Em um mundo em que mensagens chegam a qualquer hora, vídeos são consumidos em poucos segundos, e ficamos presos na rolagem infinita mesmo sem querer. Permanecer alguns minutos sem estímulos parece cada vez mais difícil.
O celular ocupa as mãos enquanto esperamos. Acompanha refeições, interrompe conversas e muitas vezes aparece como resposta automática ao primeiro sinal de tédio. No meio dessa rotina acelerada, uma pergunta pode passar despercebida: quanto estamos realmente percebendo o que acontece ao nosso redor?
Precisamos recobrar os sentidos
A questão está no centro de A volta do sentido: este livro não é (só) para ler, é para viver, escrito pelas médicas Cássia Suzuki, oftalmologista; Márcia Araújo, ginecologista; e Renata Di Francesco, otorrinolaringologista. Publicada pela Buzz Editora, a obra usa ciência, medicina, neurociência e exercícios de percepção para propor uma reconexão com os sentidos como forma de recuperar a presença no cotidiano.
Para as autoras, a hiperestimulação digital não acontece apenas porque passamos muito tempo diante das telas. O problema também está na velocidade com que somos treinados a reagir aos estímulos.
Como funcionam os hiperstímulos
“Quanto maior a velocidade em que a recompensa é oferecida, mais rápido o cérebro a quer. E mais rápido respondemos: a cada notificação do celular, mensagem, algo nos chama e vamos nos acostumando a responder antes mesmo de perceber que fomos chamados”, explicam.
A consequência, segundo elas, é uma dificuldade crescente de sustentar atividades que exigem tempo e atenção. Escutar, pensar, acompanhar uma história, esperar uma resposta ou simplesmente permanecer em silêncio são experiências que não oferecem necessariamente uma recompensa imediata.
“O cérebro não se interessa naturalmente pelo o que é trabalhoso. Escutar dá trabalho, pensar dá trabalho, conhecer uma história, acompanhar os processos dá trabalho. Esperar uma resposta, sustentar o silêncio, exigem de nós uma disponibilidade que o imediatismo não permite”, afirmam.
Uma experiência limitada às telas
Parte da provocação feita pelas médicas está na própria natureza da experiência digital. Dos cinco sentidos tradicionalmente conhecidos. visão, audição, olfato, paladar e tato, as telas acionam principalmente dois: visão e audição.
Isso significa que uma parte significativa das informações que normalmente compõem uma experiência presencial desaparece quando ela é mediada pelo celular ou pelo computador.
“O tato, que poderia reconhecer a textura da pele, da madeira, da folha ou do tecido, passa a deslizar repetidamente sobre o vidro liso da tela. O olfato, que tantas vezes nos conecta à memória, é pouco convocado. O paladar pode ser reduzido a uma refeição consumida rapidamente enquanto os olhos percorrem um feed”, observam as autoras.
A limitação vai além da experiência individual. Para elas, também existe algo que se perde nas relações quando o contato acontece predominantemente por meio das telas: a percepção das pequenas manifestações corporais do outro.
“O silêncio, o cheiro, a postura, a hesitação, o modo como alguém respira antes de responder, o toque, o olhar que se desvia. As interações humanas diretas, ao vivo, ensinam empatia, conexão e troca”, dizem.
É justamente nessas nuances que, segundo as médicas, os vínculos se aprofundam. Conhecer alguém não seria apenas receber informações sobre aquela pessoa, mas permanecer tempo suficiente diante dela para perceber aquilo que não cabe em uma mensagem ou em um perfil.
“Permanecer diante do outro um tempinho suficiente para que ele deixe de ser uma informação e se transforme em presença”, defendem.
E o que acontece quando ficamos entediados?
O silêncio também virou um espaço que muitas pessoas parecem ter dificuldade de sustentar. Na fila, no transporte público, no elevador ou enquanto esperam alguém, sacar o celular se tornou um gesto quase automático.
Para as autoras, existe uma relação cultural com a ideia de que o tempo precisa ser constantemente preenchido. “O maior elogio se espera de alguém que diz que está sempre correndo, ou que não tem tempo para nada, o workaholic endeusado”, afirmam.
O resultado é que até momentos de espera são rapidamente ocupados por alguma atividade. Mas o livro propõe justamente o contrário: experimentar o que acontece quando a atenção volta para aquilo que já está presente.
“Talvez a resposta esteja inicialmente na maneira em que a sociedade atual lida com o nada, ou com o vazio, ou com o negativo. Em como se valoriza a utilidade das coisas. O ‘fazer’. O ‘ser útil’”, reflete.
E não é necessário abandonar o celular ou fugir para um lugar isolado para começar esse processo.
Como recuperar os sentidos no cotidiano
A proposta das autoras começa pelo próprio corpo. Pequenas experiências podem ser suficientes para interromper, por alguns instantes, o automatismo e ampliar aquilo que elas chamam de “biblioteca dos sentidos”.
Durante o café da manhã, por exemplo, é possível prestar atenção ao aroma da bebida antes do primeiro gole, perceber sua temperatura e identificar o sabor. No banho, observar o som da água, a textura da espuma e a sensação da toalha sobre a pele. Ao sair de casa, reparar nas cores da manhã, nos sons da rua e no vento que toca o rosto.
“O primeiro passo é voltar ao corpo. Não necessariamente sair das redes, ir para uma floresta, sair do celular. O convite é mais simples: usar os sentidos”, explicam.
A ideia é transformar atividades corriqueiras em experiências percebidas conscientemente, em vez de executá-las enquanto a atenção está ocupada em outro lugar.
“São exercícios pequenos, mas que conseguem interromper o automatismo e conseguimos ser tocados pela presença. E assim, ampliar o repertório da experiência: nossa biblioteca dos sentidos”, afirmam.
Não é preciso abandonar a tecnologia
Apesar das críticas ao excesso de estímulos, as autoras ressaltam que a proposta não é demonizar celulares, redes sociais ou outras tecnologias. A questão, para elas, é perceber quem está conduzindo a relação: a pessoa ou a ferramenta.
“Trata-se aqui de pontuar que estão a nosso serviço: ‘estou usando a tecnologia, ou apenas respondendo aos seus estímulos?’ A tecnologia deve estar a serviço da nossa experiência, e não determinar a experiência que teremos”, afirmam.
A comparação feita pelas médicas é simples: usar o carro para ir à padaria que fica ao lado de casa é possível, mas não necessário. Da mesma maneira, nem todo momento precisa ser mediado por uma tela.
“Dosar até que ponto a ferramenta é útil para mim e até onde me atrapalha”, resumem. Para elas, as capacidades humanas também precisam ser exercitadas. Quando deixamos de prestar atenção aos sons, cheiros, sabores, texturas e imagens ao nosso redor, reduzimos o repertório de experiências que acumulamos.
“Empobrecemos cada dia de vida limitando as nossas percepções”, afirmam. Por isso, recuperar os sentidos não significa necessariamente mudar radicalmente a rotina. Pode começar justamente onde a pessoa já está: prestando atenção ao sabor do almoço, ouvindo os sons da rua, sentindo o vento no rosto ou observando uma árvore no caminho para o trabalho.
“Mesmo numa grande cidade há muita beleza ao nosso redor. Basta se propor a começar a perceber. As ‘ferramentas’ já temos, basta voltar a usar, voltar a ter sentido”, concluem.
Sobre o livro
A volta do sentido: este livro não é (só) para ler, é para viver tem 256 páginas e é escrito pelas médicas Cássia Suzuki, Márcia Araújo e Renata Di Francesco. A obra combina conhecimentos de medicina e neurociência, reflexões e exercícios de percepção relacionados aos cinco sentidos e a outras formas de percepção corporal. O livro é publicado e distribuído pela Buzz Editora e tem preço sugerido de R$ 69,90.






