Enquanto o clima costuma aparecer nos debates sobre a implantação de ciclovias, a cidade de Montreal, no Canadá, mantém parte de sua rede cicloviária em funcionamento durante o inverno, mesmo com temperaturas negativas e acúmulo de neve.
A estratégia combina vias protegidas, planejamento urbano e serviços de remoção de neve para permitir que a bicicleta continue sendo uma opção de deslocamento ao longo do ano.
A cidade conta com uma rede de 1.083 quilômetros de vias cicláveis. Desse total, 740 quilômetros podem ser utilizados durante todo o ano, segundo dados oficiais da prefeitura.
A estrutura inclui 251 quilômetros de ciclovias protegidas por barreiras físicas, como muretas de concreto e postes, além de 489 quilômetros de faixas delimitadas por pintura e sinalização.
Limpeza da neve ajuda na liberação da ciclovia
Em Montreal, muitas ciclovias são limpas ao mesmo tempo que as ruas próximas ou logo depois. A prefeitura mantém um serviço para receber reclamações sobre a remoção inadequada de neve e informa que algumas faixas podem ficar temporariamente inacessíveis durante as operações de retirada e transporte do material acumulado.
A manutenção, no entanto, não elimina todas as dificuldades. O gelo, a neve acumulada e a menor visibilidade durante os meses frios continuam sendo obstáculos para quem pedala.
Segundo o Observatoire du vélo, ligado à Vélo Québec, 61% dos ciclistas que pedalam no inverno apontam o gelo como uma barreira importante.
O levantamento também indica que a probabilidade de um ciclista deixar de pedalar em determinado dia quase dobra quando as vias estão cobertas por gelo ou neve.
Os dados reforçam que a continuidade do serviço depende não apenas da existência de ciclovias, mas também das condições de manutenção e segurança oferecidas aos usuários.
Uso da bicicleta no inverno
A utilização da bicicleta durante os meses frios também cresceu em Montreal. Dados reunidos pela Vélo Québec mostram que a proporção de ciclistas que permanece pedalando no inverno em relação aos períodos mais quentes aumentou de 8,4%, no inverno de 2016–2017, para 13,6%, em 2020–2021.
O indicador compara a quantidade de ciclistas contabilizados entre dezembro e março com os registros de junho a setembro.
Embora os números sejam de períodos anteriores, eles mostram uma evolução no uso da bicicleta durante o inverno, paralela à ampliação das rotas abertas e à melhoria das práticas de manutenção.
O Réseau express vélo (REV), rede expressa de ciclovias de Montreal, é a estrutura central desse sistema.
A infraestrutura conecta diferentes regiões da cidade e oferece trajetos separados fisicamente do tráfego de veículos em parte de sua extensão.
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Mobilidade também envolve custos públicos
A discussão sobre infraestrutura cicloviária vai além das condições climáticas. Um estudo divulgado pelo Observatoire du vélo em abril de 2025 analisou os custos privados, públicos e externos associados a diferentes meios de transporte na região metropolitana de Montreal.
A pesquisa considera despesas individuais, gastos com infraestrutura e efeitos sobre a sociedade, como poluição e impactos na saúde.
Segundo os autores, até 32% das viagens de carro analisadas poderiam ser transferidas para caminhada, bicicleta ou transporte coletivo sem acrescentar mais de cinco minutos ao tempo total de deslocamento, dentro dos cenários estudados.
Nessas condições, a mudança poderia gerar uma economia de 900 a 1.000 dólares canadenses por motorista ao ano.
Os pesquisadores também estimaram reduções potenciais de custos públicos e de impactos ambientais. Trata-se de projeções, e não de economias já registradas.
O estudo não calcula especificamente o custo da limpeza de neve nas ciclovias. Ainda assim, amplia a discussão sobre as decisões de mobilidade e os efeitos que elas podem ter para os usuários e para a coletividade.
O que o modelo de Montreal mostra
A experiência canadense indica que o inverno não impede necessariamente o uso da bicicleta como meio de transporte.
Para isso, porém, é preciso combinar infraestrutura adequada, manutenção contínua e condições de segurança compatíveis com o clima.
O modelo também tem limitações: nem todas as vias ficam acessíveis durante as operações de limpeza, e o gelo continua influenciando a decisão de pedalar.
Por isso, a experiência de Montreal não significa que qualquer rede cicloviária funcione normalmente sob neve intensa, mas demonstra a importância do planejamento e da manutenção para ampliar as possibilidades de deslocamento durante o ano.











