O ator e diretor Wagner Moura afirmou que o filme Marighella foi sabotado durante o governo de Jair Bolsonaro.
A declaração foi feita em entrevista ao jornal britânico The Guardian, ao lado do cineasta Kleber Mendonça Filho, que também comentou o caso.
Segundo Wagner, o longa, que retrata a trajetória do guerrilheiro Carlos Marighella, morto pela ditadura militar, enfrentou obstáculos não oficiais que atrasaram sua estreia no Brasil por dois anos, apesar de já ter sido lançado na Europa em 2019.
Durante a entrevista, Kleber Mendonça Filho afirmou que o boicote ocorreu de forma indireta, sem registros formais que permitissem contestação jurídica.
“Foi sabotado de forma cínica e não oficial, e Wagner nunca vai receber uma explicação. É aí que entra Kafka”, disse o diretor, em referência ao livro O Processo, no qual o personagem principal enfrenta uma acusação sem nunca saber exatamente do que é acusado.
Moura reforçou a dificuldade de reagir à situação. “Não dá para se defender, porque você não sabe exatamente o que aconteceu”, afirmou.
Filme sobre a ditadura ficou dois anos sem estreia no País
Marighella teve exibições internacionais e participação em festivais antes de chegar oficialmente ao circuito comercial brasileiro.
A estreia nacional só ocorreu em 2021, após sucessivos adiamentos, em meio a embates políticos envolvendo o setor cultural durante a gestão Bolsonaro.
O filme aborda a resistência armada à ditadura militar e se tornou alvo de críticas de grupos alinhados à direita, mesmo antes de seu lançamento no País.
Wagner Moura nega acusações de apoio político financiado
Na entrevista ao jornal britânico, Wagner Moura também comentou ataques recentes que tem sofrido nas redes sociais.
Segundo ele, circulam acusações de que ele e Kleber Mendonça Filho teriam recebido recursos financeiros para apoiar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Kleber e eu estamos sendo atacados no Brasil neste momento. Estão dizendo que o governo nos pagou milhões de dólares para apoiá-lo”, afirmou o ator, sem apresentar detalhes sobre a origem das acusações.
Ditadura retratada além da violência física
Kleber Mendonça Filho aproveitou a entrevista para comentar seu próprio trabalho em O Agente Secreto, no qual Wagner Moura interpreta um professor universitário perseguido durante o regime militar.
“Eu poderia ter mostrado o personagem sendo levado à delegacia e recebendo choques elétricos a noite toda. Mas a ditadura se manifestou de muitas formas diferentes”, explicou o diretor, destacando a dimensão psicológica e institucional da repressão.
Wagner Moura também afirmou que sofre pressões para evitar posicionamentos políticos, inclusive em relação a figuras internacionais como o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump.
“Estou sendo muito incentivado a não falar nada. Mas vou continuar falando, né?”, declarou.
