A preservação da memória musical também é uma forma de preservar a identidade de um povo. Em São José dos Campos, o Centro de Documentação Musical (CDM), que funciona no Pavilhão Marina Crespi, no Parque Vicentina Aranha, vem se consolidando como referência nacional na salvaguarda de acervos históricos.
Com entrada gratuita e aberto à visitação pública, o espaço no Vale do Paraíba preserva importantes acervos musicais, promove exposições, concertos e atividades culturais.
Entre os destaques estão a exposição “Mapa Musical SJC”, aberta aos fins de semana, a consulta gratuita ao acervo digital de partituras e LPs catalogados e o projeto “O Palco é Seu!”, que será lançado no segundo semestre para abrir espaço a apresentações de artistas da região.
Em entrevista à Gazeta, a musicista e pesquisadora Raquel Aranha fala sobre a trajetória do projeto fundadora por ela, os desafios da preservação e a importância de manter viva a história da música brasileira.
Confira na íntegra:
O CDM nasceu a partir do resgate do acervo do Maestro José Antonio da Cunha, que corria o risco de se perder. Em que momento você percebeu que aquela iniciativa precisava se transformar em um centro permanente de documentação musical e quais foram os maiores desafios dessa caminhada?
A história do que veio a ser o CDM SJC começou ao mesmo tempo em que o acervo do maestro Cunha começava a ser protegido.
Em 2015 eu soube, através de uma publicação de um blog (“O Lince”), que o musicólogo Dr. Paulo Castagna (UNESP) noticiava uma intenção em estabelecer o “Museu de Música do Vale do Paraíba”, em Aparecida. Como eu já tinha conhecimento do acervo do maestro Cunha, e ele havia pedido minha ajuda para cuidar do acervo, entrei em contato com o professor Castagna para que eu pudesse me somar ao projeto dele, e assim ajudar também a preservar o arquivo pessoal do maestro Cunha.
Entretanto o projeto do museu não aconteceu, e a partir de então eu e o Dr. Castagna passamos a aventar a ideia de criar em São José dos Campos esse espaço.
Fizemos algumas reuniões na tentativa de estabelecer aproximações com instituições da cidade, e finalmente houve uma parceria formalizada entre UNESP e AJAFAC (Associação Joseense para o Fomento da Arte e Cultura, e posterior AFAC) para dar início às ações de salvaguarda deste acervo, e de outros que poderiam ser entregues ao que foi chamado “Centro de Documentação Musical do Vale do Paraíba”.
Eu entrei como voluntária, o Parque Vicentina Aranha com uma sala no Pavilhão Central, e a Unesp com a supervisão do Dr. Castagna.
Entre 2018 e o início da pandemia, eu e minha amiga Beatriz Soares (também musicista) fazíamos semanalmente a triagem do imenso acervo do maestro. Neste meio tempo o acordo entre as instituições foi encerrado.
Então a partir de 2020, enquanto presidente da SOCEM (Sociedade de Cultura e Educação Musical de São José dos Campos) passei a conduzir e elaborar o projeto que veio a ser o “Centro de Documentação Musical de São José dos Campos”, inaugurado em abril de 2022 no Pavilhão Marina Crespi, a partir de parceria colaborativa, sem transferência de recursos, entre SOCEM e AFAC.
Posso dizer que os desafios têm feito parte de cada pequeno passo que damos, desde a logística para receber ou buscar acervos, até a falta de recursos para manter minimamente o projeto em pé.
Somos uma equipe de colaboradores voluntários, todos temos outros trabalhos, mas dedicamos parte do nosso tempo para preservar o patrimônio musical que chega até nós através de doação ou de empréstimo.
Mas cuidar, cuidar bem, exige dedicação, bons materiais de proteção (EPIs), equipamentos, boas caixas para armazenamento, e tempo. Sem recursos o projeto estaciona… então sem dúvidas a maior dificuldade tem sido lidar com a escassez de verba que, idealmente, precisa ser contínua.
Então se consigo um ou outro edital, que além de pontual, tem sido muito raro, durante um ano amplio e melhoro o projeto, pago toda a equipe envolvida, realizo várias atividades para a comunidade, e compro os materiais necessários.
E quando falta, tentamos manter o projeto andando da melhor forma possível através da promoção de saraus beneficentes ao CDM, e da campanha de financiamento coletivo na plataforma catarse.
Hoje o CDM é um dos poucos centros de documentação musical do Brasil e preserva não apenas a memória de São José dos Campos, mas também de outras cidades. Qual é a importância desse trabalho para o Vale do Paraíba e por que preservar esse patrimônio interessa a todo o país?
Especialmente em relação às partituras, posso dizer que a importância é enorme. Para que se tenha uma ideia, vou dar um exemplo. Recebemos recentemente um acervo de uma antiga corporação musical (banda de sopros) de São José dos Campos. Ao folhear o material, que remete às primeiras décadas do século XX, percebi que para além de partituras da cidade há também outras de Taubaté, Caçapava, Jacareí, Lorena e Cunha. Ou seja, é a própria história da música do Vale se revelando através de partituras que circulavam em outras bandas de sopro nesta região.
A partir destes documentos, muitas perguntas começam a surgir: quem eram os músicos, quais grupos existiam, quando foram fundados, quando foram extintos, para quem trabalhavam, quais os repertórios eram tocados e para quem?
Há outros registros também que possam confirmar e esclarecer essas perguntas, como fotos, cartas, cartazes, notícias de jornal e contratos? Há outros acervos de música preservados? Pouco a pouco vamos encontrando os “elos perdidos” e refazendo a história, o que é extremamente importante para compreendermos melhor o presente.
Fora este exemplo, recebemos neste ano um acervo que contém composições de Chorões do Rio de Janeiro do início do século XX (Candinho, Mário Álvares e Pixinguinha), além de várias obras escritas por autores de Recife, Juiz de Fora, Manaus, Santos e outras cidades brasileiras. Também recebemos um rico acervo da dupla Brinquinho e Brioso, uma das principais duplas caipiras do país.
Há também gravações raras, fotos e correspondências de artistas de envergadura nacional (e mesmo internacional), como os pianistas Nelson Freire e Ísis Moreira. E claro, não menos importante, estamos preservando acervos de músicos da cidade (ou que atuaram na cidade), como o próprio maestro Cunha, o Sérgio Weiss, as pianistas Clara Zarur e Rita de Kássia Vilaça, e o violinista Ayrton Vilaça.
Todo esse conjunto complexo de documentos e registros é muito diverso, e de extrema importância para a memória cultural brasileira em suas diferentes regiões.
Além de guardar partituras, gravações e documentos, o CDM promove exposições, concertos, cursos e desenvolve projetos como o Mapa Musical SJC. Como esse trabalho aproxima a população da própria história e ajuda a construir a identidade cultural da cidade?
Eu diria que todas essas ações criam estratégias para atingir públicos diferentes, de maneiras distintas, mas o fim é o mesmo: revelar um passado cultural e musical extremamente rico e praticamente desconhecido da maioria.
Saber que Noel Rosa e o Bando de Tangarás se apresentaram no então “Theatro São José”, em 1931, te faz olhar de outra forma para a Biblioteca Cassiano Ricardo que ocupa a antiga construção do teatro.
Saber que no Sanatório Vicentina Aranha havia música tocada pelos pacientes; saber que houve na cidade um importante festival de canções populares no antigo Cineparatodos, transmitido pela TV Cultura no fim da década de 60, e com jurados como Johnny Alf e Renato Teixeira; saber que Vinícius de Moares, Baden Powell e Carlos Lyra se apresentaram no Teatro do ITA em 1962, e que Chico Buarque participou da 1ª. Semana de Arte e Cultura da cidade, em 1967; saber que São José já tinha uma Orquestra Sinfônica do Vale, em 1964; saber que o primeiro registro de músico na cidade remete a 1807, quando a cidade tinha 40 anos, te faz pensar que afinal São José tem uma trajetória musical muito antiga que teve seu auge na década de 60.
E apesar de toda essa potência cultural, apenas conhecemos seu perfil tecnológico.
Então nós vamos revelando esses fatos, frutos de pesquisas incansáveis da equipe, como forma de propor uma conexão da comunidade à história de onde habitamos, propondo um novo olhar sobre a cidade.
Você tem uma trajetória que une pesquisa acadêmica, atuação como musicista e preservação do patrimônio cultural. Como começou a sua relação com a música e de que forma ela influenciou a escolha de dedicar a carreira à preservação da memória musical?
Comecei muito cedo a estudar música, graças ao incentivo de minha mãe que adorava ouvir LPs de Bach, Vivaldi e Handel (compositores do período barroco). Certamente este gosto dela por obras antigas foi moldando o meu ouvido, e também os meus interesses pela música antiga desde muito cedo.
Aos 6 anos entrei para o Conservatório Pernambucano de Música, em Recife, onde pude ter uma formação muito sólida. De lá vim para São José dos Campos, em 1986, e quando entrei em 2000 na faculdade de música na Unicamp (após cursar Biologia) tive meu primeiro contato com acervos de música, no Centro de Documentação de Música Contemporânea (CDMC) da Universidade.
Fiz um estágio voluntário, e comecei a praticar algumas técnicas de higienização, e de acondicionamento da documentação em obras da compositora Dinorah de Carvalho. Nem poderia imaginar que um dia o CDM SJC também teria material da compositora. Coincidências? Ou não…
Em 2002 fui estudar violino barroco na Holanda (no Conservatório Real de Haia) e mergulhei profundamente no estudo de fontes musicais históricas e de tratados de danças dos séculos XVII e XVIII. Esta grande imersão, tanto como intérprete quanto como pesquisadora, me tornou uma especialista em leituras de obras do passado, especialmente da cultura musical e de danças europeias.
Em 2006 conheci o maestro Cunha e o Clube do Choro Pixinguinha em São José dos Campos. A amizade musical e pessoal se desenvolveu numa relação de muita confiança, e foi a partir dela que o maestro começou a comentar sobre o seu acervo, e também sobre a preocupação que tinha com a destinação do material.
Então em 2012, já com um mestrado realizado, fiz um curso na “Real Academia de Bellas Artes de San Fernando” (Madri) sobre a proteção de patrimônio musical Ibero-americano.
A partir de então me senti mais preparada para lidar com a salvaguarda de acervos de música, e neste momento a chave virou definitivamente para direcionar meu olhar e meus esforços para o patrimônio musical brasileiro.
Olhando para o futuro, quais são os próximos sonhos para o CDM? O que ainda falta — seja em políticas públicas, parcerias, incentivo da sociedade ou financiamento — para que esse trabalho continue crescendo e possa ser preservado para as próximas gerações?
Penso que o CDM SJC pode se tornar, de fato, uma referência nacional de projeto construído a partir da sociedade civil. Nesse sentido, esta larga experiência que já ultrapassa 10 anos de processo pode contribuir com as discussões na área de arquivística musical, e também na ampliação de diretrizes e conceitos sobre patrimônio musical, e as políticas públicas necessárias para sustentar essas ações de salvaguarda.
Tenho o sonho de que o CDM SJC possa ser reconhecido na cidade como modelo de gestão da sociedade civil, e que possa realizar parcerias com o poder público para subsidiar suas atividades.
Que ele possa continuar crescendo e recebendo mais acervos, aumentando sua equipe e seu alcance junto à comunidade. Desejo que o CDM SJC se torne um legado para a cidade, que se torne vigoroso, independente, e inspire o nascimento de outros CDMs em diferentes regiões e contextos do País, para que nosso patrimônio musical tenha a destinação que merece.
