Universidade proíbe celulares e notebooks em aula após professora ver até 80% dos alunos distraídos com outras coisas

Universidade de Amsterdã barra aparelhos digitais nas aulas para frear distração e devolver a atenção ao conteúdo, com anotações só em papel.

Estudantes universitários fazem anotações à mão em cadernos durante aula sem aparelhos digitais

Ilustração. A regra do curso holandês manda guardar notebooks, celulares e tablets e manter só o papel na carteira para reforçar a concentração

A professora associada olha a sala e descreve o que via antes da regra: de 60% a 80% dos estudantes com notebook, celular ou tablet abertos em qualquer coisa menos a aula. Compras online, mensagens no Instagram, abas paralelas. A mente longe do conteúdo.

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Neste ano letivo, o curso de ciências sociais interdisciplinares da Universidade de Amsterdã, a principal universidade pública da capital holandesa, na Holanda, proibiu laptops, telefones e tablets durante as aulas. O objetivo declarado é simples e duro: promover a concentração. Os alunos podem fazer anotações em papel. Nada de tela na carteira enquanto o professor fala.

A regra que tirou a tela da carteira

A medida vale para o conjunto das aulas do curso, não para um seminário isolado. A formação em ciências sociais interdisciplinares reuniu a proibição como política do programa neste ano acadêmico.

A docente Cyrilein Evertsen, professora associada da formação, resume o diagnóstico que levou à decisão: a maior parte da turma, em percentuais altos, usava o equipamento digital para tarefas alheias ao que acontecia na sala. Não era só consulta rápida. Era ausência mental.

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A diretora do curso, Michaela Hordijk, reforça que a intenção

A diretora do curso, Michaela Hordijk, reforça que a intenção é estimular os estudantes a manterem a atenção integralmente no que está sendo exposto. O papel volta como suporte único de registro em tempo real. A reportagem do NOS trouxe o anúncio e as reações no campus. Não há, na descrição oficial, uma lista de exceções amplas para quem alega preferência por digitação. O eixo é o ambiente coletivo da aula.

Quem precisa do aparelho por motivo específico de acessibilidade ou organização institucional trata o caso à parte, mas o padrão anunciado é claro: aparelhos guardados, caderno aberto. A universidade não apresenta a regra como nostalgia. Apresenta como resposta a um comportamento observado em escala dentro da própria formação.

Por que a distração digital virou problema de curso inteiro

O argumento central não é moralismo sobre redes sociais. É presença. Quando a tela está ligada, o estudante pode estar fisicamente na sala e mentalmente em outra janela.

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A professora associada descreve o intervalo entre ouvir e reagir ao conteúdo como tempo perdido para a aprendizagem daquele momento. Comprar algo, repassar um print, responder mensagem: cada microgesto parte a atenção. O curso decidiu cortar a fonte da interrupção na origem, durante o horário de aula. Há um segundo fio. A anotação manuscrita obriga a selecionar o que vale registrar. Não se copia o slide inteiro com a mesma velocidade da digitação. Há filtro. Há reformulação.

A diretora do curso admite que a literatura científica não

A diretora do curso admite que a literatura científica não é unânime sobre o ganho de memória da escrita à mão. Algumas pesquisas apontam retenção melhor; outras relativizam o efeito.

Mesmo assim, a formação apostou no gesto do papel como forma de manter o estudante ativo diante da fala do professor, e não apenas como receptor passivo com a tela entre ele e a matéria. O obstáculo era óbvio: a geração que chega à universidade já organiza a vida no celular e no notebook. Tirar os aparelhos da aula não apaga o hábito fora dela. A virada proposta pela coordenação é espacial e temporal. Dentro daquele recorte de tempo e daquele espaço, a regra manda o digital para a mochila. Fora dali, cada um retoma seus métodos. O curso não promete milagre de concentração eterna. Promete uma sala menos fragmentada enquanto a aula acontece.

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Alunos divididos e o peso da responsabilidade

As reações entre estudantes não formam coro único. Uma aluna que já experimentou a aula sem laptop nem telefone saiu com avaliação positiva. Disse que funciona para ela. Outro estudante deslocou o eixo para a autonomia. A responsabilidade de se preparar para a prova, argumentou, é de cada um. Dentro dessa preparação, ele defende margem de escolha sobre o método.

A tensão fica exposta: de um lado, a instituição tenta proteger o bem coletivo da atenção na sala; de outro, parte da turma lê a proibição como cerceamento de uma ferramenta que considera pessoal. Essa divisão importa porque o curso não trata a medida como detalhe cosmético. Trata como condição de funcionamento da aula.

Quem defende a liberdade de escolha costuma lembrar que há

Quem defende a liberdade de escolha costuma lembrar que há quem digite mais rápido, organize melhor em arquivos, use leitores de tela ou prefira buscar um termo na hora.

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Quem defende a proibição responde que a liberdade individual de um vira ruído visual e social para o colega ao lado, e que a tentação da aba paralela é estrutural, não moral. O debate interno, portanto, não é só sobre gosto. É sobre o que a universidade considera ambiente mínimo de aprendizagem compartilhada.

Anotação à mão, atenção ativa e o rótulo de distração em massa

O professor emérito de psicologia da educação Paul Kirschner entra no quadro com uma posição firme. Para ele, o valor da anotação manuscrita está menos num fetiche do papel e mais no fato de o estudante precisar processar a informação para escrevê-la. É trabalho cognitivo ativo.

Em suas próprias aulas na Universidade de Utrecht, outra instituição de ensino superior na Holanda, valeu no passado regra semelhante. Ele resume os aparelhos com a expressão que ficou marcada: arma de distração em massa. Via um e-mail na tela e, por instantes, a pessoa deixava de estar com a aula. Em sua prática, quem insistia no uso podia ser convidado a sair. Não havia obrigatoriedade de presença.

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A lógica era coerência: se a escolha é ficar, a escolha é prestar atenção com o mínimo de interferência digital.

O que a regra muda no gesto de estudar

Sem notebook na carteira, some a tentação de transcrever mecanicamente. Sobram escolhas: o que sublinhar, o que resumir, o que deixar de lado. O ritmo da mão é mais lento que o da tecla. Essa lentidão, no raciocínio dos defensores da medida, é exatamente o ponto. Obriga síntese. Obriga voltar ao que foi dito.

Obriga, em muitos casos, reler o próprio caderno depois, porque a letra e o esquema visual são do próprio estudante, não de um arquivo genérico copiado da lousa digital. A crítica possível também precisa ser dita com clareza. Há quem aprenda melhor digitando, quem tenha letra ilegível, quem organize mapas mentais em aplicativos, quem dependa de gravação autorizada ou de material acessível em formato eletrônico.

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Uma proibição ampla de curso inteiro precisa de canais de exceção bem comunicados para não transformar inclusão em obstáculo. O material disponível sobre a decisão holandesa enfatiza o combate à distração e o estímulo ao papel, sem detalhar em público cada protocolo de adequação individual.

O princípio pedagógico, porém, está posto: a aula presencial é tratada como tempo de foco coletivo, não como extensão da mesa de trabalho multipropósito de cada um.

Concentração como recurso escasso

A formulação da professora associada sobre os 60% a 80% de uso paralelo não é um detalhe estatístico solto. É o retrato de uma sala em que a minoria atenta convive com a maioria parcialmente ausente.

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Em termos de dinâmica de grupo, isso altera perguntas, ritmo, silêncios e a própria disposição do docente de aprofundar um ponto. Quando a plateia está mentalmente fragmentada, a aula vira monólogo com ruído de teclas e brilho de tela. Tirar o aparelho não garante genialidade. Reduz uma fonte comprovada de desvio. O restante continua dependendo de didática, sono, interesse e preparação prévia.

O eco da medida em universidades e salas brasileiras

No Brasil, a conversa sobre celular e notebook em sala não é novidade de campus europeu. Professores do ensino médio e do superior já convivem há anos com a tela acesa na segunda fileira, com a mensagem que chega no meio da exposição e com o pedido reiterado de guardar o aparelho. A diferença é de escala e de formalização.

Em muitos cursos brasileiros a regra ainda depende do docente, da disciplina ou do regulamento interno da unidade, e não de uma proibição uniforme anunciada para um programa inteiro como política pedagógica explícita de concentração. A pandemia acelerou a naturalização do notebook como extensão do corpo estudantil. Aulas remotas, slides em PDF, grupos de mensagem, nuvem de arquivos: o digital virou infraestrutura. Quando o presencial voltou com força, o aparelho veio junto como se fosse móvel fixo da carteira. O caso holandês interessa aqui justamente porque inverte a inércia. Em vez de aceitar a tela como dado, o curso trata a tela como variável a ser controlada no horário da aula.

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Isso dialoga com reclamações frequentes de docentes brasileiros sobre atenção

Isso dialoga com reclamações frequentes de docentes brasileiros sobre atenção pulverizada e com reclamações de alunos sobre aulas monótonas que empurram para o celular. Os dois lados se acusam.

Raramente se experimenta, de forma coordenada em um curso inteiro, o que acontece quando o digital some da sala por decisão institucional clara. Há também o debate de equidade. Em campi brasileiros, o notebook nem sempre é universal. O celular, sim, costuma estar no bolso.

Proibir os dois durante a aula pode, em tese, nivelar o registro no papel e reduzir a desigualdade de quem digita em máquina potente enquanto o colega só anota no telefone. Ao mesmo tempo, pode dificultar quem já estruturou todo o método de estudo em aplicativos gratuitos e em fotografias do quadro.

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Qualquer transplantação apressada da regra holandesa para o Brasil exigiria conversa com coordenações, com núcleos de acessibilidade e com a realidade de bibliotecas e de espaços de estudo depois da aula. O ponto útil do episódio não é copiar o texto da portaria. É admitir que a distração digital deixou de ser detalhe de etiqueta e passou a ser variável de desenho curricular.

Escolas e universidades brasileiras que já testam “sala sem celular” no ensino médio ou em disciplinas isoladas do superior relatam, em tom anedótico repetido por professores, aulas mais longas de silêncio útil e mais curtas de interrupção por notificação.

Sem números inventados e sem órgão fictício, o que se pode afirmar com segurança é a recorrência do tema em reuniões pedagógicas, em manuais de convivência e em conflitos cotidianos entre quem ensina e quem aprende.

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O exemplo de Amsterdã oferece um caso concreto de curso universitário que transformou a queixa em norma de programa, com justificativa pública de concentração e com o papel como ferramenta padrão de anotação.

O que permanece depois que a tela some

A proibição holandesa não resolve sozinha a qualidade do curso, a clareza do professor nem a motivação do estudante. Resolve um vetor de ruído. Deixa a sala com menos brilho lateral e mais chance de olho no quadro e no interlocutor. Obriga quem quer registrar a fazê-lo em ritmo humano. Expõe a divergência legítima entre autonomia do método e proteção do ambiente comum.

E recoloca uma pergunta antiga em embalagem nova: para que serve estar presente na aula se a atenção está em outra aba. No fim do arco, o objeto que abre a história continua sendo o mesmo. O caderno de papel sobre a carteira. O celular na mochila. O notebook fechado. A docente que descreveu a ausência mental de boa parte da turma. A diretora que admitiu a ciência dividida e mesmo assim apostou no gesto manuscrito.

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O professor emérito que chamou o aparelho de arma

O professor emérito que chamou o aparelho de arma de distração em massa e já pediu saída a quem não desligava. A aluna que sentiu ganho. O colega que pediu liberdade de escolha. Entre esses polos, a Universidade de Amsterdã escolheu um lado para o horário de aula do curso de ciências sociais interdisciplinares.

O Brasil, com salas cheias de tela e com o mesmo cansaço de atenção fragmentada, pode ao menos olhar o experimento com seriedade: não como moda importada, mas como tentativa explícita de recuperar o bem mais escasso da aprendizagem presencial, que é a presença de fato.