“A arte pode mudar vidas”: atores de Cidade de Deus: A Luta Não Para contam como o Nós do Morro abriu caminhos para artistas negros no audiovisual

Em entrevista exclusiva à Gazeta de S. Paulo, Roberta Rodrigues, Sabrina Rosa e Alexandre Rodrigues refletem sobre como o Nós do Morro abriu caminhos no audiovisual e por que a arte nas periferias precisa de apoio contínuo

Roberta Rodrigues, Sabrina Rosa e Alexandre Rodrigue conversaram com a Gazeta de S. Paulo sobre a influência do Nós do Morro em suas trajetórias e a importância de ampliar oportunidades para artistas negros e periféricos (Foto: Jean Lindemute/Gazeta de S. Paulo/HBO Max)

Roberta Rodrigues, Sabrina Rosa e Alexandre Rodrigue conversaram com a Gazeta de S. Paulo sobre a influência do Nós do Morro em suas trajetórias e a importância de ampliar oportunidades para artistas negros e periféricos (Foto: Jean Lindemute/Gazeta de S. Paulo/HBO Max)

Quatro décadas depois de iniciar a formação de artistas no Vidigal, o Nós do Morro permanece ligado a uma questão central para Alexandre Rodrigues, Sabrina Rosa e Roberta Rodrigues: como transformar o acesso à arte em oportunidades concretas para jovens negros e periféricos? Integrantes de trajetórias que passam pelo grupo e por Cidade de Deus, os atores apontam a formação cultural como uma porta de entrada para o teatro e o audiovisual, mas ressaltam que talento, sozinho, não elimina as barreiras de acesso e financiamento.

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Em entrevista exclusiva para a Gazeta de S. Paulo, eles relacionaram as próprias experiências à história do coletivo e à repercussão de Cidade de Deus. As falas também ampliam a discussão sobre representação: além de ocupar novos espaços nas telas, artistas das comunidades ajudam a apresentar realidades que permanecem distantes de parte do público. Para os entrevistados, essa presença precisa vir acompanhada de políticas culturais capazes de sustentar projetos de formação e abrir caminhos para novas gerações.

Criado no Vidigal, no Rio de Janeiro, o Nós do Morro desenvolve atividades de teatro, cinema e cultura. O grupo busca ampliar o acesso à formação artística na comunidade, como explica sua apresentação institucional.

Arte como formação

Alexandre Rodrigues associa os cursos que frequentou no Rio de Janeiro às oportunidades que encontrou ao longo da carreira. Para ele, a formação artística pode ajudar jovens a reconhecerem suas capacidades e a compreenderem que também pertencem aos espaços culturais e à sociedade.

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A arte pode mudar vidas, como mudou a minha e a de todos os outros atores que estão aqui.

O ator defende que cursos de arte cheguem a comunidades com pouco acesso a esse tipo de atividade. Na visão dele, o contato com a cultura contribui para que os participantes se reconheçam como cidadãos e percebam que podem construir outros caminhos.

Sabrina Rosa conhece essa experiência desde os 9 anos, quando entrou no Nós do Morro. Ao falar sobre o grupo, ela destacou a influência da iniciativa em sua trajetória e na de artistas que se formaram no Vidigal.

“Eu sei o que a arte faz comigo e com os meus amigos”, disse. Sabrina reconhece que os incentivos culturais ampliaram as oportunidades para artistas negros e periféricos, mas avalia que o acesso a recursos ainda é desigual.

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“Os grandes investimentos ainda têm muita dificuldade de chegar até nós. A gente sempre fica com as pequenas parcelas do incentivo à nossa arte periférica e negra”, afirmou. Para a atriz, o financiamento precisa alcançar produções maiores e garantir condições para que projetos independentes mantenham suas atividades.

Apoio para continuar

O Nós do Morro completa 40 anos em 2026. Fundado em 1986, o grupo surgiu para oferecer formação em artes cênicas a jovens moradores do Vidigal, segundo registro da Prefeitura do Rio.

Sabrina defende que o poder público reconheça a contribuição de iniciativas como essa e apoie sua continuidade.

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É preciso olhar para esses artistas e para os grupos periféricos que fazem arte e dão oportunidades.

A atriz também ressaltou que o trabalho desenvolvido por coletivos culturais pode abrir portas para jovens que, sem acesso a cursos e espaços de criação, dificilmente encontrariam caminhos para ingressar no teatro e no audiovisual.

A discussão sobre financiamento, portanto, não resume à realização de uma produção específica. Ela envolve a manutenção de espaços de formação, o pagamento de profissionais e a possibilidade de criar novas obras. Para Sabrina, o investimento precisa considerar o papel que esses grupos desempenham na vida cultural das comunidades.

Representando a favela

Roberta Rodrigues vê Cidade de Deus como uma obra que ajudou a ampliar o debate sobre a representação das favelas. Ela lembra que, após a estreia do filme, em 2002, parte das reações se concentrou na violência retratada. A atriz, porém, ressalta que a história se relaciona a experiências vividas por moradores.

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Essa história é baseada numa história real. Isso não foi alguém que criou

Roberta também aponta a atenção para o risco de reduzir as comunidades à criminalidade. Segundo ela, a maior parte dos moradores trabalha, cuida da família e enfrenta diariamente os desafios para garantir o sustento.

Na segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para, sua personagem, Berenice, torna-se vereadora. Para Roberta, a trama apresenta a política como um caminho para buscar mudanças concretas, embora a personagem encontre resistência ao ocupar esse espaço. A sinopse oficial também destaca a atuação de Berenice como vereadora recém-eleita diante da corrupção e da disputa política na comunidade.

Só através da política ela consegue ter mudanças efetivas para favorecer a comunidade dela e todas as outras comunidades

A trajetória de Berenice leva para a ficção uma discussão sobre quem participa das decisões e quais grupos conseguem fazer suas demandas chegarem ao poder público.

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Para os atores Alexandre Rodrigues, Sabrina Rosa e Roberta Rodrigues, a arte é formação, trabalho e representação. O Nós do Morro abriu caminhos para suas trajetórias, mas a continuidade de iniciativas culturais não pode depender apenas da dedicação de quem as mantém. Com formação, espaço e investimento, as novas gerações também poderão contar suas histórias e ocupar o audiovisual.

A segunda temporada de Cidade de Deus: A Luta Não Para já chegou à HBO Max. Tem episódio novo todo domingo, e a HBO exibe a série no mesmo dia, às 22h.