Museu em homenagem a Bob Dylan abre nesta terça-feira

O BDC é agora a casa dos arquivos pessoais do músico, vendidos há seis anos por cerca de US$ 20 milhões

Bob Dylan Center (BDC), que abre nesta terça-feira ao público após investimentos de US$ 10 milhões na construção do espaço

Bob Dylan Center (BDC), que abre nesta terça-feira ao público após investimentos de US$ 10 milhões na construção do espaço | DIVULGAÇÃO

Bob Dylan não deu as caras nos três dias de festa em sua homenagem, como esperado, mas como bem lembrou sua amiga Patti Smith, usando alguns palavrões, o enigmático trovador de 80 anos está “por todos os lados”.

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Especialmente em Tulsa, no estado interiorano de Oklahoma, o bardo americano surge no aeroporto, nos pontos de ônibus e nos postes de luz das calçadas, decorando propagandas que indicam a direção de Meca para seus fãs – um prédio de dois andares de tijolos aparentes, numa antiga fábrica de papel, num bairro revitalizado da cidade.

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É o Bob Dylan Center (BDC), que abre nesta terça-feira (9) ao público após investimentos de US$ 10 milhões na construção do espaço. O BDC é agora a casa dos arquivos pessoais do músico, vendidos há seis anos por cerca de US$ 20 milhões. Três noites de shows com Patti Smith, Mavis Staple e Elvis Costello marcaram as comemorações de abertura para convidados no final de semana.

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O centro montou uma exposição com parte dos 100 mil itens da coleção, enquanto a maioria dos documentos e gravações ficará disponível a pesquisadores profissionais. O acesso a tamanho tesouro dylanesco vem causando ondas de revisionismo na obra do músico, primeiro a receber um Nobel de literatura.

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“Espero desesperadamente por essa onda”, disse Clinton Heylin, um dos mais respeitados biógrafos de Dylan e primeiro a ter acesso aos arquivos, em entrevista. O resultado está em seu nono livro sobre o poeta, “The Double Life of Bob Dylan” – lançado no ano passado pela editora Little Brown –, um catatau de mais de 500 páginas que ganhará um segundo volume em breve.

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“Digo às pessoas desde 2016 que ‘não faz o menor sentido escrever um livro sobre Dylan sem ir a Tulsa’. É ridículo”, disse o britânico, que passou dez semanas nos arquivos. “Não conte a ninguém, mas toda hora eu me pegava dizendo ‘caramba, tinha entendido isso errado’.”

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Steven Jenkins, diretor de programação do BDC, espera atrair uma nova geração de estudiosos para trazer mais pluralidade de interpretações. “Qual seria a graça de solucionar o enigma Dylan? Não se trata de definir nada. Acho que há mais aqui para aumentar o fascínio”, disse Jenkins.

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O santo graal da exposição são três caderninhos que Dylan usou em 1974 para escrever as letras do álbum “Blood on the Tracks”. Sua letra é praticamente ilegível, mas o centro dá destaque às páginas que falam da construção de “Tangled Up in Blue”, digitalizadas e comentadas num vídeo, exibido enquanto a música toca no fone de ouvido do visitante.

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“Por muitos anos, só existiam rumores desses caderninhos, era parte da mitologia do Dylan”, contou Steve Higgins, diretor dos American Song Archives, que supervisiona o Bob Dylan Center. “O fato de essa mitologia virar realidade aqui é emocionante. Queremos ilustrar o processo criativo e mostrar que não é só uma explosão instantânea de genialidade. Requer trabalho e diligência.”

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Higgins lembra quando viu os cadernos pela primeira vez, junto com a letra escrita a mão de “Jokerman”, uma de suas músicas favoritas. “Fiquei arrepiado, tive calafrios. Não podia acreditar”, contou.

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Há coisas mais mundanas em exibição, como sua carteira de 1966 com um pedaço de papel com o telefone de Johnny Cash e o cartão de Otis Redding. Dylan havia conhecido Redding em Los Angeles e proposto que gravasse a sua então inédita “Just Like a Woman”.

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Também está lá a jaqueta de couro que ele usou no Newport Folk Festival de 1965, quando foi vaiado ao trocar o violão pela guitarra, além de dezenas de correspondências de gente famosa, como Allen Ginsberg e George Harrison, e de fãs que ele nunca abriu, incluindo uma carta enviada do Brasil.

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Mesmo não indo ao museu, Dylan agraciou o centro com uma escultura de ferro de quase cinco metros que ele criou no ano passado, sob medida para o hall de entrada.

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Já sobre sua vida familiar, há pouquíssima informação. Mesmo ao falar de “The Man in Me”, “uma canção de amor lindamente escrita para sua mulher”, a exposição nem sequer lembra Sara Lownds, com quem ele teve quatro filhos até o divórcio, em 1977.

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Segundo Higgins, a falta de detalhes pessoais simplesmente reflete o conteúdo dos arquivos. “Não temos artigos realmente pessoais ou familiares. O que compramos são mesmo os documentos de sua vida profissional”, disse, acrescentando que o centro manteve reuniões regulares por anos com a equipe administrativa de Dylan.

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“Em muitos poucos casos fizeram objeções. Não consigo nem pensar num exemplo. Temos uma relação ótima.”

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Fã de Bob Dylan desde criança, Higgins começou a trabalhar no museu como voluntário antes de ser contratado para o posto há cinco anos. Ele conta que viu Dylan poucas vezes ao vivo, “apenas 12 ou 13”, se comparado aos fãs mais radicais que já assistiram a centenas de shows.

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“É um emprego dos sonhos. Ao mesmo tempo, estamos falando do maior artista americano vivo. Talvez o maior artista americano ponto. É uma grande responsabilidade.”

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Ao amigo e historiador Douglas Brinkley, que dá nome à sala de leitura do arquivo do museu, Dylan explicou a escolha de Tulsa num artigo da revista Vanity Fair. “Há mais vibrações nas costas, com certeza”, disse Dylan. “Mas sou de Minnesota e gosto do zumbido casual da terra no coração do país.”
Dos mistérios da vida de Dylan, Tulsa parece um simples de decifrar.

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O músico não tem conexões com a cidade, a segunda maior de Oklahoma com 400 mil habitantes. Já foi celebrada como a capital do petróleo do país e hoje vive num processo acelerado de hipsterização, com diversas microcervejarias, ciclovias e um dos parques públicos mais incríveis dos Estados Unidos, o Gathering Place.

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Tulsa é também casa dos arquivos de Woody Guthrie, pioneiro da folk music que nasceu a cem quilômetros da cidade. Guthrie foi a obsessão de Dylan quando jovem. Sua equipe gostou do trabalho feito no Woody Guthrie Center, aberto em 2013 e agora a passos de distância do BDC, e ofereceu a venda dos arquivos de Dylan aos responsáveis, a George Kaiser Family Foundation, liderada pelo bilionário mais rico do estado.

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George Kaiser, de 79 anos, é um mecenas de Tulsa. Empresário do setor financeiro, sua família fugiu da Alemanha nazista e enriqueceu com o petróleo da região. O executivo está por trás do parque público de US$ 465 milhões e inúmeros projetos filantrópicos voltados à educação infantil e justiça social.

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“Queríamos que Woody Guthrie estivesse mais representado na consciência pública em Oklahoma porque ele foi um populista da esquerda que dificilmente existe hoje em dia”, disse Kaiser. “Chegamos a Bob Dylan não por causa de suas músicas de protesto, mas porque Jeff Rosen [agente de Dylan] veio a Tulsa algumas vezes e aprendeu muito sobre nossa missão voltada às crianças. E ele fez a sugestão a Bob.”

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Dylan visitou o Woody Guthrie Center há cinco anos, quando estava na cidade para um show. Foi a única vez que a equipe da fundação teve a chance de conhecer o músico pessoalmente. Kaiser não se considera fã de música, mas ficou impressionado.

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“Ele realmente me chocou porque é um introvertido, olhava para baixo e se desculpava o tempo todo”, disse. “Ele tem aquela personalidade diferente dos gênios.”