Aos 48 anos e com mais de três décadas de carreira, Mouhamed Harfouch vive uma fase de reencontro com a própria história.
No teatro, o ator escreve, produz e protagoniza “Meu Remédio”, em cartaz na capital paulista até este domingo (30/8), espetáculo em que revisita as próprias origens, a relação com seu nome e as questões de identidade e pertencimento que o acompanharam desde a infância.
A montagem, que já soma 100 apresentações e foi reconhecida com prêmios como o FITA de Melhor Dramaturgia e o Prêmio Arcanjo de Teatro Solo, também representa uma nova etapa na trajetória do artista, que passou a assumir mais controle sobre os próprios projetos.
Entre memórias, humor e música, Harfouch transforma experiências pessoais em uma narrativa que encontra eco no público.
Em entrevista à Gazeta, ele fala sobre o processo de transformar a própria vida em teatro, a influência de personagens como Hussein, Farid e Ali, alguns de seus papéis em novelas da TV Globo, em seu processo de autoconhecimento, o medo dos rótulos e a liberdade que encontrou com a maturidade.
“Meu Remédio” nasce de uma investigação sobre sua própria história, suas origens e até sobre o seu nome. Depois de quase 100 apresentações, o que você descobriu sobre si mesmo que não sabia quando começou a escrever o espetáculo?
“Descobri que embora Meu Remédio seja um trabalho muito pessoal, ele acaba ecoando de forma muito universal. Descobri que muitas pessoas tem questões com seus nomes, se reconhecem nas mesmas questões que enfrentei no meu processo de amadurecimento e pertencimento e acredito que por isso o espetáculo acaba despertando tanto riso e emoção.”
Você cresceu atravessado por diferentes heranças familiares e culturais, com a ascendência síria pelo lado paterno e portuguesa pelo materno. Em algum momento da vida você sentiu que precisava escolher ou explicar quem era? E como essa questão de pertencimento foi mudando com o tempo?
“A todo momento. Cheguei a querer trocar de nome porque era difícil ter um nome tão emblemático de outra cultura, outra origem. Era sempre apontado como diferente e tudo que uma criança ou adolescente deseja é ser igual, ser aceito e não ser visto como alguém de fora, ele quer estar dentro. Leva um tempo para você realizar que na ânsia de ser aceito, você acaba se escondendo da sua própria história, o que é uma grande cilada. O espetáculo conversa de forma muita leve e profunda sobre isso. O quanto de preconceito acabamos importando porque tudo o que queremos é ser igual? O amadurecimento nos faz enxergar que é justamente na diferença que nos complementamos. Que é na nossa singularidade que reside o barato, somos únicos, todos nós.”
Você já disse que “a nossa história sempre acaba nos achando”. Quando olha para sua trajetória, existe alguma parte da sua história que você passou anos tentando evitar, mas que hoje entende como fundamental para o artista e para o homem que se tornou?
“Nasci no Brasil, numa cultura, religião e costumes diferentes dos do meu pai. Isto me criou uma falsa impressão de que meu pai era árabe e eu não. Tudo isso era potencializado pelo medo de que em algum momento nos mudássemos para a Síria, pois vez por outra meu pai falava que iríamos nos mudar. Para uma criança isso gerava muitas dúvidas e medo, pois a família, os amigos e os laços de pertencimento estavam de certa forma aqui. Com o amadurecimento fui descortinando minha própria história e isso é libertador e curativo. O teatro foi muito importante nesse processo de autoconhecimento. Saber de onde viemos, quem somos e para onde vamos! Meu Remédio celebra justamente isso.”
O humor aparece como uma ferramenta importante em “Meu Remédio” e também em muitos personagens que você interpretou. Você costuma dizer que o humor é sua “tábua de salvação”. De onde vem essa necessidade de transformar situações difíceis em alguma possibilidade de riso?
“O humor sempre foi meu filtro para o mundo. Aprendi desde cedo a usar o humor para lidar com os muitos embaraços que ter um nome incomum no Brasil me geravam, mas não só para isso….A comédia sempre foi um lugar de acolhimento para mim. Um território curativo. Fazer o outro rir me dava prazer e poder rir de si é maravilhoso. Não sei dizer quanto isso foi um processo calculado ou racional, acho que foi mais um processo natural de defesa que acabei descobrindo. Um lugar que me conecta sempre ao lúdico, à minha criança, aquilo que tenho de mais puro. O olhar que sempre tento manter vivo na minha profissão.”
Ao transformar memórias tão íntimas em teatro, você precisou decidir o que compartilhar e o que preservar. Houve algum momento durante a escrita em que você pensou: “isso é pessoal demais para colocar no palco”?
“A todo momento lidei com estas questões. Tinha muitas dúvidas. A única certeza que sempre tive era o título. Tudo partiu deste ponto. Por vezes achava bobo, era me adulto tentado raionalizar e tolir a minha criança. Era o medo tentando boicotar um processo que tive que resgatar minha criança o tempo todo. Acho que muito da poesia e beleza do espetáculo eu devo à esta criança. Escrevi 80 % da peça na certeza de que seria um exercício e de que não levaria aos palcos, mas quando cheguei ao longo final, me dei conta de que tinha um espetáculo e que faria de tudo para vê-lo nascer!”
A peça também marcou sua experiência como autor e produtor, além de ator. O que você descobriu sobre a própria personalidade ao assumir tantas responsabilidades em um mesmo projeto? Essa autonomia trouxe mais liberdade ou também uma cobrança maior?
“É extremamente desafiador escrever, atuar e produzir. Já é descomunal o exercício de está sozinho em cena, imagina com se primeiro texto, e ainda produzindo? Uma loucura deliciosa! Resgatei meu produtor e percebi o quanto amo achar as soluções para realizar! É quase uma gincana, um problema atrás do outro, mas é prazeroso demais levar uma ideia ao palco. Realizar te fortalece, abre horizonte e te empodera. Outro ponto que desobri é que amo escrever, não é nada fácil, estou querendo começar outra história. O título já apontou na minha cabeça, agora é vencer a folha em branco…. Vamos ver (risos).”
Ao longo da carreira, personagens como Ali, de “Órfãos da Terra”, Farid, de “Cordel Encantado”, e Pérsio, de “Viver a Vida”, tocaram, de maneiras diferentes, em questões de origem e identidade. Hoje, olhando para esses trabalhos, você sente que a ficção já estava preparando você para contar a própria história?
“Meus personagens me ajudaram muito nesse resgate e memória da minha própria história. O Hussein, de “Pé na Jaca”, foi o primeiro deles. Tinha que fazer um sotaque árabe e eu achava que precisava estudar, criar, quando a câmera, ligou saiu feito água. Estava dentro de mim e nem sabia. Cresci sem perceber o sotaque do meu pai, porque era algo comum e natural para mim. Minha origem, minha história jorrando pelos póros e me ajudando a criar meus personagens. Assim veio Farid, de “Cordel”, veio Pérsio, de “Amor à Vida” e veio o Ali, de “Órfãos da Terra”. Foi lindo.”
Você já falou que durante muito tempo teve medo dos rótulos e que hoje, justamente quando se preocupa menos com isso, surgem personagens muito diferentes entre si. O que mudou dentro de você para que pudesse viver a carreira com essa liberdade?
“Percebi que não preciso ter medo do rótulo porque sei que não sou somente isso. A TV me trouxe mais a questão do rótulo, porque já fazia teatro há uns quinze anos e nunca minha origem definiu os meus personagens e oportunidades, como agora no audiovisual também não. Ter um rótulo não deixa de ser um porta de entrada, uma forma de ser visto inicialmente. Estar numa prateleira é uma maneira de entrar, mas ficar nela pode ser uma questão de escolha. Já disse não para personagens que eram apenas um estereótipo, um arquétipo, uma caricatura, mas nunca digo não quando sinto que é uma boa história para ser contada.”
Tem algum sonho profissional que você ainda não tenha realizado?
“Muitos, mas não gosto de contar antes de realizar (risos).”
