Adeus, gasolina: Esse ônibus é movido por fezes humanas e já rodou mais de 40 mil km

Projeto em operação há mais de três anos transforma esgoto em combustível e já rodou mais de 42 mil km

Veículo usa biometano gerado em estação de tratamento e corta em mais de 85% a pegada de carbono

Veículo usa biometano gerado em estação de tratamento e corta em mais de 85% a pegada de carbono | Divulgação/Wessex Water

À primeira vista, parece apenas mais um ônibus circulando pelas ruas de Barcelona, na Espanha. Mas, por trás do trajeto cotidiano, está uma inovação que chama atenção no mundo todo: o veículo é abastecido com biometano produzido a partir de fezes humanas.

O projeto, em operação há mais de três anos, já percorreu dezenas de milhares de quilômetros e mostra como resíduos urbanos podem se transformar em alternativa real para reduzir emissões e repensar o futuro do transporte público.

Enquanto passageiros seguem suas rotinas sem perceber grandes diferenças, o combustível usado conta uma história curiosa e sustentável. Ela começa longe dos pontos de ônibus e termina em energia limpa nas ruas da cidade.

Da estação de tratamento às ruas da cidade

O biometano que move o ônibus nasce do tratamento de águas residuais em uma estação local. A matéria orgânica úmida passa por decomposição controlada e gera um gás renovável, capaz de substituir combustíveis fósseis no transporte urbano.

Segundo estimativa do jornal francês Le Monde, o combustível foi produzido a partir de dejetos humanos de mais de 1,5 milhão de moradores da cidade catalã. A informação chama atenção e ajuda a dimensionar o potencial energético escondido no esgoto.

Assim, o que normalmente seria descartado ganha nova função. Além de reduzir resíduos, o processo reaproveita recursos já existentes na cidade e conecta saneamento básico, energia e mobilidade urbana.

Resultados que vão além da curiosidade

Desde a implementação do projeto-piloto, há mais de 3 anos, o ônibus já percorreu mais de 45 mil quilômetros. Em média, são mais de 14 mil quilômetros rodados por ano com um combustível alternativo.

Os números ambientais também se destacam. O uso do biometano permitiu reduzir em mais de 85% a pegada de carbono do veículo e aumentar em 70% a energia obtida a partir do biogás produzido no tratamento de resíduos.

A experiência reforça que soluções sustentáveis podem entrar no cotidiano sem grandes mudanças para o usuário. Em São Paulo, por exemplo, a cidade ampliou a frota e apresentou 50 novos ônibus elétricos para a rede municipal.

O que dizem moradores e especialistas

Batizado de Life Nimbus, o projeto reúne departamentos de águas e transporte de Barcelona, além de institutos de pesquisa e a Universidade Autônoma de Barcelona. A proposta foi bem recebida por ONGs e governos locais atentos à crise climática.

Ao Le Monde, a aposentada Rosa Maria Gay comentou: “Acho que é uma ideia fantástica. Já aproveitamos os dejetos dos animais, então por que não os nossos?”.

A estudante de ciência da computação Alessandra Spano também aprovou a iniciativa. “Contanto que seja energia renovável e não tenha mau cheiro, acho ótimo”, disse.

O debate sobre resíduos e energia aparece em diferentes frentes, inclusive em discussões climáticas. Na COP27, por exemplo, um senador citou a chance de gerar energia através do biogás produzido pelo lixo orgânico.

Com iniciativas como essa, Barcelona mostra que inovação urbana pode surgir dos lugares mais improváveis e, justamente por isso, despertar ainda mais interesse sobre como as cidades podem se reinventar.