No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, 25,7% dos adultos nas capitais brasileiras vivem com obesidade, o equivalente a uma em cada quatro pessoas (mais de 41 milhões), com forte prevalência entre as mulheres (29,5%).
Dentro deste cenário, dados do setor farmacêutico apontam que as vendas de canetas emagrecedoras (como Mounjaro, Ozempic e Wegovy) movimentaram mais de R$ 13,3 bilhões em um único ano no País, além da disparada de trends de emagrecimento e dietas e treinos malucos nas redes sociais.
Essa relação expressa muito mais do que milhões de pessoas tentando perder peso. Ela reflete uma sociedade em que a busca por resultados rápidos coloca a saúde verdadeira em segundo plano.
Parecer magro e estar realmente saudável são duas coisas totalmente diferentes
Em Hollywood e nas redes sociais, assistimos ao doloroso retorno do culto à magreza extrema, com artistas e personalidades, principalmente mulheres, exibindo corpos cada vez mais cadavéricos sob o pretexto de “boa forma”.
A verdade é que o emagrecimento definitivo e a saúde metabólica estão longe de ter a estética como seu pilar principal. Na ansiedade por atalhos farmacológicos, ignora-se a investigação básica do organismo, a checagem hormonal e a reconstrução dos hábitos de vida, criando um cenário de alto risco para a saúde física e mental.
Por que algumas pessoas engordam mesmo comendo pouco?
Uma dúvida que reflete bem essa falta de cuidado é que comer menos ou quase nada é ideal para emagrecer. A ideia simplista de que “se eu como pouco, não deveria engordar” ignora a complexidade da biologia humana.
Na verdade, comer pouco demais pode dificultar o emagrecimento e favorecer o reganho de peso. Em situações de restrição calórica intensa, o organismo pode se adaptar à menor oferta de energia, reduzindo o gasto energético. Ao mesmo tempo, alterações nos mecanismos que regulam o apetite podem aumentar a fome e estimular a ingestão alimentar. Esse conjunto de respostas metabólicas e comportamentais pode tornar mais difícil manter a perda de peso a longo prazo.
Ou seja, o peso corporal não é uma mera conta matemática de calorias ingeridas versus queimadas. Gasto energético, composição corporal, nível de atividade física, qualidade do sono, uso de medicamentos, genética, idade e condições médicas subclínicas interferem diretamente nesse equilíbrio.
Entre os fatores médicos frequentemente negligenciados está o funcionamento inadequado da tireoide, uma pequena glândula localizada na região do pescoço, mas que exerce influência direta sobre praticamente todo o organismo.
A tireoide produz principalmente os hormônios tiroxina (T4) e triiodotironina (T3), fundamentais para a regulação do metabolismo, da temperatura corporal e do funcionamento do coração, músculos e cérebro. O T4 é convertido em T3 nos tecidos periféricos, e é o T3 que exerce a maior parte dos efeitos biológicos.
Quando a produção desses hormônios diminui, instala-se o hipotireoidismo. Uma de suas consequências diretas é a redução do gasto energético em repouso (o metabolismo basal). Em termos práticos, o organismo reduz sua velocidade e passa a utilizar menos energia para manter suas funções vitais. Isso favorece o ganho de peso, especialmente quando somado ao sedentarismo e a desequilíbrios alimentares.
O mito do hipotireoidismo e a retenção de líquidos
No entanto, existe um ponto crucial e frequentemente ignorado nas discussões superficiais sobre emagrecimento: o hipotireoidismo geralmente não explica sozinho grandes aumentos de gordura corporal.
Segundo diretrizes da American Thyroid Association, boa parte do peso adquirido em decorrência do hipotireoidismo está relacionada à retenção de sal e água no espaço extracelular, e não exclusivamente ao acúmulo de tecido adiposo. Em muitos pacientes, o ganho real atribuído à tireoide fica na faixa de alguns quilos, variando conforme a gravidade da doença.
“O organismo de cada indivíduo possui características metabólicas próprias. Além disso, uma pessoa pode estar consumindo menos alimentos e, ainda assim, apresentar baixo gasto energético, pouca massa muscular, menor nível de atividade física ou alterações metabólicas que dificultem a perda de peso”, afirma a cientista Izabelle Gindri, especialista em saúde hormonal, PhD em Engenharia Biomédica pela UTD (University of Texas, Dallas), farmacêutica, cofundadora e CEO da Bio Meds Brasil.
Outro equívoco perigoso é considerar qualquer dificuldade de emagrecimento como sinal de hipotireoidismo. Cansaço crônico, constipação, sensibilidade ao frio, névoa mental e ganho de peso podem ocorrer na doença, mas são sintomas altamente inespecíficos que também surgem em dezenas de outras condições. Por isso, é clinicamente inadequado concluir que uma pessoa tem hipotireoidismo apenas por estar acima do peso.
Reposição hormonal não é “fórmula para emagrecer”
É no rastro dessa desinformação que surge outra expectativa equivocada: a ideia de que tomar hormônios tireoidianos fará qualquer pessoa perder peso. A reposição hormonal tem como meta exclusiva corrigir uma deficiência comprovada e restaurar a homeostase do organismo, e jamais atuar como “emagrecedor” para quem não tem a doença.
“Quando o tratamento normaliza os níveis hormonais, alguns pacientes perdem parte do peso adquirido durante a doença, principalmente aquele relacionado à retenção de líquidos. Porém, a perda de peso costuma ser modesta. O uso de hormônio tireoidiano em doses excessivas com a finalidade de emagrecer, por outro lado, é extremamente perigoso. Pode provocar palpitações, ansiedade, insônia, perda de massa muscular e óssea e alterações do ritmo cardíaco, além de não oferecer uma solução sustentável para a obesidade”, reforça Izabelle Gindri.
Riscos do uso indevido de fármacos e hormônios sem acompanhamento
Usar remédios de emagrecimento por conta, com ou sem hormônios, pode trazer consequências graves. Os efeitos cardiovasculares podem incluir arritmias, palpitações severas e hipertensão. Na composição corporal, pode ocorrer perda acelerada de massa magra, caracterizando sarcopenia, além da degradação da densidade óssea.
Entre os efeitos sistêmicos, estão crises de ansiedade, insônia crônica e descompensação metabólica. Também existe o chamado efeito rebote, caracterizado pelo reganho acelerado de peso após a descontinuação do uso, especialmente quando não houve uma reconstrução adequada dos hábitos e do estilo de vida.
Resposta para ganho de peso é individual
A pergunta “por que engordo mesmo comendo pouco?” não aceita respostas padronizadas ou atalhos farmacológicos. Em alguns casos, a tireoide pode estar envolvida; em outros, a causa estará oculta na privação do sono, no estresse crônico (cortisol elevado), na resistência à insulina, na perda de massa muscular ou no consumo calórico subestimado.
A avaliação médica individualizada, embasada por exames laboratoriais detalhados, é a única ferramenta capaz de separar uma alteração hormonal real de mitos populares.
“Mais do que procurar um ‘hormônio mágico’ ou uma ‘caneta milagrosa’ para emagrecer, compreender o funcionamento integral do organismo permite tratar corretamente aquilo que realmente está alterado. Quando existe hipotireoidismo, a reposição hormonal é o tratamento de uma doença e não uma fórmula para perder peso. Magreza não é sinônimo de saúde”, conclui a Dra. Izabelle Gindri.






