Por que algumas pessoas sentem cheiro de barata e outras simplesmente não?

A história do cheiro de barata mostra que o olfato não funciona como um sensor igual para todos

Quando há barata no ambiente, sentir esse odor pode ser apenas uma resposta normal do organismo.

Quando há barata no ambiente, sentir esse odor pode ser apenas uma resposta normal do organismo. | Ilustração gerada por IA/Gazeta de S. Paulo

Imagine sentir cheiro de barata antes mesmo de ver qualquer inseto. A pessoa ao seu lado, no mesmo cômodo, não percebe absolutamente nada. A diferença não é imaginação: ela tem explicação biológica e revela como o olfato humano pode variar muito de uma pessoa para outra.

Resumo em 30 segundos:

Quem sente esse odor costuma descrevê-lo como algo rançoso, oleoso ou parecido com peixe estragado. Já quem não percebe nada muitas vezes se surpreende ao descobrir que outras pessoas conseguem identificar a presença do inseto só pelo ar do ambiente, sem nenhum sinal visual.

Entenda o mistério do cheiro das baratas. Infográfico: Gazeta de S. Paulo

A substância invisível que denuncia a barata

Segundo a bióloga Bianca Witzel, as baratas liberam substâncias químicas para se comunicar com outras baratas no mesmo ambiente. Esses compostos ajudam o inseto a indicar alimento, encontrar parceiros e reagir a ameaças, funcionando como uma espécie de mensagem invisível espalhada pelo ar.

Nesse processo, uma substância ganha destaque: a trimetilamina, também chamada de TMA. É ela que está por trás do cheiro que muita gente associa à barata e que, em concentração mais alta, pode lembrar peixe podre ou óleo velho.

Estudos sobre o tema mostram que o receptor humano TAAR5 pode ser ativado pela trimetilamina. Na prática, isso ajuda a explicar por que algumas pessoas identificam esse odor com facilidade, enquanto outras quase não percebem nada, mesmo estando no mesmo lugar.

Por que nem todo mundo sente esse cheiro

O corpo humano tem receptores olfativos específicos para reconhecer sinais químicos do ambiente. Quando esse sistema responde bem à trimetilamina, a pessoa pode notar a presença da barata antes de qualquer sinal visual, como se tivesse um radar biológico mais sensível.

Em reportagem do g1, o biólogo Paulo Ribolla, docente da Unesp, explicou que só percebe esse odor quem possui um receptor capaz de identificar a substância. Quando há variação nesse mecanismo, algo determinado geneticamente, o cheiro pode passar completamente despercebido.

Essa diferença mostra que o olfato não funciona como um sensor igual para todos. Pequenas variações biológicas já bastam para mudar a forma como cada pessoa interpreta cheiros que parecem óbvios para os outros.

O incômodo vai além da curiosidade

O tema chama atenção porque mistura percepção física e reação emocional. Mesmo entre quem entende de biologia, o inseto costuma provocar nojo e desconforto, o que torna o assunto ainda mais fácil de despertar curiosidade no leitor.

Em casas onde há maior chance de infestação, essa sensibilidade parece quase um alerta antecipado. Não por acaso, muita gente procura formas de manter as baratas longe de casa ao perceber esse tipo de odor com frequência.

Quando sentir cheiro de barata pode ser um sinal de alerta

Sentir cheiro de barata quando o inseto realmente está no ambiente é normal. O problema começa quando o odor aparece sem nenhuma fonte real, se repete com frequência ou surge acompanhado de alterações em outros cheiros do dia a dia.

Nesses casos, médicos diferenciam dois quadros principais: a fantosmia e a parosmia. A fantosmia acontece quando a pessoa sente um cheiro que não existe no ambiente. Já a parosmia distorce odores reais, transformando aromas conhecidos em algo desagradável, estranho ou irreconhecível.

Segundo o Portal Drauzio Varella, a fantosmia pode estar associada a infecções virais, enxaqueca, lesões cerebrais, doenças neurológicas, AVC e outros quadros. Por isso, um cheiro persistente sem causa aparente merece avaliação médica.

A parosmia ganhou destaque após a Covid-19. Em reportagem da National Geographic Brasil, especialistas explicaram que ela pode surgir na recuperação do olfato, quando cheiros comuns passam a ser percebidos de forma completamente distorcida.

Sinais que pedem avaliação médica

Nem todo cheiro estranho indica doença, mas alguns sinais justificam atenção. Vale procurar um especialista quando a mudança é recente, frequente ou começa a atrapalhar alimentação, sono e qualidade de vida.

  • O cheiro aparece sem barata, lixo, ralo sujo ou outra fonte identificável.
  • O odor começou depois de gripe, sinusite, Covid-19 ou crise forte de rinite.
  • Cheiros comuns, como café, perfume ou comida, passaram a parecer podres, queimados ou químicos.

Também vale observar o ambiente da casa. Gordura acumulada, frestas, papelão e restos de alimento favorecem a presença do inseto e podem explicar o odor, além de exigir medidas práticas para evitar baratas em casa.

Perguntas frequentes

1. Existe mesmo cheiro de barata?

Sim. Baratas liberam substâncias químicas usadas na comunicação entre os insetos, e uma delas está associada ao odor que algumas pessoas descrevem como rançoso, oleoso, mofado ou parecido com peixe estragado.

2. Por que só algumas pessoas sentem cheiro de barata?

Porque a percepção depende da forma como o olfato reconhece compostos como a trimetilamina. Algumas pessoas têm maior sensibilidade a esse sinal químico, enquanto outras praticamente não o detectam.

3. Quando sentir cheiro estranho pode ser problema de saúde?

Quando o odor aparece sem fonte real, se torna recorrente ou vem junto com distorção de cheiros comuns. Nesses casos, é importante investigar condições como fantosmia, parosmia, rinite, sinusite e sequelas de infecções respiratórias.

Seu olfato é único, e a ciência explica isso

No fim, a história do cheiro de barata revela algo maior: o olfato humano não é padronizado. Diferenças pequenas, muitas delas genéticas, mudam a forma como cada pessoa percebe o mundo e explicam por que algo insuportável para uns simplesmente não existe para outros.

Esse raciocínio vale também para o paladar. Variações genéticas influenciam, por exemplo, a percepção do amargor, o que ajuda a entender por que algumas pessoas rejeitam com facilidade o gosto amargo do café, enquanto outras mal notam.