Correndo junto com os jogadores: como é o treino dos árbitros?

Estudos e rotinas de treino revelam que os juízes podem correr até mais do jogadores em campo, mantendo fôlego de elite mesmo sem o suporte diário dos clubes profissionais.

Anderson Daronco/ Crédito: Instagram/@daroncofanclub

Anderson Daronco/ Crédito: Instagram/@daroncofanclub

Em grandes campeonatos de futebol, como a Copa do Mundo, as estrelas são os times e seus respectivos jogadores, mas este universo conta com muitos profissionais com talentos igualmente difíceis e decisivos, como os árbitros.

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Esses profissionais devem acompanhar cada pique, prever cada jogada e tomar decisões cruciais sob extrema pressão. Para dar conta dessa exigência, eles passam por uma preparação física tão severa que o seu fôlego chega a rivalizar diretamente com o de atletas profissionais de elite.

Mais quilômetros que os craques

Muitos torcedores não imaginam, mas um árbitro costuma correr mais do que grande parte dos jogadores em uma partida. De acordo com estudos científicos feitos pelo fisiologista Turíbio Leite de Barros, enquanto um atleta profissional percorre entre 9 e 11 quilômetros por jogo, a média de um árbitro gira entre 10 e 12 quilômetros.

Na final dos Jogos Olímpicos do Rio em 2016, por exemplo, o árbitro iraniano Alireza Faghani correu o equivalente a uma meia-maratona: foram 14 km no tempo normal e mais 7 km na prorrogação, totalizando 21 km no gramado do Maracanã e quase ninguém sabe.

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Fôlego pode ser até maior do que de jogadores mais jovens

Uma pesquisa realizada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) trouxe dados científicos impressionantes sobre essa categoria.

No Brasil, os árbitros não possuem contratos 100% profissionais e, por isso, muitas vezes não treinam diariamente nas mesmas condições que os elencos dos clubes. Ainda assim, o estudo provou que o fôlego pulmonar dos juízes é equivalente ao dos jogadores.

Ao medir o consumo máximo de oxigênio (indicador que define o “tanque de combustível” e a capacidade aeróbica de um esportista), os pesquisadores notaram uma diferença mínima:

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  • Jogadores de linha: média de 58,7 mL/kg/min.
  • Árbitros de futebol: média de 54,7 mL/kg/min.

O dado é ainda mais surpreendente quando analisamos a idade média dos dois grupos avaliados no estudo: os atletas tinham cerca de 20 anos, enquanto a média de idade dos árbitros era de 34 anos. Ou seja, mesmo consideravelmente mais velhos, os juízes mantêm um patamar atlético formidável.

Cansaço físico também influencia capacidade cognitiva 

Manter o coração equilibrado é o que garante a justiça no placar. O cansaço físico afeta diretamente a capacidade cognitiva e de concentração.

De acordo com especialistas, é por isso que os erros de arbitragem costumam se concentrar nos minutos finais das partidas: a fadiga reduz a oxigenação do cérebro e derruba a atenção.

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Para garantir os dois pilares de uma boa arbitragem, proximidade e ângulo (o ideal é estar entre 5 e 15 metros do lance), a rotina de treinos precisa ser implacável.

Tiros de 18 km/h e o temido Yo-Yo Test

Para serem aprovados pelas federações e estarem aptos a trabalhar em grandes jogos, os árbitros enfrentam testes de aprovação severos. Se falharem, podem pegar um “gancho” de até seis meses longe dos gramados. A rotina preparatória e os exames incluem:

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  1. Testes de Velocidade e Resistência Intermitente: Os profissionais precisam encarar uma série massiva de 48 tiros de 75 metros correndo a uma velocidade média de 18 km/h (completando cada tiro em até 15 segundos), intercalados por apenas 20 segundos de descanso caminhando. Na sequência, realizam mais seis tiros de 40 metros em menos de 6,2 segundos.
  2. Mudança de Direção (Yo-Yo Test): Desenvolvido pelo dinamarquês Jens Bangsbo, esse teste simula a dinâmica real do jogo. O árbitro precisa acelerar, desacelerar e mudar de rumo (correndo de costas, de lado e na diagonal) seguindo bipes sonoros que ficam progressivamente mais rápidos.
  3. Fortalecimento e Prevenção: Os treinos envolvem forte foco na região do core (abdômen e coluna) para suportar o impacto, além de exercícios de propriocepção para proteger as articulações dos constantes desvios de movimento.

Como a FIFA cuida de seus juízes 

Atualmente, os juízes de elite contam com o suporte de departamentos de performance exclusivos, operando sob uma estrutura que espelha os grandes clubes do mundo.

De acordo com as diretrizes oficiais da FIFA, a validação de um árbitro para competições internacionais depende da aprovação em exames rigorosos de aptidão. Entre as metodologias oficiais adotadas pela entidade estão o Yo-Yo Intermittent Recovery Test (essencial para mensurar a habilidade de recuperação após piques sucessivos), além de baterias de testes de arrancada de alta velocidade, saltos verticais e controle rígido do percentual de gordura.

 Durante as sessões e partidas, o monitoramento é feito em tempo real: coletes com sensores GPS medem o deslocamento, enquanto frequencímetros e marcadores de carga interna avaliam o desgaste biológico do profissional.

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Longe dos gramados, a dedicação é equivalente à de qualquer jogador de primeira linha. Os árbitros mantêm sessões de preparação que ocupam de 4 a 6 dias da semana, possuem dietas personalizadas para manter a composição corporal exigida pelos testes internacionais e monitoram a qualidade do sono e utilizam técnicas modernas de recuperação muscular.

Além disso, os profissionais mantêm um estudo contínuo e exaustivo de revisões táticas, análise de lances em vídeo e novos protocolos operacionais do VAR.

O alerta dos especialistas

Apesar do excelente rendimento dos juízes, pesquisadores do Laboratório de Estudos do Movimento da USP alertam que a preparação física no futebol brasileiro, de forma geral, precisa evoluir. 

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Críticos apontam que muitos treinos priorizam apenas os piques curtos (estímulos alácticos e lácticos) e deixam de lado a resistência de longa duração (metabolismo aeróbio), essencial para evitar que a exaustão domine o corpo no segundo tempo.