Nesta sexta-feira (25), comemora-se o Dia do Imigrante no Brasil. Segundo dados do Observatório das Migrações, até março de 2020, havia em torno de 1,5 milhão de imigrantes com registro ativo no País, sendo o estado de São Paulo o lar escolhido por um terço dessa população, cerca de 545,6 mil pessoas.
Assim como aconteceu com muitos brasileiros, a pandemia do novo coronavírus impactou a vida de quem, por diferentes motivos, decidiu deixar o seu país de origem para viver longe de casa e um dos reflexos da pandemia foi o aumento de imigrantes indocumentados, ou seja, daqueles que não conseguem regularizar a situação.
Somente na cidade de São Paulo, o Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI) registrou um aumento significativo de pessoas em situação irregular. De setembro de 2019 a março de 2020, por exemplo, o percentual deste tipo de atendimento feito pelo CRAI era de 19%, já no mesmo período de 2021, o percentual passou para 28%.
Refugiados
A maior parte da população estrangeira que entra no Brasil de forma irregular é de refugiados, cujo Dia Mundial foi celebrado em 20 de junho. E é essa população que continuou migrando durante a pandemia, mesmo diante das dificuldades.
“Com o fechamento das fronteiras, por parte do Governo Federal, e a negativa em iniciar processos de regularização migratória daqueles que entraram de forma irregular no país, a população indocumentada tem crescido de forma exponencial. Isso se dá porque o fechamento das fronteiras não impede o ingresso das pessoas no país, mas limita o acesso dessas pessoas ao procedimento de regularização migratória e dificulta o acesso a serviços públicos, que devem ser assegurados independente da situação migratória do indivíduo”, explica, por meio de nota, o CRAI.
Apesar das críticas, o Ministério da Justiça e Segurança Pública alega que mais de 26 mil pessoas refugiadas foram reconhecidas no Brasil em 2020, conforme dados dos relatórios “Refúgio em Números – 6ª Edição” e “Dados Consolidados da Imigração no Brasil 2020”, divulgados na última terça-feira (22) pelo Ministério, em parceria com o Observatório das Migrações Internacionais (Obmigra).
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De onde vêm os imigrantes?
Entre os imigrantes regularizados presentes na cidade de São Paulo, considerando todos os tipos de migrações, a maior parte veio da Bolívia, China, Haiti, Peru e Estados Unidos. Nos últimos anos, contudo, o fluxo migratório da cidade vem sofrendo alterações.
Em 2020, nos registros de atendimento do CRAI, que são um termômetro dos fluxos migratórios recebidos pela cidade, a principal nacionalidade atendida foi a venezuelana, responsável por 25% dos atendimentos, e é do país vizinho, por exemplo, que a jornalista Eliezka Garcia Soto, de 30 anos, migrou há quatro anos, deixando tudo para trás, com o objetivo de tentar uma vida nova no Brasil.
“Eu vim para o Brasil com o meu marido há quatro anos. Minha mãe já estava aqui, em Roraima e fomos para lá. Mas, a situação lá era complicada, havia muita resistência aos venezuelanos. Depois de um tempo, viemos para São Paulo, onde tudo é melhor, pois as pessoas estão acostumadas a acolher novas culturas”, diz.
Na capital paulista, a venezuelana conseguiu um emprego como agente de saúde e teve um filho. Ela diz que o valor que recebe não possibilita guardar, mas dá para levar uma vida digna. “Sou agradecida por não ter perdido o meu emprego durante a pandemia e nem ter ficado doente. Para mim, o que mudou foi que aumentou muito o meu trabalho, pois muitas pessoas que eu atendia ficaram doentes”, diz ela, que trabalha em uma UBS no centro da cidade.

Queda na renda
Se Eliezka não viu sua renda diminuir no último ano, esta não foi a realidade de boa parte dos estrangeiros, sobretudo refugiados, que vivem na cidade. Segundo o diretor executivo do Instituto Adus, que trabalha com projetos de apoio a refugiados e imigrantes vítimas de migrações forçadas, Marcelo Haydu, no último ano, esta população perdeu até 80% de sua renda.
“Em linhas gerais, os refugiados estão passando por uma dinâmica muito parecida com a de muitos brasileiros, com perda de renda e emprego. Boa parte trabalhava com vendas e no setor de serviços e tiveram perda 60% a 80% da renda. Alguns receberam auxílio emergencial, mas aqueles que tinham pequenos negócios, por exemplo, estão passando por uma situação muito difícil”, relata Haydu.
A situação descrita por Haydu é exatamente a que ocorreu com Ghazal Baranbo, de 38 anos, que há oito anos deixou a Síria com o marido e os filhos, por conta da guerra que assola o país.
“Na Síria, eu não trabalhava. O meu marido era engenheiro químico e não havia a necessidade de que eu trabalhasse. Quando chegamos aqui, contudo, a realidade mudou e passei, junto com o meu esposo, a cozinhar para fora. Antes da pandemia, chegávamos a ganhar até R$ 5 mil por mês, mas com a Covid os eventos praticamente pararam e a nossa situação ficou mais difícil”, conta Ghazal, que vende comida árabe.

Ajuda
No geral, a situação dos refugiados quando chegam por aqui é bem complicada. Xenofobia, racismo, idioma, desconhecimento dos serviços existentes e dificuldade em obter documentação são algumas das barreiras. Contudo, há alguns serviços que podem ajudar.
A prefeitura de São Paulo, por exemplo, oferece atendimentos para orientação no CRAI e aulas de português nas escolas municipais pelo programa Portas Abertas.
A cidade possui ainda abrigos municipais e várias organizações que auxiliam essa população. O ACNUR, agência da ONU para refugiados, é uma delas e, por meio de parceiros, a entidade oferece ajuda financeira emergencial, dependendo da análise de necessidades socioeconômicas de cada caso. Já a Caritas, assim como o Instituto Adus, realiza atendimentos, entrega de doações, entre outros serviços.
