São Paulo desperdiça 33 mil toneladas de alimentos por ano

Volume é descartado nas 955 feiras da capital paulista, sem contar os mercado e sacolões municipais

São Paulo desperdiça 33 mil toneladas de alimentos por ano

São Paulo desperdiça 33 mil toneladas de alimentos por ano | Divulgação/Instituto Cidade Amiga

Não se discute que o feirante é resiliente, dedicado e presta grande serviço à sociedade, ao levar alimento fresco e saudável aos quatro cantos de São Paulo. São quase 70 mil feirantes só no município, que acordam cedo, enfrentam sol, chuva e desconforto para cumprir seu ofício. 

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Mas as feiras livres também são sinônimo de desperdício. Cálculos da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável apontam que 33 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas por ano só em São Paulo. 

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E esse volume de comida é descartado apenas nas 955 feiras livres realizadas em toda a cidade, sem contar os 15 mercados municipais, os 16 sacolões municipais e as centenas de supermercados privados. 

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Na avaliação do especialista em resíduos sólidos Victor Argentino, entre 45% e 55% de todo esse ‘lixo orgânico’ que as feiras livres geram, na verdade, é desperdício alimentar.

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E, perdas de comida contribuem para 8% a 10% das mudanças climáticas. Além disso, o mundo joga no lixo um bilhão de refeições diariamente.

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“O que tratamos como resíduos ainda são alimentos. Precisamos estruturar redes de resgate de alimentos, bancos de alimentos, para que todos esses alimentos não virem resíduo e o que a gente não conseguir resgatar para essa finalidade, aí, sim, a gente envia para compostagem”, revelou Victor Argentino à Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Na tentativa de reduzir a insegurança alimentar e diminuir a carga nos aterros sanitários, a Prefeitura criou o Programa de Combate ao Desperdício e à Perda de Alimentos. A iniciativa beneficia 410 entidades assistenciais cadastradas no Programa Municipal Banco de Alimentos (PMBA).

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O 1º Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município de São Paulo, divulgado no final de setembro, trouxe dados inéditos sobre a relação dos paulistanos com a falta de alimentos.

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Segundo o estudo, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas residiam em domicílios onde a fome era constante. Isso representa 12,5% da população da capital paulista, estimada em 11,45 milhões de habitantes, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Além de 1,5 milhão (13,5%) vivia em residências com acesso reduzido a alimentos (insegurança alimentar moderada). Isso significa 13,5% da população paulistana.

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E cerca de 2,8 milhões de pessoas (24,5%) residiam em domicílios nos quais foi constatada a preocupação ou incerteza quanto ao acesso aos alimentos no futuro próximo (condição classificada como insegurança alimentar leve). Ou seja, na soma, 50,5% dos paulistanos vivem em algum grau de insegurança alimentar e nutricional.

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Ativista do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), Vera Helena Villela, reconhece haver “várias políticas na cidade”, mas ressalta que “elas ainda não conversam” entre si, o que prejudica o resultado dos esforços.

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E até a Ceagesp entrou no esforço para conter a fome e a insegurança alimentar em São Paulo. Segundo o diretor operacional da maior central atacadista de alimentos in natura da América do Sul, José Lourenço Pechtoll, diariamente cerca de 60 a 70 toneladas de frutas, verduras e legumes sem valor comercial são doados a entidades assistenciais e bancos de alimentos do município.

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Conselho municipal

O 1º Inquérito sobre a Situação Alimentar no Município de São Paulo foi conduzido pelo Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional da Capital, em parceria com o Observatório de Segurança Alimentar e Nutricional da Cidade de São Paulo (OBSANPA), com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e com a Universidade Federal do ABC (UFABC).

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E a realização do estudo só foi possível graças à emenda parlamentar, solicitada pela bancada feminista do PSOL. As 3,3 mil entrevistas foram feitas entre maio e julho por pesquisadores do Vox Populi, em nove áreas do município.

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Os entrevistados responderam a perguntas elaboradas com base na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, principal baliza para mensurar a fome no País, e a pesquisa usou amostragens baseadas nos resultados do Censo do IBGE de 2022.

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Programa Municipal

A Secretaria Executiva de Segurança Alimentar e Nutricional, vinculada à Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, afirma que mantém o Programa de Combate ao Desperdício e à Perda de Alimentos.

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O Programa “consiste em aumentar o aproveitamento dos alimentos, mitigar o desperdício e contribuir para a redução da insegurança alimentar e nutricional”. E arrecada alimentos sem valor comercial, promovendo “iniciativas de melhoria na cadeia produtiva e no processo de doação”.

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Segundo a Secretaria, até outubro de 2024 foram arrecadados 127.132 quilos de alimentos, dos quais 124.460 quilos foram doados apenas pelo Programa de Combate ao Desperdício e à Perda de Alimentos.

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A cidade de São Paulo tem um Banco de Alimentos que, até 15 de novembro, arrecadou 1.459 toneladas, doou 1.312 toneladas e enviou para compostagem 37 toneladas. Os alimentos são distribuídos para organizações da sociedade civil cadastradas.

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Feiras têm 110 anos

As feiras livres foram formalizadas em São Paulo em 1914, por meio de um ato do então prefeito Washington Luiz. A iniciativa foi o reconhecimento de algo que já ocorria informalmente na cidade.

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A primeira feira livre oficial, realizada a título de experiência, teve 26 feirantes, no Largo General Osório. A segunda ocorreu no Largo do Arouche, com 116 feirantes, e a terceira foi no Largo Morais de Barros.

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A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) calcula que, só em 2023, o desperdício de frutas e hortaliças no varejo nacional provocou um prejuízo de cerca de R$ 4,1 bilhões.