Era só terminar o requeijão, lavar o pote de vidro e colocar no armário. Mas, para muita gente, o recipiente não ia para o lixo. Virava copo.
O hábito faz parte da rotina de muitas famílias brasileiras, principalmente nos anos 90, quando marcas de laticínios passaram a transformar as embalagens em objetos que iam muito além da função original.
A ideia era simples: em vez de uma embalagem descartável, o consumidor levava para casa um copo de vidro que podia continuar sendo usado, e havia um incentivo extra: as estampas.
O copo que precisava de um lugar no armário
Os modelos eram feitos de vidro grosso e resistente, com desenhos coloridos aplicados à superfície.
Para quem era criança na época, cada nova embalagem podia significar mais uma peça para a coleção.
Não era apenas comprar o produto. Existia também a vontade de completar os personagens e fechar o jogo de copos.
O ritual começava ainda na cozinha: terminar o requeijão, lavar o recipiente com cuidado para preservar a estampa e, depois, colocar o copo junto dos outros no armário.
Com o tempo, aquela coleção improvisada acabava fazendo parte da casa.
Turma da Mônica, Disney e Looney Tunes
Entre as coleções que marcaram esse período estavam personagens que já faziam parte do imaginário infantil.
A Turma da Mônica, por exemplo, ganhou uma coleção de Nestlé em 1997 que se tornou uma das mais conhecias. Foram cerca de 37 modelos produzidos, incluindo versões especiais de Natal e Ano Novo.
Outras coleções apostaram em personagens e filmes conhecidos, como Pocahontas, 101 Dálmatas e os Looney Tunes.
A estratégia ajudava a transformar um objeto comum de cozinha em algo que despertava interesse justamente por ter um personagem querido estampado.
E, para quem queria todos os modelos, cada nova ida ao supermercado podia representar a chance de encontrar uma peça que ainda faltava.
Nem tudo era desenho infantil
Os copos também ganharam espaço entre quem gostava de arte. A Nestlé estampou algumas peças com trabalhos de pintores brasileiros renomados, levando para a mesa de café da manhã nomes como Tarsila do Amaral, Aldemir Martins, Volpi e Carybé.
A proposta fazia com que uma embalagem presente no cotidiano pudesse também funcionar como uma forma de aproximar o público de obras e artistas brasileiros.
Uma coleção rara chama atenção até hoje
Entre os modelos considerados mais raros está a coleção do programa Glub Glub, da TV Cultura, associada à marca Pauli.
Diferentemente dos copos que eram encontrados com mais facilidade, peças desse tipo, podem despertar um interesse maior entre colecionadores justamente pela dificuldade de encontrá-las.
E é aí que entra uma parte curiosa dessa história: o que era praticamente um objeto descartável ganhou valor com o passar dos anos.
Quanto podem valer esses copos?
O crescimento do mercado de antiguidades e colecionáveis na internet ajudou a aproximar esses objetos de quem deseja recuperar os itens da infância.
Hoje, de acordo com pesquisas, esses copos comuns e vendidos individualmente podem aparecer na faixa de R$ 35 a R$ 50.
Já modelos considerados raros, como os de arte e da coleção Glub Glub, podem alcançar valores superiores.
Em alguns casos, um único copo pode passar de R$ 100, enquanto lotes completos podem ultrapassar R$ 500, especialmente quando acompanham a tampa original.
Esses valores aparecem em plataformas e comunidades de compra e venda, como Mercado Livre, Shopee e grupos de Facebook.
Ou seja, aquele copo que décadas atrás era guardado no armário porque “ainda dava pra usar” pode hoje chamar a atenção de quem procura justamente por peças antigas.
Por que tanta gente quer esses copos de volta?
Existe um componente que não aparece na etiqueta de preço: a memória afetiva.
As pessoas que eram crianças nos anos 90 cresceram e hoje têm maior poder de compra para procurar objetos que fizeram parte da infância.
Por isso, encontrar um desses copos pode significar muito mais do que comprar uma peça antiga.
Poder encontrar um desses modelos atualmente pode significar também reencontrar personagens, desenhos e objetos que fizeram parte da infância.










