A entrevista do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), transmitida na noite de sexta-feira (16/10) pela TV Globo, foi marcada por um tom incisivo e constantes desvios das perguntas propostas.
Durante cerca de 40 minutos, a jornalista Renata Lo Prete tentou conduzir a sabatina com pedidos recorrentes de retomada ao tema principal, enquanto o parlamentar aproveitou a visibilidade em horário nobre para direcionar o discurso à sua base eleitoral.
O início do programa concentrou um dos raros momentos de resposta direta. O pré-candidato garantiu que não pretende extinguir o reajuste do salário mínimo nem alterar os pisos constitucionais destinados às áreas da saúde e da educação. Por outro lado, ao ser provocado sobre a viabilidade das contas do ajuste fiscal, Flávio não detalhou planos concretos e apontou soluções genéricas baseadas no combate à corrupção e na aplicação de inteligência artificial.
Desvios e pautas regionais
Ao ser questionado sobre a punição aos envolvidos na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro, em Brasília, o senador optou por mudar o foco. Em vez de responder diretamente sobre o atentado à democracia, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria promovendo um “golpe nos motoboys de São Paulo” — uma sinalização clara a dados de pesquisas qualitativas voltadas ao eleitorado paulista.
Apesar das investidas da mediadora para retomar o tema central, Flávio manteve a narrativa de confronto, declarando que a verdadeira depredação do país partia do atual governo. Quando finalmente abordou a data de 8 de janeiro, defendeu que os manifestantes deveriam responder apenas pelos danos ao patrimônio público. Na mesma oportunidade, saiu em defesa do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), atualmente preso e condenado pela tentativa de golpe de Estado.
Influência familiar e articulação política
Embora tenha evitado detalhar se a anistia ao pai seria a prioridade absoluta de sua gestão, o presidenciável reforçou o peso político da família em sua pré-candidatura. Flávio afirmou que “não está no radar” a concessão de um cargo formal a Jair Bolsonaro em um eventual governo, ressaltando, contudo, o “privilégio” de poder consultar um ex-presidente a qualquer momento.
A principal novidade da entrevista envolveu seu irmão, Eduardo Bolsonaro. Pela primeira vez de forma pública, Flávio comprometeu-se a não nomeá-lo para o comando do Ministério das Relações Exteriores, apaziguando receios de aliados políticos. A situação de Eduardo permanece delicada: o ex-deputado encontra-se nos Estados Unidos sob mandado de prisão expedido pela Justiça brasileira, o que inviabiliza seu retorno imediato ao País.
Apesar do compromisso sobre o Itamaraty, o senador esquivou-se de responder se o irmão indicaria o titular da pasta ou se ocuparia outro ministério no Poder Executivo.
Além disso, o candidato, que defende o fim da reeleição, afirmou que nenhum parente seu se candidatará à presidência em 2030, caso ele seja eleito em 2026.
Bandeiras tradicionais e desarmamento
Alinhado às pautas históricas do bolsonarismo, o candidato do PL voltou a defender o amplo acesso de cidadãos às armas de fogo. Embora não tenha detalhado quais alterações pretende realizar no Estatuto do Desarmamento, contestou relatórios e análises de especialistas que associam o aumento da circulação de armas de fogo aos índices de violência urbana.
Ao término da sabatina, o cenário deixado pelo presidenciável indicou a manutenção integral das diretrizes e da postura política que caracterizam seu grupo familiar.
