Cerca de 160 mil veículos atravessam diariamente o Cajon Pass, ao norte de Los Angeles. A passagem entre as montanhas de San Bernardino e San Gabriel concentra a rodovia I-15, linhas ferroviárias, aquedutos, torres de energia, gasodutos e cabos de fibra óptica que atendem parte do sul da Califórnia, estado que contém uma das ilhas mais fascinantes do mundo. Foi justamente sob esse corredor que pesquisadores identificaram um cenário que voltou a chamar a atenção dos sismólogos.
As falhas de San Andreas e San Jacinto se aproximam na região e acumulam tensões que, em alguns trechos, alcançaram os maiores valores modelados dos últimos mil anos. O resultado aparece em um estudo publicado em junho de 2026 no Journal of Geophysical Research: Solid Earth.
A pesquisa não prevê a data de um terremoto. O que os cientistas conseguiram reconstruir foi a maneira como a tensão se distribuiu entre os dois sistemas de falhas ao longo dos séculos. Cajon Pass chama atenção porque uma ruptura iniciada em uma delas poderia, dependendo das condições, alcançar a outra e ampliar o terremoto.
“O Cajon Pass me tira o sono”, afirmou Ken Hudnut, que participou da criação de iniciativas de resiliência sísmica do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Segundo ele, a preocupação com a Falha de San Andreas e a quantidade de estruturas instaladas na região é antiga.
Tensão chegou ao limite histórico
A placa do Pacífico se desloca em direção ao noroeste em relação à placa da América do Norte. Esse movimento não ocorre de maneira uniforme ao longo das falhas. Há pontos em que as rochas ficam presas durante longos períodos enquanto a deformação continua se acumulando.
Quando acontece a ruptura, parte dessa energia é liberada em forma de terremoto.
Liderada pela geofísica Liliane Burkhard, da Universidade de Berna, a equipe utilizou um modelo físico para reconstruir a chamada tensão de Coulomb nas falhas de San Andreas e San Jacinto. Em algumas seções, os valores atuais ficaram iguais ou acima de todos os registrados pelo modelo ao longo de mil anos.
A análise também mostrou que, em outros períodos, rupturas conseguiram atravessar a região de encontro entre os sistemas. Essa possibilidade levou os pesquisadores a tratar Cajon Pass como um ponto importante para entender até onde um futuro terremoto poderia avançar.
Burkhard afirmou que outro grande evento é esperado na região dentro da atual geração. Pelas condições analisadas, uma ruptura envolvendo os dois sistemas poderia produzir um terremoto em torno de magnitude 7,5.
Um corredor difícil de substituir
Boa parte da preocupação está naquilo que foi construído sobre a região ao longo dos últimos dois séculos. Cajon Pass não serve apenas aos motoristas que deixam Los Angeles em direção a Las Vegas.
Trens de carga atravessam o desfiladeiro. Linhas de transmissão levam eletricidade pela região, enquanto gasodutos de alta pressão passam pelo subsolo. Cabos de fibra óptica também utilizam a passagem e fazem parte das conexões de internet do sul da Califórnia.
O cenário ShakeOut, elaborado para simular os efeitos de um terremoto de magnitude 7,8 na parte sul da Falha de San Andreas, estimou cerca de 1.800 mortes, 50 mil feridos e perdas econômicas próximas de US$ 213 bilhões.
No Cajon Pass, rodovias poderiam ser severamente danificadas ou fechadas, e trilhos ferroviários ficariam vulneráveis à ruptura do terreno. Cabos de fibra óptica e gasodutos também estão entre as estruturas expostas.
Deslizamentos representam outro risco. O cenário calcula que aproximadamente 75 mil metros cúbicos de detritos poderiam bloquear as estradas que passam pelo desfiladeiro, além de atingir linhas de energia e estruturas subterrâneas.
A própria falha abriu a passagem
A escolha de Cajon Pass como corredor de transporte começou muito antes da construção das grandes rodovias atuais. A região oferece uma das passagens naturais entre montanhas altas, resultado da mesma atividade tectônica responsável pelas falhas.
San Andreas começou a se formar há cerca de 25 milhões de anos, quando as placas do Pacífico e da América do Norte passaram a deslizar lateralmente uma em relação à outra.
Cerca de 8 milhões de anos atrás, o limite entre as placas mudou de posição e produziu uma grande curvatura que inclui Cajon Pass. Milhões de anos depois surgiram outras falhas, entre elas San Jacinto.
Esse processo levantou as montanhas, mas também deixou vales entre elas. Quando as rotas terrestres começaram a se expandir pela Califórnia, essas passagens acabaram escolhidas porque ofereciam caminhos possíveis através do relevo.
As primeiras estradas no Cajon Pass foram abertas em meados do século XIX. Garimpeiros e outros viajantes passaram a utilizar o caminho, que depois recebeu ferrovias e, já com o crescimento do sul da Califórnia, rodovias e redes de infraestrutura.
Último grande terremoto foi em 1857
Poucos anos depois da abertura dessas primeiras rotas, a Falha de San Andreas produziu um dos maiores terremotos conhecidos na história da região.
Em 1857, aproximadamente 350 quilômetros da falha se romperam. O terremoto de Fort Tejon teve magnitude estimada em 7,9 e atingiu uma Califórnia muito menos povoada do que a atual.
Na época, cerca de 1.500 pessoas viviam na área hoje ocupada pela região metropolitana de Los Angeles. Duas mortes foram registradas.
Atualmente, quase 13 milhões de pessoas vivem nessa região. Estradas, prédios, ferrovias, linhas de energia e redes de comunicação também multiplicaram os possíveis pontos de impacto de um terremoto semelhante.
Parte dessa infraestrutura começou a ser instalada quando a própria ciência ainda compreendia pouco sobre o funcionamento das falhas. A teoria moderna da tectônica de placas só se consolidou na década de 1960.
Obras tentam reduzir impactos
A Southern California Edison reconheceu em um documento de planejamento de 2026 que alguns de seus principais corredores de transmissão cruzam a Falha de San Andreas em Cajon Pass. Essas estruturas também atravessam encostas onde um terremoto pode provocar deslizamentos.
Entre 2016 e 2025, a concessionária investiu cerca de US$ 300 milhões em reforço sísmico. Outros US$ 13 milhões estão previstos para modernizar corredores de transmissão nos próximos anos.
A SoCalGas informou que também vem reforçando seus sistemas desde 2012. Dois gasodutos instalados no Cajon Pass receberam válvulas automáticas nas duas extremidades da passagem, além de uma válvula de isolamento no lado sul para separar partes da tubulação durante uma emergência.
O governo da Califórnia criou ainda uma força-tarefa para coordenar a recuperação de rodovias, energia, comunicações e outras estruturas essenciais caso o corredor seja interrompido.
Essas medidas partem de uma limitação conhecida da sismologia: é possível identificar onde as falhas estão, estudar quanto movimento acumularam e estimar cenários de danos, mas ainda não determinar o dia em que uma grande ruptura ocorrerá.
Lucy Jones, ex-sismóloga do USGS, resume a situação de maneira direta: “Este terremoto é inevitável. Só não sabemos exatamente quando”.
O estudo de 2026 acrescenta um dado a esse planejamento. Algumas das maiores tensões calculadas em mil anos estão hoje concentradas em trechos dos dois sistemas de falhas que se aproximam justamente no Cajon Pass, por onde o sul da Califórnia decidiu passar boa parte de suas estradas, energia, gás e comunicações.







