A vulnerabilidade econômica de cerca de 70% dos municípios brasileiros diante de eventuais reduções em benefícios sociais foi identificada em estudo inédito do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made/FEA-USP).
A pesquisa aponta que quase 4 mil das 5.569 cidades do país dependem diretamente do fluxo dos repasses federais de renda para manter a arrecadação tributária do município e a sustentabilidade das operações comerciais do interior.
Transferências federais como aposentadorias, Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Bolsa Família cobrem quase metade do orçamento das famílias de baixa renda (com ganho de até 1,5 salário mínimo por pessoa). Sem a valorização contínua desses repasses, a renda agregada dessas localidades sofrerá uma perda considerável entre 6,8% e 10,8%.
Efeito dominó ameaça vendas do comércio e arrecadação das prefeituras
A redução no poder de compra dos moradores provoca um efeito cascata imediato. O comércio de bairro vende menos, os lojistas fecham postos de trabalho e as prefeituras perdem capacidade de arrecadação de impostos. Essa retração asfixia inclusive quem não recebe nenhuma ajuda governamental.
A economista, professora da Unicamp e pesquisadora do Made, Luiza Nassif, detalha o dinamismo desses recursos à Agência Brasil:
Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa
No interior do Ceará, por exemplo, os repasses previdenciários e assistenciais representam 40% de toda a renda agregada local, quase o dobro dos 22% registrados na Capital e na Região Metropolitana de Fortaleza.

Risco de disparada da pobreza extrema em municípios do interior
O congelamento ou cortes em benefícios sociais entre 2022 e 2025 poderiam empurrar 2,7 milhões de pessoas para a pobreza, sendo 2,4 milhões diretamente para a extrema pobreza fora das metrópoles.
Em números absolutos, o avanço da pobreza concentra-se fortemente nos três estados mais populosos do país:
- Bahia: até 336 mil pessoas arremessadas para a pobreza.
- São Paulo: até 263 mil afetados especificamente no interior paulista.
- Minas Gerais: até 251 mil novos pobres em municípios do interior.
Impedir novos cortes em benefícios sociais preserva as condições mínimas de subsistência das populações vulneráveis e assegura a sustentabilidade orçamentária em milhares de municípios do interior em todo o Brasil.
Mapeamento do impacto e perdas potenciais por estado
As quedas mais expressivas na renda agregada concentram-se em municípios do interior das regiões Norte e Nordeste, mas o impacto atinge todo o território nacional. Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí registram o encolhimento mais severo, estimados entre 17% e 18% da renda local.
Amazonas, Sergipe e Pernambuco devem enfrentar recuo de aproximadamente 15%. No Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, as perdas projetadas nos municípios variam de 10% a 13%.
No Sudeste, no Centro-Oeste e no Sul, o impacto estimado no interior é de 6,5% em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.







