno.
Esses suínos precisam ser modificados geneticamente para evitar essa rejeição hiperaguda.
A equipe já identificou genes e moléculas relacionadas à rejeição. A partir desse mapeamento, alguns genes podem ser desligados e genes humanos podem ser introduzidos nos embriões dos suínos.
Animais precisam ser livres de patógenos
A edição genética é apenas uma parte do desafio. Os animais também precisam ser criados em ambientes altamente controlados.
Isso ocorre porque os porcos possuem microrganismos e patógenos próprios. Caso fossem transmitidos para um receptor, poderiam representar um risco à saúde.
Por isso, eles precisam permanecer em um ambiente controlado durante todo o ciclo de vida.
No IPT, foi construída uma estrutura específica para essa finalidade.
A instalação é uma Pig facility de biossegurança nível 2, preparada para a criação de até 30 suínos relacionados ao projeto. A operação, porém, ainda não começou.
De acordo com Helena, o IPT aguarda recursos de uma agência de fomento para iniciar essa etapa. Enquanto isso, outros parceiros já avançaram em diferentes frentes da pesquisa.
Não vamos trabalhar neste momento com a capacidade máxima, de 30. A gente vai começar com pequeno número, até porque está nessa fase do desenvolvimento.
Projeto é 100% nacional
O projeto começou em 2017, a partir de pesquisas conduzidas por um grupo da Universidade de São Paulo (USP).
A equipe era liderada pela pesquisadora Mayana Zatz e pelo médico Silvano Raia, que morreu recentemente.
Os trabalhos começaram com a edição genética de embriões de suínos. Segundo Helena, os pesquisadores conseguiram avançar nessa etapa.
O projeto agora caminha para uma nova fase de desenvolvimento.
Ela ressalta, porém, que o suíno geneticamente modificado previsto pela pesquisa ainda não nasceu.
O grupo brasileiro conseguiu recentemente realizar a clonagem de um suíno, mas sem a introdução das alterações genéticas estudadas no xenotransplante.
Helena destaca que a iniciativa utiliza pesquisadores e investimentos nacionais
É um projeto 100% nacional porque ele está sendo desenvolvido aqui no Brasil com pesquisadores brasileiros, com investimento 100% nacional também.
A pesquisadora afirma que a participação de diferentes instituições é importante para garantir o avanço das pesquisas.
Antes de qualquer aplicação clínica, ainda serão necessárias novas etapas de desenvolvimento e validação.
O xenotransplante, portanto, ainda não é uma solução disponível para pacientes brasileiros.
A expectativa é que, no futuro, os órgãos de suínos possam se somar a outras tecnologias no combate à escassez de doadores.
Quem é Helena Corrêa de Araújo Gomes
Helena Corrêa de Araújo Gomes é bióloga, mestre em Saúde Pública e doutora em Biologia Celular e Molecular pela Fiocruz, além de ter realizado pós-doutorado na USP na área de biologia molecular.
Sua trajetória inclui pesquisas em entomologia médica, parasitologia, virologia e biologia celular e molecular.
Há sete anos no IPT, Helena está há quatro anos à frente do NUTABES.
A pesquisadora também participou de grupos de trabalho da Secretaria de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde de São Paulo e integra grupos de pesquisa da Fiocruz e do próprio IPT.
O que é o NUTABES
Criado em 2022 com investimento do Governo do Estado de São Paulo, o Núcleo de Tecnologias Avançadas para Bem-Estar e Saúde Aplicados às Ciências da Vida (NUTABES) é uma estrutura do IPT dedicada ao desenvolvimento de soluções para saúde humana, animal e ambiental.
Instalado em um complexo de 1.650 m², o núcleo pesquisa tecnologias emergentes, como xenotransplantes e dispositivos médicos inovadores.
A estrutura também é voltada à formação de especialistas e ao desenvolvimento de soluções de alto impacto na área da saúde.
