Duas da manhã, você desperta assustado, pensa que com certeza perdeu a hora da aula, e pior: hoje tinha prova! Depois de uns instantes de susto você se dá conta que está de madrugada, que é adulto e que na verdade está formado no ensino médio há anos.
Essa experiência é bastante comum e possivelmente deve se repetir várias vezes ao longo dos anos. Especialistas apontam que sonhar que voltou à escola está entre as 5 categorias de sonhos mais comuns do mundo, afetando a grande maioria dos adultos em algum momento da vida.
E por que isso acontece?
O psicanalista Marcelo Solidade, professor e mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e docente do curso de Psicologia da Faculdade Santa Marcelina, explica que a resposta não reside em uma nostalgia simplista ou em uma falha de memória, mas sim nas marcas profundas e estruturantes que as instituições de ensino deixam no subconsciente.
Se a família constitui a primeira instituição da qual o ser humano participa, estabelecendo as bases primárias dos laços afetivos e da linguagem, a escola opera como o verdadeiro batismo social do indivíduo.
“A escola surge como a primeira grande experiência social para além do ambiente familiar”, explica Solidade. “Ela simboliza o encontro com o olhar do outro: professores, colegas e todas as expectativas depositadas em nós.”
Mais do que meros centros de absorção de conteúdo técnico ou acadêmico, os anos escolares funcionam como verdadeiros laboratórios identitários. Neles que aprendemos a negociar o sucesso, a processar o fracasso e a nos confrontar com regras e figuras de autoridade que não compartilham do nosso sangue.
Na infância a escola se estabelece através da descoberta e do primeiro choque com o coletivo, enquanto na adolescência o cenário transforma-se no palco principal para a busca de pertencimento, reconhecimento pelos pares, experimentação da autonomia e o rascunho dos primeiros projetos de futuro. É um ambiente propício para grandes conquistas, mas também o lugar onde vivenciamos frustrações, exclusões e rivalidades que deixam marcas perenes no nosso inconsciente.
O estresse diário influencia esses sonhos?
Muitas pessoas pensam que essas lembranças de atrasos, salas erradas e exames em branco são um mero subproduto do estresse do cotidiano corporativo. No entanto, o psicanalista alerta que reduzi-los a isso seria um equívoco metodológico. A análise deve ir mais fundo, decifrando o simbolismo inerente ao ato de ser testado.
“A prova nos coloca ‘à prova'”, pontua o especialista. “Para a psicanálise, o sonho é uma das formações do inconsciente; ele revela de maneira indireta desejos, conflitos e conteúdos que não encontram lugar na consciência. Portanto, sonhar que esqueceu uma prova ou que chegou atrasado fala muito mais da posição que o sujeito ocupa diante das exigências da vida (o ‘ser colocado à prova’) do que de uma simples relação com a ansiedade.
Solidade relaciona o sonho a um conceito de Freud: o ato falho é sempre bem-sucedido. O aparente “erro” ou o “esquecimento” encenado no sonho é, na verdade, a linguagem cifrada que o inconsciente encontrou para expressar algo. A cobrança profissional, o medo de não atender às expectativas no trabalho ou a sensação de julgamento na vida adulta encontram no cenário da escola a metáfora perfeita para se manifestar.
O significado do sonho depende do contexto de cada um
Marcelo Solidade relembra o atendimento de um paciente de 42 anos que era assombrado pelo sonho repetitivo de retornar ao colégio onde estudava aos sete anos de idade. À primeira vista, uma interpretação superficial sugeriria o desejo de resgatar a infância. Contudo, as sessões de análise revelaram memórias de um período fragmentado por intensos conflitos familiares, ausência de afeto materno e um profundo sentimento de desamparo.
O analista esclarece: “Nesse caso, a escola não era o elemento central do sonho; ela funcionava simplesmente como o cenário em que as experiências dolorosas daquele momento haviam sido inscritas. Em outra pessoa, o mesmo sonho poderia ter um significado completamente diferente.”
E quando sonhamos com a faculdade?
Embora compartilhem a natureza institucional, existem diferenças quando o sonho migra do ensino básico para a faculdade. Ambos ocupam lugares particulares na história de vida, mas carregam pesos simbólicos diferentes.
Enquanto a escola remete às nossas primeiras experiências de socialização e à busca por aprovação do olhar alheio, a faculdade frequentemente evoca a transição crucial para o universo adulto. Ela marca o momento em que somos convocados a fazer escolhas definitivas e a assumir responsabilidades cujos efeitos moldarão o nosso futuro a longo prazo.
Assim, sonhar com a faculdade tende a estar mais atado a crises de autonomia, impasses de carreira, pressões profissionais ou ao temor latente de fracassar diante das escolhas feitas.
O que significa quando esses sonhos se repetem muito?
Quando esses episódios deixam de acontecer de vez em quando e passam a se repetir muito, é necessário prestar atenção. Para a psicanálise, um sonho repetitivo não é um aviso místico ou uma previsão do futuro, na verdade, ele mostra que nossa mente está insistindo em resolver algum assunto que ficou pendente.
Esse tipo de sonho é sinal de um conflito emocional ou de um desejo que ainda não conseguimos processar direito. Por isso, a pergunta que devemos nos fazer não é “por que eu continuo sonhando com isso?”, mas sim: “O que na minha vida atual está me fazendo reviver essas sensações do passado?”.
A interpretação não está em manuais ou dicionários
Muitas pessoas tentam decifrar sonhos usando dicionários prontos, achando que certas situações trazem “azar” ou “sorte”, mas a psicanálise deixa claro que esses significados prontos não funcionam. Como mostrou Sigmund Freud, o sonho é o caminho para entender o nosso inconsciente, e o sentido dele é único para cada pessoa.
“O sonho não deve ser lido como um código de símbolos prontos, mas sim a partir da história de vida e das experiências de cada paciente”, conclui Marcelo Solidade.





