Rock in Rio: como o sonho quase impossível de Roberto Medina virou o maior festival de música do mundo

A trajetória do fundador do Rock in Rio passa pela publicidade, por Frank Sinatra, por recusas e pela primeira edição do festival

Nesta sexta-feira, 4 de setembro, o público chega à Cidade do Rock com os olhos voltados para os artistas, os palcos e os encontros da edição de 2026. Antes de o primeiro solo ecoar, porém, outra história acompanha o festival: a de Roberto Medina, o publicitário que precisou convencer o país de que um evento daquele tamanho cabia no Brasil.

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Medina não veio da música. Antes de negociar cachês ou comandar uma casa de shows, ele construiu a carreira na publicidade. Foi nesse ambiente que aprendeu a transformar ideias em desejo e campanhas em experiências capazes de ocupar a imaginação do público.

Em 1972, Medina assumiu o controle da Artplan e levou a agência a um dos principais lugares do mercado brasileiro. Em seguida, colocou David Niven, Frank Sinatra e Burt Bacharach em campanhas de televisão, segundo o perfil da Academia Brasileira de Marketing. Essas experiências lhe deram intimidade com grandes nomes e ajudaram a formar o olhar que mais tarde guiaria o Rock in Rio. Ainda faltava, no entanto, testar essa capacidade diante de uma multidão.

O primeiro teste

O teste veio em 1980, quando Medina levou Frank Sinatra ao Maracanã. Para realizar o concerto, sua equipe precisou organizar equipamentos, transporte, montagem e uma negociação internacional em uma época na qual o Brasil ainda não aparecia como parada segura para grandes turnês.

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Ao colocar Sinatra no estádio, Medina provou que conseguia transformar uma operação arriscada em um acontecimento de grandes proporções. Depois daquele show, passou a ter argumentos para procurar outros artistas e negociar com empresários que ainda desconfiavam do mercado brasileiro.

Ainda assim, o festival encontrou resistência. Medina chegou a pensar em deixar o país, mas Maria Alice, sua mulher, o convenceu a permanecer. Ele decidiu insistir justamente no Brasil que começava a respirar os novos ares da redemocratização.

Logo depois, surgiu a oportunidade que daria forma ao projeto. Um cliente queria aproximar uma marca de cerveja do público jovem. Medina respondeu com uma proposta que não cabia em um comercial: reunir artistas nacionais e estrangeiros em uma cidade temporária, com dez dias de shows e uma estrutura própria.

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A primeira Cidade do Rock

Em janeiro de 1985, a equipe ergueu a primeira Cidade do Rock em uma área de 250 mil metros quadrados. O palco tinha 80 metros de abertura, e 1,38 milhão de pessoas passaram pelo local ao longo de dez dias, segundo o histórico oficial do festival.

Além de reunir artistas de diferentes países, a organização mudou a maneira de filmar um grande show. Durante as apresentações, as luzes também alcançaram a plateia e transformaram os rostos do público em parte da transmissão. Quem assistia de casa não via somente o palco, mas também a dimensão da multidão que ocupava a Cidade do Rock.

Para contratar algumas bandas, Medina precisou deixar o ambiente previsível dos ternos e gravatas. Durante uma negociação com o Iron Maiden, chegou a uma casa em Beverly Hills vestido formalmente e encontrou o empresário do grupo de cueca, com restos de macarrão na barba. A cena, contada pelo próprio Medina, expõe o contraste entre o publicitário brasileiro e o circuito internacional que ele tentava conquistar.

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Do Rio para o mundo

Depois da estreia, Medina levou o Rock in Rio de volta ao Brasil em 1991 e, em 2004, apresentou o festival em Lisboa. Mais tarde, a marca chegou a Madri e Las Vegas. O evento deixou de ocupar apenas o Rio de Janeiro e passou a circular por outros países sem abandonar a ideia de juntar música, público e uma cidade criada especialmente para os shows.

Com o tempo, Medina ampliou o projeto. Em 2001, o festival incorporou a iniciativa Por Um Mundo Melhor, com ações ligadas à educação, à cidadania e à sustentabilidade. A mudança aproximou o evento de temas que ultrapassavam a programação musical e reforçou a maneira como o empresário pensava sua criação.

Hoje, Medina preside a Rock World. Quando os portões se abrem, o público vê os artistas sob os refletores e a estrutura de uma grande festa. Por trás dela está a trajetória de um publicitário que começou levando Sinatra ao Maracanã, enfrentou recusas e depois ergueu uma cidade inteira para o rock.