O mundo do futebol na década de 1930 reverenciava um nome acima de quase todos: Matthias Sindelar.
O craque, que muitos chamavam de “Pelé do Danúbio”, exibia uma leveza impressionante em campo. Com apenas 63 kg distribuídos em 1,75 m, o atacante ganhou o apelido de “Bailarino de Papel” (Papierene) pela agilidade e movimentos elegantes que confundiam os defensores.
Matthias Sindelar não apenas marcava gols; ele revolucionava o jogo. Especialistas o consideram o primeiro “falso 9” da história, pois ele recuava até o meio-campo para armar jogadas, em vez de esperar a bola estático na área.
Sua inteligência tática e habilidade nos dribles levaram o Austria Viena (equipe que tinha fortes ligações com a população judaica) a conquistas históricas, como a Mitropa Cup, na qual ele derrotou a poderosa Inter de Milão de Giuseppe Meazza.
Wunderteam: a máquina austríaca que assombrou a Europa
Sindelar era o coração do Wunderteam (time fantástico), a seleção da Áustria que dominava o continente. Sob o comando de Hugo Meisl, a equipe praticava um futebol ofensivo e criativo, conhecido como a “Escola do Danúbio”. Os números daquela época assustam: os austríacos aplicaram goleadas impiedosas na Alemanha (6 a 0 e 5 a 0), na Suíça (6 a 0) e na Hungria (8 a 2).
A equipe chegou à Copa de 1934 como favorita, mas a Itália a eliminou em uma semifinal polêmica. Mesmo assim, o Wunderteam manteve sua aura de invencibilidade, acumulando apenas quatro derrotas em 54 partidas até a política interromper sua trajetória vitoriosa.
O plano de Hitler: o futebol como arma política
Em março de 1938, tropas nazistas invadiram e anexaram a Áustria no episódio conhecido como Anschluss. Adolf Hitler desejava converter a jovem república em uma província do Terceiro Reich e viu no futebol uma ferramenta de propaganda perfeita.
O ditador alemão pretendia se basear em Benito Mussolini, que utilizou a conquista da Copa de 1934 para promover o fascismo na Itália.
Como a seleção da Alemanha não possuía o mesmo brilho, Hitler decidiu “reforçar” seu time incorporando os craques do Wunderteam.
Ele acreditava que a união dos talentos austríacos com a força alemã garantiria o título da Copa de 1938 na França. E o principal craque e desejo de Hitler era ele: Matthias Sindelar. O craque disputou 43 jogos pela seleção da Áustria e marcou 27 gols.
O gol da audácia de Sindelar e o drible final no Reich
Para celebrar a “união ariana”, o regime nazista organizou um “jogo de reconciliação” entre Alemanha e Áustria em 3 de abril de 1938. As autoridades ordenaram um empate sem gols para simbolizar a fraternidade entre os povos. Contudo, Sindelar ignorou as instruções.
Além de jogar brilhantemente, o craque marcou o primeiro gol da vitória austríaca por 2 a 0. Em um ato de extrema audácia, Sindelar dançou de forma extravagante bem na frente da tribuna onde as autoridades nazistas assistiam à partida, zombando abertamente dos militares presentes.
O fim trágico e misterioso de Matthias Sindelar
Após o jogo, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, tentou convencer Sindelar a defender a Alemanha no Mundial em troca do “perdão” pela sua atuação.
O jogador, contudo, recusou o convite, alegando lesões e anunciando sua aposentadoria precoce. Ele se negou a vestir a camisa com a suástica enquanto outros colegas cediam à pressão.
A resistência custou caro. O regime nazista passou a vigiar Sindelar, rotulando-o como “pró-judeu” e criando dificuldades para a cafeteria que ele administrava em Viena. Em 22 de janeiro de 1939, bombeiros encontraram o corpo do ídolo de 35 anos ao lado de sua companheira, Camilla Castagnola.
Embora o relatório oficial aponte asfixia por vazamento de monóxido de carbono como causa acidental ou suicídio, o mistério sobre um possível assassinato pela Gestapo persiste até hoje.
Mais de 40 mil pessoas enfrentaram a vigilância nazista para comparecer ao funeral do homem que, nas palavras do presidente de seu clube, levou consigo “uma parte da Áustria”.






