Rússia ficou com reserva de ouro de país europeu enviada durante guerra e nunca devolveu as 91,5 toneladas

Romênia colocou seu tesouro em dezenas de vagões durante a Primeira Guerra, mas a Revolução Russa transformou a proteção em uma disputa centenária

A quantidade reclamada equivale a 88% da reserva romena atual; o primeiro transporte levou 1.738 caixas de ouro, principalmente moedas (Foto: Andrzej Barabasz / Wikimedia Commons / Imagem ilustrativa)

A quantidade reclamada equivale a 88% da reserva romena atual; o primeiro transporte levou 1.738 caixas de ouro, principalmente moedas (Foto: Andrzej Barabasz / Wikimedia Commons / Imagem ilustrativa)

Em dezembro de 1916, enquanto a guerra avançava sobre a Romênia, caixas lacradas começaram a ocupar vagões na estação de Iași. Dentro delas estava uma riqueza que o país não queria ver capturada pelo inimigo: sua reserva de ouro.

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A escolha parecia segura, afinal a Rússia czarista era aliada, compartilhava fronteira com a Romênia e se comprometeu a proteger o tesouro até que o conflito terminasse. O plano era simples: mandar o ouro para longe da linha de frente e trazê-lo de volta depois.

Maiores reservas de ouro da Europa

Trem para Moscou

No conjunto das operações, 91,5 toneladas de ouro fino do Banco Nacional da Romênia ficaram depositadas na Rússia. Havia ainda joias da rainha Maria, moedas raras e coleções que atravessavam mais de cinco séculos da história do país.

Nada deveria permanecer ali para sempre. Inventários detalhavam o conteúdo e protocolos assinados pelas autoridades davam garantias para transporte, armazenamento e devolução.

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Em março de 1917, o czar Nicolau II abdicou diante da pressão da revolução. Em novembro, os bolcheviques tomaram o poder. A Rússia czarista, que havia recebido o ouro como aliada da Romênia, deixou de existir, e o novo governo revolucionário assumiu os cofres de Moscou.

Revolução muda tudo

Em janeiro de 1918, o Conselho dos Comissários do Povo rompeu as relações diplomáticas com a Romênia. O novo governo soviético declarou que a reserva de ouro romena em Moscou não ficaria disponível às autoridades do país.

Os protocolos originais da transferência continuaram preservados pelo Banco Nacional da Romênia, passando de governador para governador ao longo de mais de um século.

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Um século de cobrança

Romênia e Rússia criaram em 2003 uma comissão para estudar questões históricas entre os países. Segundo o Parlamento Europeu, especialistas russos reconheceram a autenticidade dos documentos apresentados pelos romenos e seu caráter de acordo internacional.

Isso, porém, não ajudou a devolver o ouro romeno. Em março de 2024, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução pedindo à Federação Russa a restituição integral do restante do tesouro romeno.

Quase outra reserva

No segundo trimestre de 2026, a reserva de ouro da Romênia era de 103,62 toneladas, segundo dados do World Gold Council compilados pelo Trading Economics.

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As 91,5 toneladas reclamadas representam aproximadamente 88% do ouro mantido em reservas pelo país atualmente. É quase como se outra reserva romena permanecesse, há mais de um século, do outro lado da Europa.

O trem saiu para escapar de uma guerra com a expectativa de retornar quando a paz chegasse. A guerra terminou, o czar foi assassinado, a União Soviética nasceu e desapareceu, mas a viagem iniciada em 1916 continua, juridicamente, sem seu trecho de volta.