Uma expedição que deveria ser apenas mais uma rotina de campo terminou em uma descoberta histórica para a ciência brasileira.
Pesquisadores da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro localizaram, no litoral de São Paulo, a Begonia larorum, uma espécie que não era vista desde a década de 1920 e era considerada extinta há mais de um século.
A planta “reapareceu” na Ilha de Alcatrazes, localizada a cerca de 35 quilômetros da costa. O último registro oficial da espécie datava de 1920, feita pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt, e desde então ela havia sumido completamente dos radares científicos.
O esconderijo perfeito
A sobrevivência da Begonia larorum é considerada um feito heroico da natureza. Durante décadas, o arquipélago de Alcatrazes foi utilizado pela Marinha do Brasil para treinamentos de tiro, o que provocou incêndios recorrentes e a degradação da flora local.
Além disso, a introdução de espécies invasoras, como o capim-gordura, ameaçava o que restava da vegetação nativa.
No entanto, a pequena begônia encontrou o que os pesquisadores chamam de “esconderijo perfeito”: uma encosta isolada e de difícil acesso na face sul da ilha.
Por ser uma planta endêmica — ou seja, que só existe naquele ponto específico do planeta —, o fato de ter resistido em um ambiente tão hostil e restrito torna o achado ainda mais urgente para a conservação.
A emoção da descoberta
O primeiro contato com a planta “fantasma” aconteceu em fevereiro de 2024. O pesquisador Gabriel Sabino avistou um único exemplar, que ainda não estava em fase de floração.
“Eu revisava sempre as descrições antigas antes de cada expedição. Quando a encontrei, fiquei sem acreditar”, relatou o botânico.
Meses depois, em setembro, a equipe retornou ao local e encontrou uma pequena população de 19 indivíduos, sendo que 17 deles estavam em fase reprodutiva, um sinal claro de que a espécie está tentando se restabelecer no ambiente natural.
A descoberta foi celebrada com entusiasmo pela equipe, que coletou amostras para o herbário da Unicamp e conseguiu produzir cinco clones em laboratório para garantir a segurança genética da espécie.
Um laboratório para o futuro do planeta
Além do valor biológico imediato, a redescoberta da begônia abre portas para estudos sobre as mudanças climáticas.
O professor Fábio Pinheiro, da Unicamp, explica que ilhas isoladas como Alcatrazes funcionam como um laboratório vivo. Segundo ele, observar como essas plantas sobrevivem em condições extremas pode antecipar como a vegetação global reagirá ao aquecimento do planeta no futuro.
Agora, os cientistas trabalham para que a Begonia larorum seja incluída na Lista Vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza) sob a classificação de espécie criticamente ameaçada. O objetivo é garantir que, desta vez, a planta não desapareça novamente.



