EXCLUSIVO: ‘Conquistar a língua portuguesa é uma questão de treino’, defende Pedro Bandeira

Em entrevista, escritor destaca a importância da leitura contínua para o desenvolvimento do pensamento e da aprendizagem

Pedro Bandeira é autor de mais de 130 livros

Pedro Bandeira é autor de mais de 130 livros | Marcus Leoni/Divulgação

Autor de clássicos como “O Fantástico Mistério de Feiurinha”, “A Marca de uma Lágrima” e a série “Os Karas”, Pedro Bandeira é quase um sinônimo para literatura infantojuvenil brasileira. Nascido em 1942, construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a formação de novos leitores e pela defesa da leitura como ferramenta essencial para o desenvolvimento do pensamento.

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Jornalista, Bandeira se apaixonou pelas palavras muito antes de entrar em um jornal pela primeira vez, mas foi por lá que ele aprendeu a ter disciplina. Depois de figurar nas páginas dos jornais, como repórter, claro, o jovem santista trocou a redação, por vezes monótona, pelo universo imaginário da infância e se lançou nas páginas da literatura infantojuvenil.

E de lá nunca mais saiu. Ao longo de sua carreira, o autor Pedro Bandeira, que se descreve também como um educador, escreveu mais de 130 livros e, com eles, recebeu diversos prêmios, como o “Jabuti” e o “APCA”.

No último domingo (25/1), durante um evento na Livraria Martins Fontes, Pedro Bandeira concedeu à Gazeta uma entrevista exclusiva. Na conversa, refletiu sobre o papel da família e da escola na construção de jovens leitores, além de contar um pouco sobre sua trajetória. 

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Leia a seguir a íntegra da entrevista, em formato “pingue-pongue”.

Gazeta: Qual é a responsabilidade do escritor de literatura infantojuvenil no primeiro contato da criança com os livros?

Pedro Bandeira: O Brasil tem um problema. Não temos a tradição das famílias apresentarem aos seus filhos a ficção, a história, botar no colo, cantar para dormir. Não tem. Bota a criança na cama e dorme. Em alguns outros países, não. Há países em que, realmente, é tradicional o papai e a mamãe pegar um livrinho, mostrar para a criança as figurinhas e tal, desde que ela é pequenininha.

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Então, quando ele entra na escola, ele entra com um pouco mais de vocabulário. Mas, quando não há isso, não só em famílias pobres, mas também em famílias abastadas, ele vai ter mais dificuldade. A leitura, para ele, vai ser uma coisa nova, totalmente nova. E o resultado: o Brasil é um País que tem metade dos seus adultos como analfabetos funcionais, incapazes de ler, incapazes de escrever um bilhete.

Isso faz com que a gente seja um País com grandes problemas. Outros países, por exemplo, a Coreia, que é um país muito menor que o nosso, fez uma revolução educacional tal que eles fazem carro, fazem tudo e vendem tudo para nós e tudo mais. Mas, lá, a maioria da população tem, pelo menos, o Ensino Médio completo. Nós não temos nem o Fundamental 1 completo.

Sendo assim, a dificuldade de se expressar acontece se você não tem um universo vocabular. Porque para você pensar, você está pensando em que língua? Em português. Então você precisa de vocábulos para pensar. Se você tem poucos vocábulos, você pensa pior. Você guarda menos coisa na memória, porque você precisa de uma palavra para guardar a sua memória.

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Então, se você não dá isso para a nossa população, o que ele vai ser? O que também acontece: as nossas escolas perseguem o aluno com dificuldade. Dizem que ele é preguiçoso, vagabundo, não sei o quê. Aí ele é expulso. E ele vai fazer o quê? Ele vai para a rua ficar com os outros expulsos. E aí, ao invés de criar escola, tem que criar cadeia.

Esse é um problema que nós precisamos enfrentar. O Brasil só resolve o seu problema tendo uma grande população preparada para resolver os seus próprios problemas. E nós, que escrevemos só para crianças e adolescentes, nós temos uma função: dar bom material, material mais fácil, material interessante, para ajudar os professores na sua tarefa.

Por quê? Conquistar a língua portuguesa é uma questão de treino, tanto quanto aprender a tocar piano. Você não aprende teoricamente a tocar piano. Não dá. E leitura é a mesma coisa. Você lê, lê, lê muito. Você tem que ler muito. Para você ter um grande vocabulário, você tem que ler o tempo todo.

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Gazeta: Diante das transformações digitais, o que permanece essencial para despertar o gosto pela leitura em crianças e adolescentes?

Pedro Bandeira: Quando você é criança, logo depois que você sai da primeira infância, é nesse momento que você tem que ser maravilhada por histórias.

Aí o adulto diz assim: “Ah, meu filho só fica no celular. Não lê”. Tá bom. Se ele está no celular e você fala: “Meu filho, vem cá, vamos brincar”, pode ser que ele venha. “Vem cá que eu vou te contar uma história”. Então a culpa não é do celular, é do pai ou da mãe.

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Então, na verdade, a gente está botando a culpa fora de nós. Antigamente, antes das redes sociais, nós tínhamos a TV. E era assim: “esse menino só ficava na televisão”. Claro que não. Você deixou ele abandonado. Você não se doa para ele.

Esse é o problema. Não é fácil ser pai, não. Não é fácil ser mãe. Quer dizer, é fácil, é gostoso, mas você tem que assumir.

Gazeta: Para crianças e adolescentes que ainda não criaram o hábito da leitura, qual é o papel da escola, da família e da escolha dos livros?

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Pedro Bandeira: Bom, em primeiro lugar, hoje em dia só sobra escola para fazer esse papel, porque as famílias vão demorar muito para se despertar. E a escola tem a obrigação de assumir, porque se não assumir, quem vai assumir? Ninguém.

E eu proponho que a gente transforme a escola em um hospital. Um hospital não trabalha todas as pessoas do mesmo modo. Ele tem um ambulatório para tratar as coisas mais simples, tem uma grande enfermaria, onde ficam pessoas à espera de uma cirurgia ou de recuperação, mas aqueles que estão muito doentes têm um centro intensivo, onde essa pessoa vai ter médicos mais especializados, enfermeiros mais especializados, mais aparelhos.

Na escola também. Se você tem 30 alunos, cinco deles são maravilhosos, uns 20 são mais ou menos, mas tem cinco com grande dificuldade. Então você tem que se dedicar a esses. Não dizer que eles são preguiçosos, não estudam. Eles não estão conseguindo, porque eles não leem bem.

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Então nós teríamos que ter, em todas as escolas, um grupo para apoiar fortemente essas crianças. Agora, não podemos deixar nenhum sair. O médico faz tudo para salvar as vidas, às vezes não salva, tudo bem, não é Deus, mas acaba perdendo pouco. A escola não poder perder nenhum aluno.

Há uma doença, por exemplo, que é a dislexia. A dislexia não tem nada a ver com inteligência, mas as pessoas não conseguem ler. Então, se eu tivesse uma criança com essa dificuldade, eu botava audiolivro, porque com o audiolivro você absorve palavras tanto quanto lendo. 

Gazeta: Como nasceu a sua paixão pela literatura?

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Pedro Bandeira: Eu fui um moleque muito sozinho. Eu tinha dois irmãos, mas muito mais velhos que eu. Morava em Santos e não tinha com quem brincar. Ficava sozinho. E o que eu fazia? Eu lia. Então, eu lia gibi. No meu tempo, o gibi era muito mais popular que hoje. Tinha gibi de tudo. E aí eu lia gibi. E do gibi você acabava indo para o livro.

Por exemplo, você estava lendo o gibi do Tarzan. Aí alguém falava assim: “Ah, mas tem livro desse Tarzan”. “Ah, tem?”. Aí você já ia para o livro. Entendeu? E meio sem querer você continuava lendo.

Então, eu fui um cara que li demais. Só que era por ser divertido, não para estudar. Eu não estudava. Eu era um péssimo aluno. Mas, resultado: eu, já na adolescência, pude entrar no jornalismo. Porque eu escrevia melhor do que os meninos que iam lá pedir emprego. Então, de cara, entrei no jornalismo. Sem saber o que era jornalismo, mas eu sabia escrever.

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O problema era o seguinte: o moleque lá não sabe escrever, não adianta ensinar jornalismo para ele. Então, fui aprender. Coisa dura. No começo, naquele tempo, você não precisava de faculdade. Você só entrava, entravam 200 moleques e sobrava um. Os outros todos iam embora, porque não era fácil. Mas foi muito gostoso.

E o jornalismo é uma escola boa, porque você aprende três coisas básicas. Primeiro, disciplina. Você não pode chegar e dizer: “Eu não estou inspirado hoje”, porque você perde o emprego. Segundo, escrever sobre qualquer assunto. E terceiro, respeitar prazo. Prazo em jornalismo é sagrado. Às vezes a matéria está ruim, mas chegou, põe lá. Então, são três coisas que te dão uma disciplina muito boa. 

E, na verdade, eu escrevo porque é gostoso. Eu tenho um primo que morreu já, com 92 anos, ele era médico. Aí ele se aposentou e passava o tempo todo fazendo palavra cruzada. Eu também. Só que eu faço palavras alinhadas, uma depois da outra. É uma diversão. Eu morro de rir.

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Escrever é divertido. Claro que tem que escrever bem, caprichar. Mas eu gosto de caprichar. Releio vinte vezes um texto antes de chegar para a editora. Às vezes não entrego. Já cheguei a entregar e depois tirar. Você tem que procurar não o melhor do mundo, mas o melhor seu. O melhor que eu posso fazer.

Você não pode entregar um rascunho. Você tem que entregar o que você é. Pode não ser genial, mas é você. O rascunho não é você. Você não é um rascunho. Você primeiro escreve, depois vai ler, vai arrumar e vai entregar.