Limusine de 1951 roda a lenha e vira atração em SC

Em Benedito Novo, família mantém veículo adaptado com gasogênio desde os anos 1970 e preserva a memória do patriarca

Inspirado em soluções usadas na Segunda Guerra Mundial, o sistema de gasogênio transforma a queima de madeira em gás combustível.

Inspirado em soluções usadas na Segunda Guerra Mundial, o sistema de gasogênio transforma a queima de madeira em gás combustível. | Reprodução YT/ Vale Agrícola

Uma limusine ano 1951 virou atração em Benedito Novo, no interior de Santa Catarina. O carro, herdado por Elemer Schmidt, foi adaptado para funcionar com gasogênio, sistema que usa gás gerado pela queima de lenha para mover o motor.

A história começou em 1975, quando o pai de Elemer comprou o veículo. A adaptação veio no ano seguinte, em meio à escassez de combustíveis. “O pai ia estudando e íamos fazendo as adaptações necessárias”, recorda o filho.

Segundo Elemer, o projeto foi tocado nas noites e fins de semana. “Como trabalhávamos, conseguíamos mexer no carro só à noite e aos fins de semana. Foram seis meses até o carro ficar pronto”, diz, em memória ao pai, falecido há quatro anos vítima de covid-19.

Como funciona o gasogênio

Inspirado em soluções usadas na Segunda Guerra Mundial, o sistema de gasogênio transforma a queima de madeira em gás combustível. Esse gás, filtrado e canalizado por tubos, substitui a gasolina ou o etanol na alimentação do motor.

No carro dos Schmidt, um compartimento metálico foi instalado na traseira para abrigar o fogareiro. Para colocar o veículo em marcha, basta inserir pedaços de madeira, acender com fósforo e jornal e aguardar alguns minutos até a pressão ideal.

Com o fluxo estabilizado, o motorista acelera e segue viagem como em um automóvel comum. “Depois é só acelerar e sair com o automóvel”, resume Elemer, que mantém a rotina de cuidados e inspeções antes de cada passeio.

Autonomia, reabastecimento e plano B

O desempenho surpreende os curiosos que se aproximam para ver de perto. “O carro faz 80 km com 22 kg de madeira”, afirma Dreivin Juan Schmidt, filho de Elemer, que também aprendeu a operar o sistema e a monitorar a pressão do gás.

Além do compartimento para lenha, a limusine preserva um tanque auxiliar de 10 litros de gasolina. A reserva serve para emergências e já salvou a família em situações imprevistas na estrada, quando o combustível de madeira acabou.

“Já aconteceu de precisarmos usar a gasolina porque a madeira acabou na estrada”, conta Elemer. O cuidado hoje inclui planejar percursos curtos e levar a quantidade adequada de lenha para cada deslocamento.

Documento em dia e uso cotidiano

Cinco anos após a adaptação, em outubro de 1982, a família obteve um certificado técnico que autoriza a circulação do veículo em vias urbanas e rodovias. O documento reconhece o sistema e garante a regularidade da limusine.

Com o passar do tempo, o carro deixou de ser o único meio de transporte dos Schmidt. “Hoje a gente usa o carro mais para passear e fazer pequenos trajetos. Mas ele já foi o único carro que tínhamos e andávamos bastante”, diz Elemer.

Mesmo menos presente no dia a dia, a limusine segue chamando atenção onde quer que apareça. O ronco diferente e o aparato traseiro despertam perguntas, fotos e muita curiosidade entre moradores e visitantes.

Patrimônio afetivo que não tem preço

As propostas de compra, algumas tentadoras, foram todas recusadas. “Esse carro não tem preço. Já me ofereceram carro zero em troca dela, mas eu não aceito”, afirma Elemer, reforçando o vínculo afetivo com a história e com a engenharia caseira do projeto.

Para a família, preservar a limusine é manter viva a memória de quem pesquisou, arriscou e adaptou tecnologia em casa, em um tempo sem internet e com poucos recursos. O carro, hoje, é símbolo de criatividade, resistência e afeto.

Nas ruas de Benedito Novo, a limusine a lenha segue cumprindo um papel que vai além do transporte: contar uma boa história e inspirar novas gerações a cuidar do passado sem deixar de rodar pelo presente.

Ficha rápida

  • Ano do carro: 1951
  • Adaptação para gasogênio: 1976
  • Autonomia: ~80 km com 22 kg de madeira
  • Tanque auxiliar: 10 litros de gasolina
  • Certificado técnico: obtido em outubro de 1982
  • Cidade: Benedito Novo (SC)

“Foram seis meses até o carro ficar pronto”, lembra Elemer. Décadas depois, a mesma frase ajuda a explicar por que a limusine se tornou atração: é mecânica, é memória e é, acima de tudo, uma boa história para seguir rodando.