A frase “O que espanta a miséria é festa” define o compositor Beto Sem Braço, nome artístico de Laudeni Casemiro, histórico sambista brasileiro. Sim, você já ouviu a obra do homem e talvez não saiba.
A sentença também ajuda a traduzir o espírito dos sambistas, membros ativos da propagação da filosofia carioca e de um jeito altivo e resiliente de encarar a vida.
A origem da frase de Beto Sem Braço
Para entender o que Beto quis dizer, é melhor voltar ao dia em que o aforismo nasceu, em 1993, no Morro do Rato Molhado.
O local fica no Engenho Novo, bairro do subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro.
A cena sambista do Rio transmitiu a história de boca em boca, e o jornalista Aydano André Motta registrou o episódio no site do projeto Colabora.
Zeca Pagodinho já brilhava como estrela própria em 1993 quando gravou a música “Jibóia comeu o boi”, no álbum Alô, mundo. O sucesso da faixa rendeu bons direitos autorais aos compositores, entre eles Beto Sem Braço, que a compôs com João Quadrado.
Com o bolso cheio — e o coração também —, Beto subiu o Morro do Rato Molhado disposto a promover uma festança à altura do feito. Em uma comunidade marcada pela pobreza, mas que nessas horas se converte em uma espécie de ágora suburbana, o sambista, inspirado, cravou:
“O que espanta a miséria é festa.”
O complemento não fica atrás: “A gente não faz festa porque está feliz, mas porque está triste.”
Queda de cavalo e amputação
Na prática, Beto — que ganhou o apelido de “Sem Braço” após uma queda de cavalo que provocou a amputação do membro direito na altura do antebraço — resumiu o espírito que move muito do impulso festeiro do povo brasileiro: comemora-se também porque a vida é dura.
Não é raro encontrar julgamentos sobre festas em contextos de pobreza ou até em casos de morte, quando o sambista, por tradição, muitas vezes promove os chamados gurufins. Daí surgiu a resposta de Beto.
O legado de Beto Sem Braço
Beto Sem Braço trabalhou como feirante antes de se tornar um dos maiores compositores de samba da história do gênero. Gigantes da música brasileira gravaram suas composições, além do já citado Zeca Pagodinho.
Beth Carvalho, Alcione, Martinho da Vila, o grupo Fundo de Quintal e muitos outros registraram a obra de Laudeni.
O sambista também teve parceiros de caneta importantes, como Arlindo Cruz, Sombrinha, Almir Guineto e Aluisio Machado, com quem compôs o clássico “Bum, Bum Paticumbum, Prugurundum”, samba do Império Serrano campeão do Carnaval de 1982.
Com Zeca, escreveu outro samba eterno, “Camarão que dorme a onda leva”.
O compositor morreu em abril daquele ano, deixando uma lista de clássicos, ouvidos e cantados até hoje nas rodas de samba.
São músicas que atravessam gerações e embalam rodas onde brasileiros transformam a festa em uma forma de espantar a miséria.
