Era manhã no Rio de Janeiro e, sob o olhar do Cristo Redentor, veio um brilho flutuando pelas ondas. Em cada brilho, havia uma lata semelhante a uma lata de leite Ninho, mas seu conteúdo não era nada infantil. Aquele período entraria para a história como o “Verão da Lata”.
Carregadas pelas ondas estavam nada menos que 22 toneladas de maconha, que começaram a aparecer em praias brasileiras em um dos episódios mais icônicos do período. Quase 40 anos depois, o cinema brasileiro prepara o lançamento de um filme dirigido por Santiago Dellape inspirado nessa história.
Navio sem carga
Mas talvez você se pergunte de onde veio tanta droga. E a resposta está no oceano Atlântico de 1987 e em um barco chamado Solana Star.
O Solana Star havia saído da Austrália e, depois de passar por Cingapura, seguia em direção aos Estados Unidos. Em algum ponto da viagem, a embarcação recebeu essa carga muito valiosa.

As autoridades brasileiras já estavam atrás da embarcação. Quando enfim receberam um alerta vindo dos Estados Unidos sobre a carga, uma operação começou a procurar o barco no litoral.
Para os homens a bordo, chegar ao Rio com o porão cheio poderia significar prisão.
A solução foi desesperada: jogar toda a carga no mar. Estimativas citadas ao longo dos anos variam entre cerca de 13 mil e 15 mil latas, fechadas para proteger a maconha e lançadas ao mar antes da entrada da embarcação na Baía de Guanabara.
Só havia um problema. As latas boiavam.
Tesouro na espuma
O oceano assumiu o papel de delator do grupo e ajudou a espalhar as latas pelo litoral brasileiro. Os primeiros recipientes começaram a surgir por volta de 20 de setembro em diferentes regiões costeiras.
Um dos registros mais conhecidos foi feito por pescadores de Maricá, que recolheram cerca de 18 latas flutuantes, contendo aproximadamente 1,5 kg de maconha em cada uma. O material foi entregue à polícia.
A partir dali, guardar segredo tornou-se impossível. A notícia atravessou as cidades quase tão rapidamente quanto as latas atravessavam o mar. Praias passaram a receber curiosos, surfistas e moradores olhando para a água à espera de um pequeno cilindro prateado.
Era uma espécie de caça ao tesouro, exceto pelo fato de que a polícia procurava exatamente o mesmo prêmio.

Apenas uma fração do carregamento original acabou recuperada pelas autoridades.
Consequências da lata
O episódio escapou rapidamente das páginas policiais. A maconha encontrada nos recipientes ganhou fama pela qualidade superior à que circulava no mercado brasileiro, e a própria expressão “da lata” virou elogio: algo “da lata” era algo especialmente bom.
Vieram camisetas, histórias, festas e versões cada vez mais difíceis de separar da realidade. No Carnaval seguinte, a lata apareceu em marchinhas e blocos. Anos depois, a expressão chegou também ao trabalho de Fernanda Abreu, que lançou o álbum Da Lata em 1995.

E os bandidos?
A estratégia do grupo foi parcialmente bem-sucedida. O Solana Star já estava praticamente vazio quando entrou na Baía de Guanabara. Porém, a investigação acabou chegando até a tripulação, mesmo que de forma retardada.
Dos tripulantes, o cozinheiro Stephen Skelton acabou preso no Brasil; os demais já haviam deixado o país. Ele foi condenado em primeira instância a 20 anos de prisão, mas acabou absolvido em segunda instância depois de passar cerca de um ano preso.
História vira cinema
É justamente esse limite entre investigação policial, contracultura e absurdo que o novo Verão da Lata pretende reconstruir. Na ficção, Babu Santana e Samantha Schmütz interpretam Brasa e Sandra, policiais federais investigando o caso.
O elenco ainda reúne Humberto Martins, Leandro Firmino, Rafael Saraiva, Alane Dias, Igor Jansen, Polly Marinho e Paulinho Serra. As filmagens terminaram no fim de 2025, com gravações no Rio de Janeiro e em Maricá.

Quatro décadas depois, portanto, o Verão da Lata volta a percorrer o Brasil, desta vez dentro das salas de cinema. A estreia é prevista para novembro de 2026.








