Um animal microscópico congelado desde a Era do Gelo voltou a se mover, se alimentar e se reproduzir em laboratório. Apelidado de “verme zumbi”, o rotífero estava preservado no permafrost da Sibéria havia cerca de 24 mil anos.
A cena parece saída de uma ficção científica, mas abre uma janela real para um dos maiores mistérios da biologia: como alguns seres vivos conseguem atravessar condições extremas sem perder a capacidade de voltar à ativa.
O caso chama atenção porque o organismo não é uma simples bactéria. Embora seja invisível a olho nu, o rotífero é um animal multicelular, com estruturas mais complexas, e conseguiu gerar novos indivíduos após o descongelamento.
O que é o ‘verme zumbi’
Apesar do apelido curioso, o animal não é um morto-vivo. Trata-se de um rotífero bdeloide, um invertebrado microscópico conhecido pela resistência à secura, congelamento, fome e baixos níveis de oxigênio.
Esses organismos vivem, em geral, em ambientes de água doce. No entanto, algumas espécies conseguem entrar em um estado de dormência profunda quando o ambiente se torna hostil, como se o corpo acionasse um modo de sobrevivência extrema.
Embora seja invisível a olho nu, o rotífero é um animal multicelular capaz de resistir a frio extremo, fome e falta de água (Foto: Wikimedia Commons/Bob Blaylock)Como ele sobreviveu por tanto tempo
O segredo está na criptobiose, condição em que o metabolismo fica quase completamente interrompido. Assim, o organismo reduz suas atividades vitais ao mínimo e consegue resistir a períodos longos de frio intenso.
“Nosso relatório é a prova mais forte até hoje de que animais multicelulares poderiam resistir dezenas de milhares de anos em criptobiose, o estado de metabolismo quase completamente interrompido”, afirmou Stas Malavin, pesquisador ligado ao estudo, ao O Globo.
Onde o animal foi encontrado
O rotífero foi recuperado de amostras do permafrost no nordeste da Sibéria. A datação por radiocarbono indicou que o material tinha entre 23.960 e 24.485 anos, período associado ao fim do Pleistoceno.
Depois do descongelamento, os cientistas observaram que os rotíferos voltaram a se alimentar e se reproduzir. A multiplicação ocorreu por partenogênese, processo em que os descendentes são clones do organismo original.
Por que a descoberta impressiona
O achado não significa que animais grandes, como mamíferos, possam ser congelados e reanimados da mesma forma. Quanto mais complexo é o organismo, mais difícil se torna preservar células, tecidos e órgãos sem danos.
Ainda assim, o caso ajuda a ciência a entender mecanismos naturais de proteção contra o frio. Além disso, pode inspirar pesquisas em criobiologia, área que estuda a preservação de materiais biológicos em temperaturas muito baixas.






