Vice-presidente diz que Amazon é a verdadeira inimiga do comércio no centro e revela plano para criar 30 mil empregos na França

Christian Assaf detalha foncier de 350 hectares, indústria produtiva, retoma do aeroporto e reinvenção do comércio de rua em Montpellier, no Hérault, e desloca o rival do miolo urbano do complexo periférico para o clique.

Centro histórico de Montpellier, no sul da França, com comércio de rua e pedestres

Vista de rua do centro de Montpellier, cidade do departamento de Hérault na Occitânia, ilustrando o comércio presencial que a gestão local quer reinventar diante do e-commerce.

Christian Assaf senta-se diante do mapa de áreas industriais de Montpellier, cidade no sul da França no departamento de Hérault na região da Occitânia, e redefine o diagnóstico que a gestão local fará do comércio de rua: o inimigo do centro não é o Odysseum, complexo de lazer e compras na periferia da mesma cidade, e sim a Amazon e a lógica do clique que esvazia vitrines sem precisar de estacionamento nem de vitrine iluminada.

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O novo vice-presidente encarregado do desenvolvimento econômico, sob a prefeitura de Michaël Delafosse, recebeu a meta explícita de criar 30 mil empregos no mandato e responde com uma lista concreta de instrumentos.

São 350 hectares de foncier econômico, atração de indústria produtiva, retomada de protagonismo no aeroporto metropolitano e reinvenção do centro histórico para conviver com o comércio eletrônico em vez de fingir que ele não existe. A frase que resume a linha ofensiva saiu em entrevista ao midilibre.fr e circula como síntese da mudança de braquete.

Assaf não nega a concorrência do Odysseum, mas desloca o foco para o comércio que entrega em domicílio e reduz a necessidade de deslocamento ao miolo urbano. O raciocínio é de mecanismo, não de simpatia comercial: cada pedido online que substitui uma compra de rua retira fluxo de pedestres, enfraquece o aluguel comercial e empurra o varejo tradicional para o fechamento ou para a especialização extrema.

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O diagnóstico que tira o Odysseum do centro do alvo e coloca a Amazon

Em Montpellier, entre o eixo que liga Nice a Barcelona e o interior do Hérault, o ativo raro não é apenas sol e turismo. É terra disponível para atividade econômica em escala metropolitana, em um país onde o solo urbanizável sofre pressão regulatória, ambiental e de preço.

Assaf trata o centro como paciente de um esvaziamento que não começa na porta do shopping periférico e sim na tela do celular. O Odysseum continua a atrair lazer, cinema, lojas âncora e deslocamento de fim de semana. A Amazon e plataformas rivais, porém, capturam a compra rotineira, a reposição de casa e o ticket que antes justificava a permanência de lojas de rua em ruas pedonais e galerias do núcleo antigo.

O efeito composto é conhecido em cidades médias europeias: menos pedestres no meio da semana, menos conversão em caixa, menos capacidade de pagar aluguel de ponto nobre, mais placas de aluga-se, mais concentração em redes que aguentam margem baixa. O vice-presidente não propõe demolir o Odysseum nem travar a periferia.

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Propõe admitir que o rival estrutural do centro é a logística do clique, e que a resposta pública precisa ser de oferta de emprego, de solo produtivo e de experiência presencial que a caixa de papelão não entrega. Essa virada de ângulo importa porque muda a lista de políticas.

Se o inimigo fosse só o shopping de periferia, a receita seria restringir horários, frear expansões de mall e subsidiar o miolo com marketing de animação de rua.

Se o inimigo é a plataforma digital, a receita inclui reter valor industrial na região, encurtar cadeias, criar motivos cotidianos para estar no centro e aceitar que parte do varejo genérico não volta. Assaf escolhe a segunda leitura e amarra a ela a meta de 30 mil postos.

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Os 350 hectares de foncier e a aposta em indústria que fabrica, não só despacha

Os 350 hectares citados estão distribuídos em Cambacérès, ao longo do Contournement ouest, o contorno viário oeste conhecido localmente como COM, e em La Lauze. O plano é implantar ali empresas que gerem emprego direto e indireto, e não apenas galpões de passagem de mercadoria.

A indústria produtiva entra como peça central do discurso: transformar, processar, montar e fixar massa salarial, em vez de apenas receber contêineres e redistribuir pacotes na última milha. Assaf menciona o exemplo de Cykero e o caso da Brigade de Véro, descrita como o “Comme j’aime” local, marca de refeições que foi comprada por um industrial bretão.

A tarefa do vice-presidente, segundo ele próprio, é ir até a Bretanha, região do noroeste da França, e propor a instalação de uma conserveria em Montpellier.

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O gesto ilustra o método: não esperar que a empresa apareça sozinha no balcão da agência de desenvolvimento, mas perseguir a decisão de investimento com argumento de solo pronto, mão de obra, encadeamento com o tecido já existente e tempo de licenciamento previsível.

A mesma lógica se aplica a outras cadeias que possam ocupar os hectares reservados e fixar valor agregado na Occitânia, em vez de apenas distribuir mercadoria chegada de fora. Foncier econômico, neste vocabulário francês de política urbana, não é terreno genérico de expansão residencial.

É estoque de solo classificado e preparado para atividade, com acesso, saneamento, energia e enquadramento urbanístico que reduz a fricção do investidor industrial. Em mercados apertados, quem controla esse estoque controla parte do roteiro de emprego do mandato. Há um risco explícito no desenho.

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Sem critério de uso, os mesmos 350 hectares podem ser capturados por logística pura, data centers de baixo emprego por hectare ou atividades que pagam bem o metro quadrado e mal a folha de pagamento. Assaf nomeia o risco ao contrastar indústria produtiva com a tentação do galpão.

A meta de 30 mil empregos só fecha se a densidade de postos por hectare e o efeito indireto sobre serviços locais forem altos o bastante. Terra sem projeto é só mapa colorido. Projeto sem terra emperra em preço e em litígio. O discurso junta os dois.

Aeroporto, rotas e o método de ir atrás da decisão de investir

O aeroporto de Montpellier aparece na lista de desafios como ativo a reassumir. A gestão metropolitana quer maior capacidade de influência sobre rotas, horários e conexão com o tecido produtivo, de modo que o terminal deixe de ser apenas porta de turistas sazonais e passe a funcionar como infraestrutura de negócios e de carga leve ligada às novas áreas industriais.

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Sem essa articulação, o foncier de Cambacérès e do COM corre o risco de atrair exatamente o perfil que o vice-presidente diz querer evitar: depósitos de última milha desconectados de fabricação e de exportação de maior valor. Retomar protagonismo sobre o aeroporto, no arranjo institucional francês, não significa necessariamente privatizar ou estatizar de um dia para o outro.

Significa sentar na mesa de slots, de companhias, de carga e de ligação com TGV e rodovias com uma pauta de desenvolvimento econômico, e não só de turismo de sol. Empresas que avaliam uma conserveria, uma linha de montagem ou um centro técnico perguntam por voos úteis, por tempo de porta a porta e por previsibilidade.

O método descrito por Assaf, de ir à Bretanha negociar a conserveria, só se completa se a cidade puder responder a essas perguntas com números e não com cartão-postal. O encadeamento desejado é simples de enunciar e difícil de executar. Solo industrial preparado reduz o tempo entre a decisão e a primeira folha de pagamento. Indústria produtiva eleva a demanda por serviços de manutenção, embalagem, inspeção e formação. O aeroporto e a logística de qualidade encurtam a distância até clientes e fornecedores.

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O centro da cidade, se reinventado, captura parte da renda gerada sob forma de consumo presencial de quem trabalha na metrópole. Quebrar qualquer elo devolve a cidade ao cenário que Assaf critica: vitrine frágil no miolo e clique forte na periferia digital.

Reinvenção do centro histórico diante do clique que não precisa de rua

O centro de Montpellier precisa ser reinventado para conviver com o e-commerce. Isso implica mix de serviços presenciais, experiência, moradia e comércio de proximidade que a plataforma digital não substitui com a mesma facilidade. Corte de cabelo, saúde, cultura, gastronomia de presença, educação e espaços de trabalho compartilhado dependem de deslocamento humano. Produtos genéricos empacotáveis, não.

A política de centro, nesse quadro, deixa de ser nostalgia de rua cheia de 1995 e passa a ser curadoria do que só existe se a pessoa estiver ali. Assaf amarra essa reinvenção ao emprego metropolitano. Centro sem renda local vira cenário para turista e para estudante em trânsito, com comércio de souvenir e de margem volátil.

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Centro com base de salários industriais e de serviços qualificados sustenta aluguel comercial diversificado e horários além do fim de semana. Por isso a frase sobre a Amazon não é apenas provocação de entrevista. É o fio que liga foncier, aeroporto e pedestre.

Se o clique vence a compra rotineira, o poder público compete no que o clique não entrega: emprego estável, chão de fábrica moderno, tempo de deslocamento curto e um miolo urbano que vale a pena frequentar. Números redondos de mandato, como 30 mil empregos, servem de farol e de risco político. Farol porque organizam secretarias, operadores de solo e interlocução com empresas.

Risco porque o eleitor cobra saldo ao final do ciclo e porque parte da criação de postos depende de ciclo nacional, de taxa de juro, de energia e de demanda externa.

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O que a gestão local controla de fato é a velocidade do solo, a clareza do zoneamento, a qualidade da infraestrutura e a insistência em perseguir investimentos nomeados, como a conserveria discutida com o industrial bretão. O Contournement ouest e os setores de Cambacérès e La Lauze funcionam, neste desenho, como tabuleiro. Cada hectare destinado a produção com emprego denso empurra a meta para frente.

Cada hectare capturado por uso de baixa densidade de postos a empurra para trás, mesmo que a arrecadação de curto prazo pareça cômoda. A tensão entre caixa imediato e emprego de mandato está no centro silencioso da política de foncier. Assaf a torna falada ao rejeitar a leitura preguiçosa de que o shopping periférico seria o vilão principal do centro.

Montpellier chega a essa conversa com ativos conhecidos: universidade, saúde, sol, atratividade residencial e posição no sul europeu. O que o novo vice-presidente de desenvolvimento econômico adiciona é uma hierarquia de ameaças e uma lista de ferramentas. Ameaça principal ao comércio de rua: o e-commerce de entrega domiciliar.

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Ferramentas: 350 hectares, indústria que fabrica, aeroporto com pauta econômica e centro reinventado para o que exige presença. A consequência anunciada é a meta de 30 mil empregos.

O teste virá na ocupação real dos hectares, no tipo de empresa que assinar e na capacidade do miolo urbano de reter pedestre depois que o pacote já chegou na porta de casa. Até lá, o mapa na mesa de Assaf permanece o objeto central da narrativa administrativa. Não é mapa de campanha eleitoral genérica.

É inventário de solo, de eixos e de vazios que podem virar planta industrial ou virar só mais um corredor de caminhões. A diferença entre um desfecho e outro está na disciplina de uso, na perseguição ativa de investidores e na honestidade do diagnóstico sobre quem realmente esvazia a rua.

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Ao apontar a Amazon e não o Odysseum como inimigo do centro, o vice-presidente escolheu o conflito mais difícil e, ao mesmo tempo, o único compatível com uma política de emprego que não se resume a animação comercial de vitrine.